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	<title>Argumento.net &#187; OU SOMBRA</title>
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	<description>CADA ARGUMENTO NO SEU GALHO</description>
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		<title>A morte a cada dia que amanhece</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Nov 2008 02:20:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[Pontada fina no peito, tenho tido com freqüência. Semana que vem vou ao médico, sem falta. Da última vez que eu fui acharam uma mancha preta no meu pulmão, fiquei com medo e não voltei na semana seguinte como o médico tinha mandado. Devia ter voltado, mas tive medo. Logo depois da pontada, três bêbados [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pontada fina no peito, tenho tido com freqüência. Semana que vem vou ao médico, sem falta. Da última vez que eu fui acharam uma mancha preta no meu pulmão, fiquei com medo e não voltei na semana seguinte como o médico tinha mandado. Devia ter voltado, mas tive medo. Logo depois da pontada, três bêbados na rua. Por um momento tive a impressão estranha de que eu era um deles. Gritaram qualquer besteira, não consegui ouvir. Li esses dias em algum lugar que a surdez era o novo sintoma da aids. Não volto no médico por nada.<br />
6 da manhã. Passo devagar a a língua entre os dentes, um dente quebrado e não lembro como, não sei nem se foi ontem.<br />
Na verdade, pensando bem, não sei onde estou. Levanto e quase caio novemente. Uma tontura bate na minha cabeça. Devia perguntar pro médico o que é isso também. Mas não volto. E tenho medo que ele me diga que é sintoma de uma doença rara sem cura. Ou pior, diga que é coisa da minha cabeça. Lavo a cara, mas a alma não lavo de jeito nenhum. Vejo o dia cinza pela janela desse último quarto do corredor de algum hotel, e finjo que não ouço a mulher do quarto do lado gritando de prazer com o marido, ou vai ver que é uma prostituta, sei lá.<br />
A tontura, o dente quebrado, uma mancha no pulmão, e desconfio de uma outra no coração. Ah, são tantos sintomas, os traumatismos, os cortes, os arranhões, os meus gritos, a morte a cada dia que amanhece. E uma solidão que eu acho que não é sintoma, é simplesmente parte de mim e desse quarto vazio. Também tem essa tosse que não pára nunca. A tosse é sintoma da solidão, eu acho, porque o cigarro eu sei que é, a tosse deve ser também. Tenho que parar.</p>
<p>Já são três coisas, um médico pra aquela mancha, um dentista para o dente quebrado, e alguma coisa que me faça parar de fumar. Ah, deixa pra lá. Acendo um cigarro e tusso três vezes. Se eu parasse de fumar a mancha desapareceria eu acho, ela era pequeninha. Sim, eu posso fazer essa coisa desaparecer, mas e da mancha no coração, quem é que vai cuidar?</p>
<p>A janela desse hotel não abre e eu só posso ver as coisas pelo vidro. Essa vida inteira me cai como uma tempestade. Me recuso a olhar pra fora e ver todos esses urbanóides loucos correndo pra agradar o sistema. Me recuso a olhar pra fora, mas te busco nos quatro cantos dessa cidade superficial, que não faço questão de conhecer. Te busco nessas ruas, ao telefone, em telegramas, cartas, aeroportos. E não acho. Então encho a cara no bar da esquina, beijo estranhos enquanto rasgo as noites em que eu sei que você não está. Parto em lágrimas por ruas que nunca vi, e choro em ombros que não conheço. E grito os sintomas da minha solidão, enquanto desejo e imploro um final feliz.</p>
<p>Volto pro último quarto do hotel e imploro ao porteiro, por favor, me diz que o telefone tocou, que a ligação era interurbana, e que alguém soluçava do outro lado da linha querendo me encontrar. Mas nada. Nem telefonema, nem carta, nem esperança. E eu me sinto como um quarto vazio no fim do corredor de um hotel de uma cidade que eu não conheço. Ligo a TV, e não sei o que procuro com essa porra desse controle-remoto. Desligo a TV. Bebo, bebo, bebo, fumo além da conta no que sobrou de um fundo de poço. Essa janela que não abre, a fumaça toma conta. A tontura, dessa vez não é sintoma, é bebida. Passo a língua entre os dentes. Uma pontada no peito. Lembro da mancha no pulmão, mas não apago o cigarro. Te busco em qualquer lugar dentro de mim.</p>
<p>Essas tonturas vão continuar. Eu não sei o que que é. Alguém me diz. Diz também, essa mancha no peito, quem é que tira?</p>
<p>Acho que não duro muito mais que isso.</p>
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		<title>ESQUINAS</title>
		<link>http://www.argumento.net/especiais/sombra/esquinas/</link>
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		<pubDate>Wed, 12 Nov 2008 01:04:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[Acabou. Conclui ao abrir a janela em um dia chuvoso de verão. Em um dia triste, com meu coração mais triste que o dia, minha alma se partiu como um vaso vazio que escapa das mãos descuidadas de alguém. Mas minha alma já não chora. E no meu coração, dividido em dois, as duas metades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Acabou. Conclui ao abrir a janela em um dia chuvoso de verão. Em um dia triste, com meu coração mais triste que o dia, minha alma se partiu como um vaso vazio que escapa das mãos descuidadas de alguém. Mas minha alma já não chora. E no meu coração, dividido em dois, as duas metades gritam. Mas por pouco tempo ainda vão gritar, penso assim ao fechar a mala. Porque chega uma hora em que arrumar a mala é menos dolorido do que continuar vivendo ao lado de algum alguém. E falo assim, algum alguém, tão anonimamente, por não me interessa mais quem foi esse alguém e nem importa quantos sorrisos me deu, e nem quantas lágrimas calaram. O que importa é que acabou e os cacos de minha alma que deslizaram das suas mãos estão agora na mala. Acabou. Conclui ao bater a porta da casa logo atrás de mim.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">            </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Sem sorte, nem norte, guardo madrugadas transbordando solidão. Mas com o coração na mala o peso do peito diminui. E cada vez fico mais longe de voltar. Há um fantasma em cada esquina dessa rua e o som da chuva chega a ser sincero, como se cantasse uma tristeza com os pingos caindo ritmados na calçada. Pedestres sem reação olhando a vida como quem olha o nada. Escadarias de igrejas sujas, com os restos de pessoas como eu, que tiveram um fim recente e ainda não souberam se adaptar. Penso na vida como um só quarteirão. Estático e infinito. Em algumas esquinas encontro, e na outra já perdi outra vez. E eu rodo e rodo em volta desse quarteirão com o coração na mala, que cada vez vai ficando mais pesada. Será que viver é mesmo assim? Apenas segurar o coração nas mãos enquanto tudo roda e se perde em cada curva? Já dobrei tantas vezes essas mesmas esquinas. Sempre tão igual. A vida repete sempre a mesma cena. Primeiro procuro um emprego, um apartamento, uma coisa além do tédio pra matar o tempo, e se ainda assim me sobrar tempo, procuro algum amor. Porque, afinal, tem alguém no mundo que sabe realmente o que ele é? Então vou chamar de amor aquilo que eu quiser. E escolhi algum alguém para amar, porque há muito tempo alguém me disse que era necessário. E no começo nem eu poderia imaginar tanta beleza. Repetia seu nome quando você não estava perto. E nas escadarias desse quarteirão via seu rosto pintado. Em cada canto, em cada parte, em cada centímetro dessa vida. E procurava seu cheiro no meu corpo. E você vinha. Cada vez mais perto do meu peito. Até que veio o dia em que eu finalmente abri meu peito e lhe entreguei meu coração, você pegou com cuidado e fez questão de guardar. Mas magia dura pouco, e meu olhar tão preso ao teu, não sabia mais enxergar sozinho, e tudo aquilo que um dia eu vi, não pôde mais ser observado, pois você chegou à esquina seguinte. E esquina é morte certa. Meu coração, assim como minha alma, deslizando tão suavemente das tuas mãos. Junto os cacos. Coração na mala. Para nunca mais.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">            Nunca mais? Essa coisa existe mesmo? Nunca mais até a próxima esquina. E aí é pra sempre até a seguinte. Até perder a magia, ou até perceber que essa porra de magia do amor que falam é só o caminho entre uma esquina e outra. Calçada é só caminho. Esquina é sempre morte. É essa teoria da vida como um só quarteirão. Demorei mais até chegar nesse cruzamento que me encontro agora. Rolava boba nos braços apressados. Cantava louca uma canção apaixonada. Ia gritando de olhos fechados, sem ver a outra rua, logo ali. Eu ia cantando pra você, enquanto meu coração deslizava da sua mão. Eu dizia ao pé do seu ouvido. Eu gritava pra quem quisesse ouvir. E não venha me dizer que não gostava. Essa mentira da magia do amor é o melhor de todo quarteirão. A gente vai desvairadamente gritando, repetindo, sem saber que um dia a magia acaba. Gostava tanto de você. Repito ainda. Sem medo. Gostava tanto de você&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Enquanto andamos em linha reta parece que a magia não tem fim. Aí vem a curva. A magia segue reto e a gente dobra, porque a vida manda a gente dobrar. Aliás, nem sei se é a vida que manda. Deve ser alguma outra coisa. Não acredito em Deus e bobagens assim, mas deve ter alguma força maior que faz a gente virar quando chega à esquina. Porque a via não pode ser só isso. Viver não deve ser apenas esse trabalho duro. Espero que não. Mas não temos tempo, já dobramos a nova esquina. Aquela rua acabou. Agora é essa nova rua, com loucos, tolos, insanos que ainda cantam amores. Eu não quero mais essas esquinas. Não consigo mais contar quantas mortes vivi. Chega de magias que acabam antes do fim da dança. Sempre essa sensação de quem errou a porta do sentimento. Desculpa, mas a vida não deve ser só essa coisa de segurar a barra. Não deve ser apenas sobreviver. Foi só mais um engano. Quantas vezes já dobrei essas esquinas? Será só mais um engano? Procuro alguém. Alguém que não seja engano. Me despedaço poeira nessa esquina à procura de algo que não seja morte. Peço esmola nesse cruzamento. Mas não quero dinheiro, quero apenas algo pra matar essa sede. Largue tudo nessa esquina, atravessemos a rua para outro quarteirão. Sem parar, sem dobrar. Mas os loucos só cantam amores que morrem daqui a pouco e não ouvem. Eu quero algo que não seja engano. Todos desaprenderam o jeito. Não conseguem ver. Só seguem em frente e dobram quando mandam. Dobram e dão de cara com a morte. Eu não quero isso. Uma esquina e acabou. Outra esquina e acabou. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">            Acabou. Conclui um segundo antes </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;"> </span></p>
