Um dos filmes mais interessantes da temporada é A CULPA É DE FIDEL, dirigido pela filha do cineasta grego Costa-Gavras, Julie. Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey, fantástica) é uma menina de 9 anos que já se acha uma mocinha. Não gosta da correria típica de criança, ensina bons modos aos seus parentes (como se deve cortar uma laranja, por exemplo) e adora ler Marie Claire. Comportada, equilibrada, disciplinada, a menina é uma católica ferrenha, estudante de um colégio de freiras.
O maior problema na curta vida de Anna está mesmo dentro de casa. Seus pais são esquerdistas militantes. Todo o castelo cor-de-rosa que a menina construiu, pouco a pouco, vai desmoronando. A bela casa com um lindo jardim tem que ser vendida. A babá reacionária, sempre a avisar a pequena que os barbudos são comunistas perigosos e que toda aquela situação é por culpa de Fidel Castro, tem que ser dispensada. A mãe, Julie Depardieu (filha de Gerard Depardieu), até então representante da voz burguesa por ser colunista da revista Marie Claire, decide escrever um livro que trata do aborto, e começa a receber a visita de mulheres que querem contar sua história a respeito do tema. O pai (o italiano Stefano Accorsi, ator do sucesso O ÚLTIMO BEIJO, que teve aulas de espanhol) possui um passado misterioso na Espanha, recebe a visita da irmã e da sobrinha, fugidos da Península Ibérica por conta do franquismo.
Reprodutora dos discursos que escuta da babá, dos avós e na escola, a pequena Anna resiste à pressão comunista em casa e exige que seus pais lhe dêem a qualidade de vida que antes possuía. De sua boca saem pérolas descontextualizadas, como por exemplo avista amigos barbudos do pai em sua casa e diz que eles são todos assassinos que querem o dinheiro da família. Curiosa, a pequena indaga ao pai o que significa Paris de 68 e pergunta também se agora eles são pobres, tratando de economizar, apagando a luz e desligando o aquecimento central.
Muitos podem achar um tanto exagerado o tom didático com que pai e mãe insistem em mostrar para a filha a necessidade de ela ser solidária, simpatizante do comunismo e etc. Contudo, a história passa por Anna. É dela o ponto de vista, ainda que seja uma espécie de narradora implícita. É a visão da menina que amplia ou diminui a intensidade desse discurso esquerdista. Sintomática é a cena da passeata. A família luta pela democracia no Chile e leva a filha para o movimento. O espectador pode ficar chocado com tal ato, e isso é intencional, já que o ponto de vista da câmera também é o de Anna. Vemos apenas pessoas à altura da menina, pernas que se apressam, em meio à fumaça e à confusão.
Com uma certa licença poética, percebe-se que a diretora faz um filme em que o tom político é secundário, ainda que surja em quase todas as cenas. É uma história familiar, que mostra de forma lenta a pequena transgressão de uma menina que acreditava viver em um mundo organizado. Porém, autoritarismo e disciplina, para ela, eram sinônimos de organização. À medida que o filme avança, tudo sai da ordem.
É a compreensão do que é a liberdade que faz Anna, justamente, libertar-se das suas angústias.
Notável a cena em que a menina é desafiada na escola a responder certa questão histórica. Apesar de saber da resposta, todos os coleguinhas levantam a mão na alternativa errada. Tão catequizada está a tentar ser mais solidária, a menina levanta a mão, mesmo sabendo tratar-se da resposta errada. Mais tarde, pergunta ao pai: Como sabemos quando estamos sendo solidários ou quando apenas seguimos a maioria… Também a cena em que vê uma pata de raposa presa em uma armadilha, e o avô explica à neta que o bicho roeu a própria pata para ver-se livre, será essencial para um pequeno confronto sobre ser livre entre a menina e um freira-professora.
A CULPA É DE FIDEL termina com as repercussões da conturbada situação política no Chile. Impossível não pensar no filme de Costa-Gravas, MISSING, que tratava do Golpe Militar que derrubou Allende. Impossível não imaginar os ecos que o filme do pai teve sobre a menina, agora diretora. O que é possível perceber é a extrema sensibilidade com que Julie trabalha, vide a última e maravilhosa cena, de uma cumplicidade silenciosa entre pai e filha (depois que ambos visitam a Espanha e a ela é revelado serem descendentes de uma família nobre que torturava as pessoas em cima da mesa, daí o sobrenome).
Com uma maravilhosa direção de atores, que nos brinda com impressionantes interpretações infantis, a cargo de Kervel-Bey e de seu pequeno irmão, o ator mirim Benjamin Feuillet, o filme é quase uma fábula sobre o difícil processo do amadurecimento. O mundo era outro, é verdade. As lutas eram outras, ou ao menos existiam. E o olhar furioso e, ao mesmo tempo, doce de Anna é a mostra das contradições daquela época.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Um filme muito gostoso de se vê e de se discutir. Adorei o figurinho, principalmente o das crianças. Um filme que quero ter em casa e assistir sempre que der vontade!
Adorei esse filme. É do tipo que vou rever muitas vezes. Todos os atores estão muito bem, mas a atuação da Nina Kervel-Bey é realmente impecável e impressionante. Seu texto foi o melhor que li até hoje, sobre ele. Um fato que notei e que eu acrescentaria, mas é uma visão minha e talvez não da diretora, é de que até que ponto vale “sacrificar” ou prejudicar a vida em família, por um ideal.
Olá assisti o filme e adorei! Hoje terei prova na universidade, e esse é um dos assuntos para estudo. Obrigada.