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categoria: CINEUROPA

A CIDADE E A MÚSICA

Fui convidado a assistir ao filme O CÉU DE LISBOA (LISBON STORY), dirigido por Wim Wenders. Não me lembrava se eu já o havia visto. Achava que sim, pela metade. Porém, rever, ou ver após ter lá vivido, poderia ser interessante.

 

A história praticamente inexiste. Trata-se de um produtor de som (Phillip Winter, interpretado por Rüdiger Vogler) que recebe um cartão postal com pedido de socorro de um diretor filmando  em Lisboa. Chegando lá, ele não encontra o diretor e parte à sua procura. Um grupo de meninos tenta ajudá-lo. Enquanto isso, o sonoplasta trata de captar sons da capital portuguesa: o vento, as árvores, o comboio, o elétrico, a música. É quando Madredeus, com a voz cristalina de Teresa Salgueiro, chama a sua atenção. Tocando ao lado de onde vive Winter, Madredeus faz a trilha sonora no filme do seu amigo. E é essa a história.

 

Com a nítida proposta de prestar uma homenagem a Lisboa, esse poema-visual de Wenders não atinge o seu objetivo. Filmado em 1994, quando a Europa começava a destruir suas fronteiras (boa a seqüência inicial em que Winter cruza a Europa, saindo da Alemanha, passando por França e Espanha até chegar em terras lusas), Wenders mostra com ternura a cidade. Cenas dos elétricos que deslizam por suas ruelas, as velhas senhoras e as crianças pela Alfama, o Tejo e toda a sua exuberância, o Rossio e seu chafariz, emolduradas pela trilha sonora de Madredeus, não são suficientes para segurar a atenção do espectador. A Lisboa que aparece na tela não tem ainda a grana da comunidade européia, mas o charme já lá estava. Incrível perceber como muita coisa mudou em 13 anos. A cidade de hoje está muito melhor conservada e mais modernizada.

 

Teresa Salgueiro é a musa de Winter. Ela canta e sua voz esparrama-se pelo filme. Sr. Winter, não por acaso com o gelo por fora quebrado pelo céu sempre azul, sempre lindo, de Lisboa, apaixona-se pela cantora, mesmo que não haja a menor química entre eles. Aliás, não há indício de um romance, mas ainda assim, os personagens agem como se isso fosse óbvio.

 

Por falar em Madredeus, a banda ainda tinha o nome de Rodrigo Leão entre ela. Rodrigo, um extraordinário músico, hoje faz carreira solo e tem bastante sucesso pela Europa. Além da participação da banda portuguesa, o cineasta Manoel de Oliveira faz uma ponta, falando sobre cinema e imitando Chaplin pelas ruas de Lisboa.

 

O que fica de O CÉU DE LISBOA é a cidade e a música. Do cinema, muita coisa falta. Com cenas de uma plasticidade excelente e outras absolutamente desnecessárias, o filme de Wenders não tem um fio narrativo nem personagens carismáticos que possam garantir algum interesse. Mas Madredeus pode agradecer pela divulgação de seu trabalho. O grupo estourou na Europa ainda mais depois do filme. Lisboa também agradece, mas merecia uma homenagem melhor.        

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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