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		<title>PONTO. NOVA LINHA</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Nov 2008 00:11:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><em>&#8220;Parece </em><em>incrível</em><em> </em><em>ainda</em><em> </em><em>estar</em><em> </em><em>vivo</em><em> </em><em>quando</em><em> </em><em>já</em><em> </em><em>não</em><em> se acredita </em><em>em</em><em> </em><em>mais</em><em> </em><em>nada</em><em>. </em><em>Olhar</em><em>, </em><em>quando</em><em> </em><em>já</em><em> </em><em>não</em><em> se acredita no </em><em>que</em><em> se </em><em>vê</em><em>. E </em><em>não</em><em> </em><em>sentir</em><em> </em><em>dor</em><em> </em><em>nem</em><em> </em><em>medo</em><em> </em><em>porque</em><em> atingiram </em><em>seu</em><em> </em><em>limite</em><em>. E </em><em>não</em><em> </em><em>ter</em><em> </em><em>nada</em><em> </em><em>além</em><em> deste </em><em>amplo</em><em> </em><em>vazio</em><em> </em><em>que</em><em> poderei </em><em>preencher</em><em> </em><em>como</em><em> quiser </em><em>ou</em><em> deixá-lo </em><em>assim</em><em>, </em><em>sozinho</em><em> </em><em>em</em><em> </em><em>si</em><em> </em><em>mesmo</em><em>, </em><em>completo</em><em>, </em><em>total</em><em>. </em><em>Até</em><em> a </em><em>próxima</em><em> </em><em>morte</em><em>, </em><em>que</em><em> </em><em>qualquer</em><em> nascimento pressagia.&#8221; (</em><em>Lixo</em><em> e </em><em>Purpurina</em><em> &#8211; Caio F.)</em><br />
 <br />
Aquela noite parecia uma fotografia em preto e branco, só que um pouco diferente. As fotografias em preto e branco costumam ter um certo romantismo, aquela noite não. Atravessei metade da cidade pra me servirem vodka com coca-cola e eu me sentir um pouco menos vazia. Não funcionou. Não gosto de festas; saí de casa apenas porque era sábado de noite e não queria ficar jogada no sofá esperando o telefone tocar.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">Sentei em um canto misturando a coca cola e a dose de vodka com o indicador, não bebi nenhum gole, apenas lambi meu dedo pra tirar aquele molhado e sentir aquele gosto forte em minha língua. Arrepiei-me dos pés aos fios de cabelo. Todo mundo estava dançando algum daqueles rock’s dos anos 60. E aquela batida fazia meus pés tremerem, disfarçando o real nervosismo. Era aquela coisa meio sapateado meio rebolado, meio Elvis. Acho lindo, até porque tenho uma atração louca por qualquer mulher que dance bem. Talvez nem seja uma atração, porque tenho um preconceito enorme, e acho que a maioria das mulheres que tem muita arte no pé, não tem nada na cabeça. Às vezes sobe em mim uma vontade louca de dançar de olhos fechados no escuro, sem repetição, é pra não ver nada mesmo. Dançar, quase pular, de pés descalços em cima de cacos de vidro, sem masoquismo, apenas pra sentir de verdade, mas isso é só às vezes. Hoje eu não danço, pensei. Talvez aquela noite não tivesse romantismo porque eu o repudiava, porque eu impedia. Talvez porque para o romantismo, para todas as ações românticas, e aquelas coisas para se lembrar para o resto da vida, precise de simpatia. Talvez porque romantismo exija duas pessoas e eu sentei sozinha e esse advérbio solitário necessita de mais alguém. Talvez porque, naquela noite, eu não tinha nem a mim mesma, assim, me sentia completamente incapaz de ter a qualquer outra pessoa.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">Aquela noite parecia um diálogo. Porque sua fórmula era simples e objetiva, igual àquela regra de ponto, nova linha, travessão. Aquela noite era necessidade, saudade, solidão. Eu não pertencia àquele lugar, ou talvez não pertencesse a lugar nenhum. Eu não me sentia a vontade ali, ou talvez simplesmente não sentisse. Eu passei pela pista de dança e acho que ninguém me viu, meus pés nem ameaçaram se mexer de acordo com o compasso da música. Pisaram em mim no mínimo três vezes, uma das pessoas quase caiu quando tropeçou nos meus sapatos velhos e desbotados, mas acho que mesmo assim não notou.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">Fui até a sacada e olhei pro céu, que nem parecia um céu de cidade. A lua não estava cheia, mas estava maravilhosa. Parecia o sorriso daquele gato. As estrelas pareciam mais perto do que nunca e pulsavam tão rapidamente que me deixavam com dor de cabeça, com aquele palpitar que parecia querer me acusar de alguma coisa. Apoiei-me na beira da sacada feita de madeira e olhei pra baixo. O chão pareceu-me perto demais, mesmo eu estando no décimo primeiro andar. Parecia que se eu me abaixasse chegava ao chão e se me ergue-se batia a cabeça no sorriso felino. Não via nenhum carro passar na rua, e mesmo que lá embaixo avistasse algumas pessoas andando pela cidade, ela parecia vazia. A impressão que eu tinha era que aquela festa estava minúscula, aquela cidade, aquele mundo. Tudo. O espaço que eu tinha pra me mexer era menor do que uma cela de prisão. Gritei. Não sei o que, nem porque, só sei que gritei. Talvez pra quebrar as grades da cela, talvez pra alguém me ouvir, talvez apenas por desejar, provavelmente por necessitar.<br />
As pessoas não entendem o desejo de ficar sozinha. Elas são agitadas demais e não entendem a vontade de ficar parada por alguns segundos, ou talvez por horas, apenas pra tentar por no lugar qualquer coisa que algum dia me assustou, qualquer coisa que algum dia me encantou, qualquer coisa, dessas que gritam no meu peito, e que não são poucas. Pra tentar por no lugar qualquer coisa que me falta, que me incomoda, que fazem eu querer explodir o mundo, a casa, a vida. Essas coisas que se instalam no lugar mais dentro de mim e fazem com que eu queira morrer, desistir, deixar de lutar. Preciso da minha exclusão pessoal, meu esconderijo pra tentar continuar. Mas ninguém entende isso. Alguém se aproximou de mim e chegou exageradamente perto, chegou a uma distância na qual não passaria nem o vento. Uma proximidade que eu não queria nem comigo mesma naquela noite. Eu não queria falar com ninguém, mas alguém perguntou:<br />
- Quer um cigarro?<br />
- Não fumo.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">Continuei ali enjaulada, pensando em me esticar e ver se alcançava mesmo aquele sorriso, talvez precisasse de um. Derramei toda a coca-cola com vodka, que tinha em meu copo, prédio abaixo, e admirei ela se libertar pelo ar em um suicídio, ou homicídio, até ver aquele liquido virar forma plana quebrando-se na calçada. Queria ver se o chão estava realmente perto. Não estava, mas parecia. Eu não queria me explicar, mas alguém perguntou:<br />
- Não bebe também?<br />
- Não bebo.<br />
- Deixa eu adivinhar, não dança?<br />
- Não danço.<br />
- Ta se guardando pra quando o carnaval chegar?<br />
- Não gosto de carnaval.<br />
- Sabe, qualquer pessoa nessa festa mandaria você à merda agora mesmo&#8230;<br />
- Pode mandar.<br />
- Menos eu.<br />
Eu só queria olhar as estrelas, mas alguém queria teorizar:<br />
- Você gosta de olhar as estrelas?<br />
Eu só queria ficar quieta, mas alguém queria justificar:<br />
- Por que você está aqui?<br />
- Pra verbalizar a solidão.<br />
- Me beija.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">Beijei. Senti gosto de cigarro, bebida e até de carnaval. Botei a mão no rosto de alguém, alguém botou a mão em minha cintura. Eu ouvi o telefone tocar no fundo da minha cabeça, mas não era real. Pedi o improvável. Desejei o impossível. Senti a necessidade aumentar a cada segundo. Senti a saudade gritar. Senti o céu se aproximar e o chão se abrir, a lua apagar e tudo escurecer. Senti a solidão batendo contra meu peito, querendo doer ainda mais. Beijei. Mas por nenhum segundo fechei meus olhos.<br />
Aquela noite não significava nada. Uma página sem importância alguma. Alguém sem interesse nenhum. Um beijo sem paixão nenhuma.<br />
Ponto, nova linha.<br />
Sábado que vem tem mais.</span></p>
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		<title>NÃO É AMOR EM BUENOS AIRES</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Oct 2008 20:28:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[“Num deserto de almas também desertas. uma alma especial reconhece de imediato a outra” (Aqueles dois – Caio Fernando Abreu)   Início de tarde, e o sol refletia em cada centímetro daquela praça. Mas não fazia calor. Um vento vinha rasgando a movimentação naquela cidade e arrepiava minha pele cada vez que batia um pouco mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="0cm 0cm 0pt 207pt;"><em><span style="small;"><span style="Times New Roman;">“Num deserto de almas também desertas.</span></span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="0cm 0cm 0pt 207pt;"><em></em><em><span style="small;"><span style="Times New Roman;">uma alma especial reconhece de imediato a outra”</span></span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="0cm 0cm 0pt 207pt;"><em><span style="small;"><span style="Times New Roman;">(Aqueles dois – Caio Fernando Abreu)</span></span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="54pt;"><span style="Times New Roman;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="54pt;"><span style="Times New Roman;">Início de tarde, e o sol refletia em cada centímetro daquela praça. Mas não fazia calor. Um vento vinha rasgando a movimentação naquela cidade e arrepiava minha pele cada vez que batia um pouco mais forte. A praça estava absurdamente cheia e eu não sabia exatamente por quê. Depois fui descobrir que aquele era o dia em que as mães iam chorar pelos filhos mortos na ditadura. Quanto tempo faz desde a ditadura argentina? Uns quarenta anos. Acho que tem mágoas que a gente não supera, mesmo. Só aprende a conviver com elas. Aliás, será que tem alguma mágoa que a gente supera? Tristeza é diferente. Tristeza a gente vive todo dia, e supera todo dia. Mágoa é outra coisa. É dentro. Mágoa machuca a alma, tristeza machuca a pele e sangra. Mágoa não sangra, por isso fica trancada lá dentro e não cura. Pele nasce de novo; a alma não. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="54pt;"><span style="Times New Roman;">E foi aí perdido em mágoas que o vento bateu na minha pele levando as tristezas embora e enxaguando as lágrimas, que minha vista deixou de ficar turva e eu pude vê-la. Acho que não havia nada de muito especial nela. Olhos escuros, assim como o seu cabelo e a pele branca, quase pálida. E como naquele conto do Caio, duas almas especiais se reconhecem de imediato em um deserto de almas também desertas. Mas as almas não falam, por isso não levantei do meu banco pra tentar me aproximar. Só fiquei observando o jeito como ela não tirava as mãos do bolso e fotografava cada centímetro daquela praça com os olhos. Às vezes ela se sentava e tirava um pedaço de papel e uma caneta do bolso e começava a desenhar. Percebi como seus olhos às vezes procuravam os meus, e ela olhava rapidamente pra mim e botava-se novamente a traçar linhas naquele papel. O lápis se movia levemente no papel como se fosse uma continuação dos seus dedos. E seguiu assim por uma hora com seus olhos me procurando. Até que começou a escurecer, as loucas corrompidas de mágoas foram embora. E eu voltei pro meu quarto de hotel.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="54pt;"><span style="Times New Roman;">Preso noite adentro nesse quarto estranho. A madrugada vai caindo com gosto de angústia estampado na cara do céu. Nessa cidade estranha que me faz lembrar os amores que deixei. Só me traz saudade. Não sei como posso sentir saudades no meio de tanta gente. Quanta gente nessa cidade, quanta gente nessas casas, nas ruas, nas praças, nos becos. Quantos pássaros tão soltos pelos ares. Bons ares de Buenos Aires. Tem alguém que me persegue pelos sonhos, imagens de ruas que não conheço. Perco-me nas ruas como me perco aqui dentro em saudades. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="54pt;"><span style="Times New Roman;">Saio para rua noite adentro. Procuro um rosto amigo que possa confortar. Mas não conheço ninguém aqui. Quero só um rosto, então. Um semblante desconhecido que eu possa chamar de meu por uma noite. Nem uma noite, apenas algumas horas. Perco-me em bares estranhos, e algumas pessoas vêm me perguntar se eu quero ajuda. Será que está tão estampada na minha cara, a minha perdição? Não, não quero ajuda. Não tenho nada. Não tenho nada a perder. O que eu tinha a perder larguei em outra cidade. Conto minhas histórias pra estranhos. Até encontrar aquele rosto que havia encontrado na praça. E esse rosto que mal conheço me acolhe só pelo calor do olhar. Ela me estende a folha de papel, com meu rosto carimbado e diz que sabia que ia me encontrar de novo. Pergunto sorrindo se meu rosto é tão triste assim, e ela responde que chega a achar estranho como posso carregar somente tristezas e mesmo assim ter um calor no olhar. Eu tento explicar que o vento levou minha tristeza, e que o que tem em mim agora é mágoa, como daquelas mulheres loucas que choram pelas praças. Ela me convida pra sentar em uma mesa no meio do bar. E aquela boca desconhecida começa me contar histórias em uma língua que eu não entendo. Peço pra ela falar mais devagar. E ela repete devagar, mas não adianta. Mas tudo bem. Eu finjo que entendo, finjo que gostei da história e que aquilo tudo me impressionou. E então é minha vez. E eu invento uma história, e invento tristezas para impressionar, e invento alegrias pra encantar. E até conto um pouco de verdade. Digo que larguei a família e amigos em outro lugar, e vim pra cá, achando que novos ares trariam novas esperanças. Ela pergunta se eu encontrei o que procurava. E eu minto que sim, que me sinto renovado. E ela não entende muita coisa. Mas finge que entende e que se impressionou muito com tantas tristezas e alegrias. Porque, afinal, só queremos um quarto escuro e um corpo pra abraçar durante o resto da madrugada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="54pt;"><span style="Times New Roman;">E falamos muito. Bebemos demais. Fumamos demais. Chego à conclusão de que não entendemos praticamente nenhuma palavra que o outro diz. E todas as palavras e tentativas falhas de se comunicar já foram gastas. Todos os olhares já foram trocados, e até alguns toques até já foram utilizados. E continuamos sem nos entender. E tudo bem. Não queremos compreensão. Não queremos mais palavras. Apenas a liberdade de dizer que sim. Dizer que tudo bem, que tanto faz. Venha comigo pra essas ruas estranhas. Para um quarto escuro de hotel. Diga que tudo bem, diga que tanto faz. Como naquele livro da Clarice. Basta dizer que sim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="54pt;"><span style="Times New Roman;">Diga que sim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="54pt;"><span style="Times New Roman;">Sim. </span></p>
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		<title>ME CONTA AGORA COMO HEI DE PARTIR</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 20:50:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[Se nós, nas travessuras das noites eternas Já confundimos tanto as nossas pernas Diz com que pernas eu devo seguir (Chico Buarque &#8211; Eu te amo)    Ela queria. Sempre quis, embora, de um jeito não muito efetivo, repudiasse a idéia. Desde o começo, por saber da queda imprescindível que encontraria logo adiante e da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">Se </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">nós</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">, nas </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">travessuras</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> das </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">noites</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> eternas</span></em></span><em><br />
</em><span style="font-size: small;"><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">Já</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> confundimos </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">tanto</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> as nossas </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">pernas</span></em><br />
<em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">Diz </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">com</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">que</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">pernas</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">eu</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> devo </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">seguir</span></em><br />
<em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">(Chico Buarque &#8211; </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">Eu</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">te</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">amo</span></em><em><span style="font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">)</span></em></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"> </span> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Ela queria. Sempre quis, embora, de um jeito não muito efetivo, repudiasse a idéia. Desde o começo, por saber da queda imprescindível que encontraria logo adiante e da qual não poderia se livrar de forma alguma, sempre teve um pé atrás.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Parou. Abriu os olhos e avistou a sala vazia. Observou ao seu lado um filtro de cigarro aceso e apagou-o com os próprios dedos, sem se preocupar com queimaduras futuras. Levantou-se tateando em procura de algum disco que, esperava ela, não resultasse em um ruído disforme, e sim em uma canção reconfortante. Os dedos tocaram o nada, pois nada adiantava em horas como essas. A repetição dos dias tristes retornava. Memória martelando sua cabeça. Banheiro escuro, palavras mal ditas, ou absolutamente não ditas, gestos não terminados, e vontades nunca realizadas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Lembrou-se das vozes, dizendo o certo a fazer, não o melhor, lembrou-se de vultos que riam, gritavam, corriam e apontavam caminhos vãos. Lembrou-se da sensação irreal que sentira na manhã seguinte, e lembrou-se como a partir daí, tudo passou mais lentamente. Tudo foi mais pesado, mais denso. E lembrava-se de cada dia que passara lembrando. Horas intensas com a caixa de fósforos vazia em suas mãos, balançando-a de um lado pro outro, sentada confortavelmente na cadeira. Conforto físico, nunca mental. Sentada, lembrando daquele tempo de mãos dadas, mesmo que fossem só as mãos e mais nada, mesmo sabendo que nunca sairia disso, lembrava com felicidade daquele tempo em companhia. Tempos de banheiros escuros, e confidências, novas experiências e desejos escondidos. Aproximações discretas e divórcios ao cair sob olhares desconfiados.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Tempos de banheiros escuros, ou tempos escuros de banheiros, onde ninguém além compreendia a necessidade de abraços e cafunés, ditos não serem nada demais, sendo tudo sem imaginar. Tempos adormecendo lado a lado em uma intimidade maior (e por que não melhor) que a de Edla Van Steen. Detalhes diferentes configurando um amor covarde, recíproco e nunca teorizado. A sala, hoje vazia, era oposta àquela outra época, mostrando a ação do tempo.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Com os olhos quase cheios de lágrimas, lembrava-se da contradição temporal em que se encontrou naquela vez. Contradição de saber do período que leva para as coisas mudarem de maneira concreta. Sabia que a distância entre abraços e beijos era enorme, e que o tempo que precisaria para o aperto entre os tórax afrouxarem, e os lábios se encontrarem com uma leveza impura, era tanto necessário, quanto extenso. E o tempo não havia. Em alguns meses adeus teriam que serem ditos, e os abraços afrouxados, não para selar um amor, e sim para carimbar a distância e a chance perdida.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Abriu os olhos novamente, e devido ao lacrimejo vindo das janelas de sua alma, ela pôde ver a sala embaçada, que já era assim normalmente, mas hoje, além de turva, encontrava-se com um ar seco e a necessidade de algo novo. Algo que ela não tinha a oferecer, devido as correntes imaginárias chamadas dependência que a prendiam àquela história passada, gravada em sua lembrança. Hoje pensava em soluções, implorando resultados, esquecendo dos caminhos. Os cortes, antigamente provocados por de cacos de vidros quebrados acidentalmente, hoje eram quase propositais, e cortavam de acordo com o compasso em que ela recolhia os pedaços quebrados do passado, tentando renovar, e montar a companhia outra vez.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Hoje os olhos fecham sem a mente mandar, e as opiniões alheias, sobre um quase amor proibido já nem importam mais. Hoje a solução parece cada vez mais distante, e a memória cada vez mais vibrante. Hoje já chora pelo adeus, e transborda de saudades, sabendo que o pior é saber que essa falta não terá fim. O fim precipitado incomoda. Ela sabia, sempre soube que a queda seria imprescindível e as fotos não seriam suficientes pra lembrar. Procurando reviver desejos apenas por pensar, se proibindo de pensar para não reviver as horas em que a despedida estava concreta, e o choro já não adiantava mais, as palavras não adiantavam mais, os sorrisos pareciam falsos, e aquele adeus ficava trancado na garganta.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">Lembra-se com desgosto dos cacos de vidros que cortavam a pele no passado. E sente desgosto dos cacos do passado que cortam a sua alma no presente. Fecha os olhos para as memórias, sente as notas graves das canções como uma lufada em sua cara, o choro não sai, as lágrimas não caem. Porque as lágrimas não bastam pra sustentar sua tristeza. Abre os olhos, fecha os olhos, e nada. Nada acontece, nada volta, nada vai. Fecha os olhos, acende outro cigarro, se ajeita na cadeira, bem de leve, bem baixinho, tenta sussurrar um adeus. As palavras saem, e como uma brisa, ecoam pela sala vazia e aos poucos, com uma gota de cada vez, finalmente, começa a sangrar.</span></span></p>
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		<title>A MORENA DA RUA AUGUSTA</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Oct 2008 03:15:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Somos muito Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo se equilibra, no mesmo ventre crescido, sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;<em>Somos muito Severinos<br />
iguais em tudo na vida:<br />
na mesma cabeça grande<br />
que a custo se equilibra,<br />
no mesmo ventre crescido,<br />
sobre as mesmas pernas finas,<br />
e iguais também porque o sangue<br />
que usamos tem pouca tinta.<br />
E se somos Severinos<br />
iguais em tudo na vida,<br />
morremos de morte igual,<br />
mesma morte severina:<br />
que é a morte de que se morre<br />
de velhice antes dos trinta,<br />
de emboscada antes dos vinte,<br />
de fome um pouco por dia</em>.&#8221;<br />
(<em>Morte e vida severina</em> &#8211; <strong>João Cabral de Melo Neto</strong>)</p>
<p>Nós morávamos em um apartamento de poucos quartos, na esquina da Rua Augusta. Eu, ela, e mais cinco pessoas. Mas esse número mudava com freqüência. Alguns desistiam, uns achavam um lugar melhor e outros simplesmente desapareciam e não voltavam nunca mais. Além disso, muitos outros chegavam a cada dia que passava. Sempre éramos obrigados a chamar mais pessoas para morar com a gente, pois era cada vez mais difícil manter o aluguel em dia, então precisávamos de ajuda. Eu não gostava de convidar outras pessoas, era praticamente como convidar alguém para morrer ao nosso lado, mas era inquestionável que precisávamos. Ah, que precisávamos de ajuda era algo óbvio. Era só olhar nossas unhas roídas pela ansiedade, nossas olheiras denunciando as insônias e a cara fodida de cada um de nós. Precisávamos de um psiquiatra, um psicanalista ou qualquer coisa que nos explicasse como tínhamos chegado a tal ponto. Nos poucos dias que conseguíamos dormir, acordávamos ao nascer do sol pra contemplar o nada em nossas vidas. E também porque não havia cortinas em nenhuma das janelas e o sol logo invadia nossas pálpebras, de um jeito que se tornava impossível agüentar e continuar dormindo. Na verdade, tínhamos chegado a um ponto em que não podíamos agüentar mais nada. E além desse nada e do sol, ainda fazia um frio danado, que fazia com que nós sempre acabássemos transando uns com os outros só para nos esquentar. Mas o sexo não mudava o fato do frio crescer lá fora e dentro de cada um de nós. A vida era um inverno incontrolável.</p>
<p>Mas apesar das unhas roídas, das olheiras, da nossa cara fodida, do sol nas pálpebras, do frio crescendo dentro de nós, eu acordava ou via o sol nascendo sempre com uma esperança de que algo poderia mudar. Essa era a única coisa bonita que eu via naquele apartamento: minha esperança. Era incrível que ainda me restasse alguma força para continuar sobrevivendo. Acho que eu era o único que ainda não tinha pensado em suicídio. Todos tinham um pouco de esperança guardado em baixo das pálpebras, mas de tempos em tempos nem isso era suficiente. Era aí que aconteciam os suicídios. De tempos em tempos um de nós se suicidava. Atirava-se pela janela sem cortinas, sentia o sol em suas pálpebras e lembrava-se uma última vez que era impossível agüentar aquele sol nos olhos. Alguns centímetros antes do chão, ainda sentia o frio da cidade. E por último caía de barriga na Rua Augusta.</p>
<p>Era sábado à noite quando aconteceu. Fazia exatamente três meses que nenhum de nós desaparecia ou atirava-se pela janela sem cortinas, e eu estava quase começando a acreditar em eternidade. Estávamos quase todos em casa, porque estávamos fodidos demais, sem dinheiro demais, para sair de noite. Pensamos em procurar um bar e algum dinheiro para beber alguma coisa, brindar a pouca esperança que ainda insistia em permanecer atrás dos nossos olhos, da nossa tristeza, atrás de toda aquela coisa que eu chamava de sobrevivência. Pensamos em sair para tentar achar algo que valesse mais a pena, mas estávamos tristes demais. Estávamos sempre tristes demais, e chorávamos todos os dias por volta das três horas da tarde, e depois de novo à meia-noite. Mas o choro da meia-noite era diferente, acho que era mais um choro de felicidade, se é que isso era possível naquele ponto, por saber que mais um dia se passou sem que fossemos os próximos a se suicidar. Chorávamos todos, mesmo os que tinham recém chegado. A única que não chorava era Ana. E de certa forma ela sempre nos trouxe uma esperança, não sei se por não chorar, mas, talvez, porque víamos nela uma imagem um pouco menos triste. Pelo menos era o que eu achava, mas ao mesmo tempo me vinha uma idéia estranha, de que talvez ela fosse a mais triste de nós e não tivesse mais o que chorar. Como se suas lágrimas não sustentassem sua tristeza. Como se dentro dela houvesse apenas um deserto, seco e cru. E, talvez, essa melancolia guardada atrás dos seus olhos que tentavam chorar e não podiam, nos desse um tipo de esperança por saber que nenhum de nós outros havia chegado ao mesmo ponto que ela.</p>
<p>Naquela noite meu colega estava ao meu lado em plena bad trip, e eu estava sentado no chão, porque não havia poltronas. Eu estava ali sentado pensando que já fazia três meses que ninguém havia desaparecido, nem cometido suicídio, enquanto tentava me concentrar em um livro que eu havia roubado em uma livraria pequena ali na outra esquina. Mas não podia disfarçar que a única coisa em que eu podia me concentrar era aquela janela sem cortinas que mostravam as luzes brilhando do outro lado da Rua Augusta. Eu queria saber quem seria o próximo. E tinha quase toda certeza de que o cara que estava totalmente alucinado ao meu lado iria sair correndo, daqui a pouco, e se atirar na Rua Augusta. Ana havia saído para tentar achar uma dose. Sempre que ela saía, eu ficava meio perdido, ou mais perdido que o normal. Pois perdido eu sempre estava, assim como todos os outros que estavam ali. Quando ela estava em casa eu passava horas olhando para os seus cabelos negros. E às três da tarde enquanto eu chorava, ela ficava observando minhas lágrimas caindo no chão de madeira. Eu tentei me concentrar novamente no livro que eu tentava ler, quando Ana entrou correndo com seus cabelos negros balançando de acordo com o vento que entrava da janela, quase arrombando a porta e gritou:<br />
- Estou presa!<br />
Levantei meus olhos do livro para observá-la, mas logo baixei novamente, porque imaginei que ela tivesse achado a tal dose, cheirado tudo, e aquilo fosse só mais uma de suas viagens estranhas. Mas então ela repetiu, dessa vez quase sussurrando, e eu achei estranho pois ela não costumava sussurrar:<br />
- Estou presa.</p>
<p>Eu levantei meus olhos de novo, e vi como nenhuma das outras pessoas que estavam ali haviam se mexido e como nenhuma parecia se importar. Ninguém naquele apartamento costumava conversar, principalmente porque havíamos chegado a tal ponto em que não conseguíamos mais que alguma coisa que disséssemos fizesse sentido. Mas Ana era diferente, e eu sabia que de alguma forma ela devia ter pensado muito, antes de arrombar a porta e entrar gritando. Talvez fosse por isso que ela não chorava, pois ela tinha algo no que pensar. Todos outros já haviam aceitado a ausência, inclusive eu. Já havíamos aceitado o fato de não ter nada na vida, nem algo no que pensar. Mas Ana não. Ela saía todos os dias e voltava com histórias pra contar, mesmo que nenhum de nós falasse nada, ela continuava a contar suas histórias. Eu me importava com ela, e talvez por isso não houvesse pensado em suicídio, e acho que ela também não. Eu tinha a ela, e ela tinha suas histórias e pensamentos. Mas nenhum de nós tinha tempo para o amor, pois gastávamos todo nosso tempo procurando forças pra manter nossa esperança viva. Ana se aproximou de mim. Segurou muito firme em minhas mãos e me olhou nos olhos, de um jeito que nunca tinha olhado, até porque nenhum de nós tinha tempo ou capacidade para amar. Mas naquele momento ela me olhou, e mesmo que não fosse meia-noite, mesmo que não fosse hora de chorar, eu não pude conter minhas lágrimas. E ela me olhou do jeito que sempre olhava quando eu derramava minhas lágrimas as três da tarde, e olhando assim com um jeito de quem necessita amar, ela me disse:<br />
- Estou presa, estou presa sim. Não venha me dizer que não. Esse coração miserável, essa paixão esgotada por qualquer coisa, essas cinzas que se queimaram e não renascem nunca. Estou presa nessa melancolia, nessas besteiras, nessa merda toda. É, essa merda toda.<br />
Recorreu os olhos pra dentro daquele apartamento minúsculo procurando alguém com um olhar que dissesse que isso ia passar. Não encontrou ninguém. Não havia nada ali. E ela presa naquela coisa que não sabia mais o que era:<br />
- Não há nada aqui, só a fome de todos os dias, o vazio imenso do meu ser, e o pretérito perfeito dos meus amores.</p>
<p>Ela tentou chorar, baixou a cabeça, sentou ao meu lado e pousou seu rosto no meio dos joelhos, mas o deserto que ela tinha dentro do seu peito não lhe dava lágrimas. Ela não chorava. E eu tentei dizer que tudo ia passar, mas eu não sabia mais como falar coisas bonitas. Tudo que me restava era ver Ana falar. E ela continuou:<br />
- Você sente isso também? Você sabe o que é isso? Não ter nada na vida e mesmo assim se sentir presa a alguma coisa? Presa ao nada? Precisamos de muito mais que isso. Precisamos de muito mais, precisamos deixar sangrar. Precisamos de algo além dessas vírgulas e reticências, algo um pouco além dessas vidas tão usuais. Precisamos falar, mostrar, fingir, agir-como-se alguma coisa importasse além da fumaça, do cigarro e do uísque no fim do dia. Eu não quero mais saber de me encontrar ou de me auto-entender. Que seja sobre destino então, que seja sem razão, que se assim tenho de me perder, que não sobre mais nada e que meus olhos fiquem pra sempre procurando algum rosto que me tire daqui. Em um desespero que vou poder pra sempre chamar de meu.<br />
Não, Ana, eu não sinto isso, não sinto mais nada. Tentei dizer que cheguei a tal ponto que a única coisa que eu tinha era a vontade de ouvir suas histórias, enquanto procurava um tempo para conseguir amar. Não, Ana, não estou preso, já me livrei de toda fé. Pensei em dizer, mas não fui capaz, não sabia mais dizer o que eu sentia. Não sabia mais declarar que ela era a única pessoa que alimentava minhas esperanças de continuar sobrevivendo. Não, Ana, já faz tempo que não sinto nada. Ela levantou o rosto dos joelhos me olhou de novo com os olhos de quem não está em liberdade, com olhos de quem acredita em algo no que não deveria se ter fé, e me disse uma última vez:<br />
- Estou presa.<br />
O cara do meu lado se levantou, entrou em um quarto qualquer e caiu dormindo no chão. Ele não era o próximo. Mas novamente, o próximo suicídio estava ao meu lado. Ana se levantou tão rápido que meus olhos quase não puderam acompanhar o seu corpo dirigindo-se para a janela sem cortinas que dava para Rua Augusta. Ela gritou em desespero. E eu gritei em um desespero ainda maior e saí correndo pela porta que ela havia esquecido de fechar. Quando cheguei lá embaixo, tudo que pude ver foi ela caída de barriga na rua. Eu cheguei perto dela, muito perto, e pude ver seu rosto seco, sem nenhuma lágrima. Ela não havia chorado. Já era meia-noite, mas ela não chorava. Ela me olhou uma última vez com os olhos de quem precisava de muito, muito mais. Um passarinho pousou ao seu lado e ela sussurrou suas últimas palavras:<br />
- Voa. Voa alto, porque eu acho lindo te ver livre.<br />
Eu passei a noite sem dormir, sentado ao lado do seu corpo frio. E logo nos primeiros dois minutos, eu pude ter apenas uma certeza. Certeza de que o próximo a cair de barriga na Rua Augusta, seria eu.</p>
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		<title>ALGO QUE SE INSTALE NA ALMA</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Sep 2008 21:59:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[Sentei na mesa mais no canto que consegui encontrar. Ergui a mão lentamente: - Um café por favor. Uma garçonete loira, peituda veio correndo trazer um café. - Ela é gostosa pra caralho &#8211; disse ele. E não sei porque, mas lembrei do Holden quando ele falou isso. A garçonete inclinou-se pra frente fazendo questão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sentei na mesa mais no canto que consegui encontrar. Ergui a mão lentamente:<br />
- Um café por favor.<br />
Uma garçonete loira, peituda veio correndo trazer um café.<br />
- Ela é gostosa pra caralho &#8211; disse ele.<br />
E não sei porque, mas lembrei do Holden quando ele falou isso. A garçonete inclinou-se pra frente fazendo questão de mostrar um pouco mais aqueles peitos duros estourando silicone e perguntou:<br />
- Algo mais?<br />
Tenho certeza que milhares de fantasias passaram na cabeça dele. É íncrível como é fácil transformar loiras peitudas em algo bem sujo e bagaceiro. E eu realmente achei que ele ia fazer um daqueles comentários nojentos e perdedores que os homens são profissionais em fazer, mas ele se contentou com um café. Ergui a mão de novo pra chamar a garçonete. Ela veio correndo de novo, se inclinou novamente mostrando o decote. E eu perguntei:<br />
- Com licença, posso fumar aqui dentro?<br />
- Não.<br />
- Por quê?<br />
- Olha, por mim tudo bem, mas tem gente que não suporta cigarro.<br />
- Ah, então faz um favor, pede pra aquelas duas mulheres calarem a boca, sei que por ti tudo bem, mas eu não suporto ignorância.<br />
Havia duas mulheres há horas entretidas em discuros fascistas e coisas bestas desse tipo. É incrível também como é fácil associar loiras peitudas com ignorância. Sei que é um pouco preconceituoso e prepotente, mas não consigo evitar. Estava meio perdida entre loiras e fascismos quando de repente ele perguntou:<br />
- Vai dormir aonde hoje?<br />
- Não sei. E você?<br />
- Estou sem casa.<br />
- Tenho dois lugares pra dormir. Me ofereceram mais um sábado passado. Mas me sinto fora de casa toda hora. Sabe, ouvi hoje que lar é o lugar onde nosso coração está.<br />
- Ouvi isso também.<br />
- É eu sei, mas enfim, não encontro meu coração em lugar nenhum. Não tenho casa. Hoje vou dormir em uma cama que dizem que tá no meu quarto. Mas eu sei que durmo bem quando estou deitada na minha cama com a televisão ligada passando aquele filme que já vi trezentas vezes. Mas não me sinto assim há dias. Nunca fui de dormir muito, mas costumo dormir bem. Hoje nem um nem outro. Durmo mal durante duas horas, depois começo a escrever, daí me sinto bem. Mas não sinto um coração batendo dentro do peito. Só jogo ele pra fora, direto na folha branca e perco ele pra sempre. É bom assim.<br />
- Não é melhor sentir ele batendo dentro do peito?<br />
- Sabe não sei bem que sensação é essa, e se quer saber já to mais que acostumada.<br />
Acho que nessa hora ele ficou me olhando como se su despertasse uma curiosidade enorme nele. Ele havia me dito isso uma vez, e ficou gravado na minha cabeça, claro que gostei. É sempre bom ouvir coisas como essas. Mas as vezes me irritava um pouco.<br />
- &#8220;Acidentes em seqüência matam vinte e sete pessoas&#8221;<br />
- Quê?<br />
- Tá escrito no jornal daquele velho. Ele tá tremendo. Talvez de euforia, talvez por ler o destino na capa do jornal.<br />
- Eu quero morrer asfixiada por monóxido de carbono.<br />
- Você quer morrer?<br />
- Não, não. Quer dizer, às vezes quero. Mas hoje não. Só to dizendo que se tivesse que morrer preferia que fosse asfixiada por monóxido de carbono.<br />
- Por quê?<br />
- Diz a Leila que não dói, tu fica respirando e nem nota o gás te matando aos poucos, daí uma hora desmaia, e depois morre. E não sente nada. Pra sempre. Ou pra nunca mais.<br />
- É uma boa idéia. Quer dizer, se tiver que ser, melhor que seja assim. Eu também quero morrer sem dor. Já percebeu como há só um acento de diferença entre doido e doído?<br />
- Acho que se eu me doer um pouco mais eu enloqueço. Pra mim, entre doida e doída há só uma dor de diferença.<br />
- Você se dói?<br />
Achei graça na pergunta dele. E até fiquei com preguiça de responder. Acho que na verdade todo mundo se dói, mas não sei se poderia explicar isso à ele.<br />
- Eu me machuco o tempo todo, não fisicamente.<br />
Ele olha pro meu braço como quem duvida. E eu escondo dele e de mim mesma.<br />
- Na real me dôo sempre que estou sozinha. Quando tem alguém comigo normalmente a pessoa me dói muito mais, por diversos motivos.<br />
Aí a loira, peituda e gostosa se aproxima da mesa de novo. E eu me lembro do Holden novamente. Acho que precisava ler ele de novo. Às vezes ele fala muito bem por mim.<br />
- Com licença, posso retirar a xícara?<br />
- Pode, leva. E leva junto esse amargo que o café deixou. Leva também esse amargo que alguém deixou em mim e nunca voltou pra buscar. Leva esse azedo que tá aqui há anos. Esse nó na garganta que nem conversas conseguem desatar, nem escrever funciona mais. Leva esse aperto no peito que nem o tempo consegue aliviar. Leva esse vazio que tá aqui dentro, dentro da minha alma, esse vazio que nada consegue preencher, nem o tempo, nem as verdades, nem as mentiras, nem ninguém.<br />
Ela me olha com uma cara de loira burra e espantada que nunca ouviu falar em desespero. E um silêncio toma conta daquele lugar. A calmaria que procede da tempestade. Nada de caos. Nada de caos do lado de fora. O lugar do caos é dentro: na alma. </p>
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		<title>GARÇOM, SEM GELO, POR FAVOR!</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Sep 2008 21:14:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele trazia no peito o peso de um caso de amor fracassado. E eu trazia nas mãos uma carreira de escritor promissora, ou pelo menos era isso que me diziam. Mas não nos encontramos de imediato. E, talvez, melhor assim, pois se seus olhos me tocassem logo no primeiro instante em que entrei naquele bar, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> trazia no </span><span style="color: black;">peito</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">peso</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">caso</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">amor</span><span style="color: black;"> fracassado. E </span><span style="color: black;">eu</span><span style="color: black;"> trazia nas </span><span style="color: black;">mãos</span><span style="color: black;"> uma </span><span style="color: black;">carreira</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">escritor</span><span style="color: black;"> promissora, </span><span style="color: black;">ou</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pelo</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">menos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">era</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">isso</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">me</span><span style="color: black;"> diziam. </span><span style="color: black;">Mas</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">não</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">nos</span><span style="color: black;"> encontramos de </span><span style="color: black;">imediato</span><span style="color: black;">. E, </span><span style="color: black;">talvez</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">melhor</span><span style="color: black;"> assim, pois se </span><span style="color: black;">seus</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">olhos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">me</span><span style="color: black;"> tocassem </span><span style="color: black;">logo</span><span style="color: black;"> no </span><span style="color: black;">primeiro</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">instante</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">em</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> entrei naquele </span><span style="color: black;">bar</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">talvez</span><span style="color: black;"> pensássemos </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">era</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">apenas</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">acaso</span><span style="color: black;"> e desviaríamos o </span><span style="color: black;">olhar</span><span style="color: black;">, procurando alguma </span><span style="color: black;">outra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">coisa</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> pudesse </span><span style="color: black;">nos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">encantar</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Então</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">talvez</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">para</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">evitar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">desencantos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">prematuros</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">logo</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> entrei, </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">não</span><span style="color: black;"> teve </span><span style="color: black;">sua</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">atenção</span><span style="color: black;"> desviada do </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> estava fazendo </span><span style="color: black;">para</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">admirar</span><span style="color: black;"> os </span><span style="color: black;">meus</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">passos</span><span style="color: black;"> naquele </span><span style="color: black;">chão</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">madeira</span><span style="color: black;">. Continuou </span><span style="color: black;">atento</span><span style="color: black;"> ao </span><span style="color: black;">cinzeiro</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">pedra</span><span style="color: black;"> lotado de </span><span style="color: black;">cinzas</span><span style="color: black;"> e </span><span style="color: black;">filtros</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">cigarros</span><span style="color: black;">. </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="color: black;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">Eu</span><span style="color: black;"> andei </span><span style="color: black;">devagar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">até</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">balcão</span><span style="color: black;">. Sentei e pensei </span><span style="color: black;">em</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pedir</span><span style="color: black;"> uma </span><span style="color: black;">cerveja</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">mas</span><span style="color: black;"> acabei </span><span style="color: black;">com</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> whisky </span><span style="color: black;">com</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">gelo</span><span style="color: black;"> na </span><span style="color: black;">minha</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">frente</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Porque</span><span style="color: black;"> uma </span><span style="color: black;">cerveja</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">não</span><span style="color: black;"> iria </span><span style="color: black;">bastar</span><span style="color: black;">, e </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> whisky </span><span style="color: black;">sem</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">gelo</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">já</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">era</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">demais</span><span style="color: black;">. E foi </span><span style="color: black;">só</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">quando</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">garçom</span><span style="color: black;"> depositou o </span><span style="color: black;">copo</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">em</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">minha</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">frente</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">outro</span><span style="color: black;"> levantou o </span><span style="color: black;">olhar</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">também</span><span style="color: black;"> bebia whisky, </span><span style="color: black;">mas</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">sem</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">gelo</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">para</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">enfrentar</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">seu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">caso</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">amor</span><span style="color: black;"> fracassado. E </span><span style="color: black;">com</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">olhar</span><span style="color: black;"> desviado do </span><span style="color: black;">cinzeiro</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> pôde </span><span style="color: black;">finalmente</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">levantar</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">cabeça</span><span style="color: black;"> e </span><span style="color: black;">então</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">nos</span><span style="color: black;"> encaramos. E foi </span><span style="color: black;">só</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">partir</span><span style="color: black;"> daí </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">eu</span><span style="color: black;"> pude </span><span style="color: black;">sentir</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pequeno</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ferimento</span><span style="color: black;"> no </span><span style="color: black;">meu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">peito</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">como</span><span style="color: black;"> se </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pequeno</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">espinho</span><span style="color: black;"> estivesse sendo pressionado </span><span style="color: black;">devagar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">sob</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">minha</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pele</span><span style="color: black;">. Na </span><span style="color: black;">hora</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">não</span><span style="color: black;"> entendi o </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">era</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">aquele</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pequeno</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ferimento</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">mas</span><span style="color: black;"> senti </span><span style="color: black;">como</span><span style="color: black;"> se o </span><span style="color: black;">sangue</span><span style="color: black;"> estivesse realmente caindo </span><span style="color: black;">pelo</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">meu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">peito</span><span style="color: black;">. </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="color: black;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">Naquele </span><span style="color: black;">momento</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">eu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">não</span><span style="color: black;"> saberia </span><span style="color: black;">dizer</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> guardava naquele </span><span style="color: black;">olhar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> fazia </span><span style="color: black;">meu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">peito</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">sangrar</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">leve</span><span style="color: black;">, e </span><span style="color: black;">talvez</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">nunca</span><span style="color: black;"> viria a </span><span style="color: black;">entender</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Mas</span><span style="color: black;"> sei </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">me</span><span style="color: black;"> olhava de </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">jeito</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">até</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">minha</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">alma</span><span style="color: black;"> sentiu-se observada. E foi </span><span style="color: black;">só</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">depois</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">nosso</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">olhar</span><span style="color: black;"> se quebrou </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">eu</span><span style="color: black;"> pude </span><span style="color: black;">me</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">aproximar</span><span style="color: black;">. Fui </span><span style="color: black;">até</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">mesa</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">mais</span><span style="color: black;"> do </span><span style="color: black;">canto</span><span style="color: black;"> do </span><span style="color: black;">bar</span><span style="color: black;"> e perguntei se podia </span><span style="color: black;">sentar</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> balançou a </span><span style="color: black;">cabeça</span><span style="color: black;"> olhando </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">cadeira</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">vaga</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">como</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">quem</span><span style="color: black;"> concorda. E, então, trocamos algumas </span><span style="color: black;">palavras</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">sempre</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">são</span><span style="color: black;"> usadas </span><span style="color: black;">por</span><span style="color: black;"> duas </span><span style="color: black;">pessoas</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">com</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">esperanças</span><span style="color: black;"> derrotadas, </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> estão tentando </span><span style="color: black;">saber</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pouco</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">mais</span><span style="color: black;"> da </span><span style="color: black;">tristeza</span><span style="color: black;"> do </span><span style="color: black;">outro</span><span style="color: black;">. </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="color: black;"><span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">me</span><span style="color: black;"> perguntou o </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">eu</span><span style="color: black;"> fazia. </span><span style="color: black;">Eu</span><span style="color: black;"> falei </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> escrevia. </span><span style="color: black;">Então</span><span style="color: black;"> houve uma </span><span style="color: black;">grande</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pausa</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">em</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> parou e fumou </span><span style="color: black;">quase</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">cigarro</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">inteiro</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">até</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">me</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;"> perguntou:<br />
- E </span><span style="color: black;">sobre</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">você</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;"> escreve?<br />
- </span><span style="color: black;">Sobre</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">desencantos</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">.<br />
- </span><span style="color: black;">Eu</span><span style="color: black;"> devo </span><span style="color: black;">carregar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">desencantos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">suficientes</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">escrever</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">livro</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">.<br />
- E </span><span style="color: black;">você</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">acha</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">isso</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">basta</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">escrever</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">?<br />
- </span><span style="color: black;">Não</span><span style="color: black;"> é </span><span style="color: black;">isso</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">você</span><span style="color: black;"> faz? Vive </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">desencanto</span><span style="color: black;"> e se põe a </span><span style="color: black;">escrever</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">sobre</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">?<br />
- </span><span style="color: black;">Claro</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Mas</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">não</span><span style="color: black;"> acho </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> seja </span><span style="color: black;">suficiente</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Me</span><span style="color: black;"> faltam </span><span style="color: black;">dedos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">contar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">quantos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">desencantos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">já</span><span style="color: black;"> tive, </span><span style="color: black;">mas</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">mesmo</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">assim</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ainda</span><span style="color: black;"> acredito no </span><span style="color: black;">meu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">coração</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Você</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">acha</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> consegue </span><span style="color: black;">fazer</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">isso</span><span style="color: black;">? </span><span style="color: black;">Gastar</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">coração</span><span style="color: black;"> e </span><span style="color: black;">continuar</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">sentir</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> batendo? </span><span style="color: black;">Matar</span><span style="color: black;"> as </span><span style="color: black;">esperanças</span><span style="color: black;"> e </span><span style="color: black;">mesmo</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">assim</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">conseguir</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">escrever</span><span style="color: black;"> uma </span><span style="color: black;">história</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">amor</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">?<br />
- </span><span style="color: black;">Nunca</span><span style="color: black;"> soube se desisti do </span><span style="color: black;">meu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">coração</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">ou</span><span style="color: black;"> se </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> é </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> desistiu de </span><span style="color: black;">mim</span><span style="color: black;">. Resisti </span><span style="color: black;">até</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">última</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">gota</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">água</span><span style="color: black;"> se </span><span style="color: black;">extinguir</span><span style="color: black;"> no </span><span style="color: black;">deserto</span><span style="color: black;"> do </span><span style="color: black;">meu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">peito</span><span style="color: black;">. A </span><span style="color: black;">gente</span><span style="color: black;"> agüenta </span><span style="color: black;">por</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">tempo</span><span style="color: black;">, sabe. </span><span style="color: black;">Mas</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">coração</span><span style="color: black;"> vai secando. </span><span style="color: black;">Até</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> uma </span><span style="color: black;">hora</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">gente</span><span style="color: black;"> se acostuma </span><span style="color: black;">com</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">sede</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Não</span><span style="color: black;"> é </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">sede</span><span style="color: black;"> acabe&#8230;a </span><span style="color: black;">sede</span><span style="color: black;"> continua. </span><span style="color: black;">Mas</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">gente</span><span style="color: black;"> cansa de </span><span style="color: black;">alimentar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">desencantos</span><span style="color: black;">&#8230;</span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="color: black;"><br />
<span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">Parei, </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">então</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">para</span><span style="color: black;"> observá-lo. </span><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> tragava </span><span style="color: black;">lentamente</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">cigarro</span><span style="color: black;"> e a </span><span style="color: black;">cada</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">gole</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">em</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">seu</span><span style="color: black;"> whisky </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> fazia uma </span><span style="color: black;">cara</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">quem</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">realmente</span><span style="color: black;"> sentia aquela </span><span style="color: black;">bebida</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">descer</span><span style="color: black;"> rasgando a </span><span style="color: black;">garganta</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> apagou o </span><span style="color: black;">cigarro</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;"> e continuou:<br />
- </span><span style="color: black;">Como</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">você</span><span style="color: black;"> consegue? </span><span style="color: black;">Falar</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">amor</span><span style="color: black;"> vivendo </span><span style="color: black;">em</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">mundo</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">corações</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">escuros</span><span style="color: black;">? </span><span style="color: black;">Eu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">já</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">me</span><span style="color: black;"> dei </span><span style="color: black;">por</span><span style="color: black;"> vencido na </span><span style="color: black;">batalha</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">procurar</span><span style="color: black;"> alguma </span><span style="color: black;">luz</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Dentro</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">mim</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">dentro</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">você</span><span style="color: black;">&#8230; é </span><span style="color: black;">tudo</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">escuro</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">.<br />
- </span><span style="color: black;">Isso</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">não</span><span style="color: black;"> é </span><span style="color: black;">verdade</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Por</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">mais</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> o </span><span style="color: black;">peito</span><span style="color: black;"> cale, </span><span style="color: black;">ainda</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">resta</span><span style="color: black;"> uma </span><span style="color: black;">luz</span><span style="color: black;">. As </span><span style="color: black;">pessoas</span><span style="color: black;"> cansam de </span><span style="color: black;">alimentar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">desencantos</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">mas</span><span style="color: black;"> no </span><span style="color: black;">fim</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">sempre</span><span style="color: black;"> há </span><span style="color: black;">luz</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Dentro</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">mim</span><span style="color: black;">, dentro de </span><span style="color: black;">você</span><span style="color: black;">. O </span><span style="color: black;">cigarro</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">você</span><span style="color: black;"> apagou pode </span><span style="color: black;">ser</span><span style="color: black;"> re-aceso. A </span><span style="color: black;">gente</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">quer</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">luz</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">enxergar</span><span style="color: black;"> no </span><span style="color: black;">meio</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">corações</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">escuros</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">encanto</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">depois</span><span style="color: black;"> se </span><span style="color: black;">desencantar</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Ninguém</span><span style="color: black;"> agüenta </span><span style="color: black;">viver</span><span style="color: black;"> na </span><span style="color: black;">escuridão</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">eternamente</span><span style="color: black;">. A </span><span style="color: black;">gente</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">quer</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">luz</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">.<br />
- </span><span style="color: black;">Ou</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">sombra</span></span></span><span style="color: black;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;">.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="font-size: small;"><span style="color: black;">Eu</span><span style="color: black;"> fiquei </span><span style="color: black;">em</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">silêncio</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> se levantou e tirou </span><span style="color: black;">alguns</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">trocados</span><span style="color: black;"> do </span><span style="color: black;">bolso</span><span style="color: black;"> e mandou </span><span style="color: black;">eu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pagar</span><span style="color: black;"> a </span><span style="color: black;">conta</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span></span></span><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="font-size: small;"><span style="color: black;">.<br />
- </span><span style="color: black;">Você</span><span style="color: black;"> tem uma </span><span style="color: black;">caneta</span></span></span><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="font-size: small;"><span style="color: black;">?<br />
</span><span style="color: black;">Eu</span><span style="color: black;"> entreguei a </span><span style="color: black;">caneta</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> rabiscou algumas </span><span style="color: black;">palavras</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">em</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">guardanapo</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Depois</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">me</span></span></span><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="font-size: small;"><span style="color: black;"> entregou e disse:<br />
- </span><span style="color: black;">Isso</span><span style="color: black;"> é </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">você</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">parar</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">alimentar</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">seus</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">desencantos</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Depois</span><span style="color: black;"> vai </span><span style="color: black;">pra</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">casa</span><span style="color: black;"> e escreve alguma </span><span style="color: black;">coisa</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">sobre</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">um</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">garoto</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">não</span><span style="color: black;"> conhecia a </span><span style="color: black;">luz</span></span></span><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="font-size: small;"><span style="color: black;">.<br />
</span><span style="color: black;">Ele</span><span style="color: black;"> saiu </span><span style="color: black;">pela</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">porta</span><span style="color: black;"> do </span><span style="color: black;">bar</span><span style="color: black;"> e </span><span style="color: black;">eu</span><span style="color: black;"> desdobrei o </span><span style="color: black;">guardanapo</span></span></span><span style="color: black;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="font-size: small;">:<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">&#8220;</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">Importante</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> é a </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">escuridão</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">que</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">nos</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> revira os </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">olhos</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">. </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">Quem</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> enxerga </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">muita</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">luz</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">só</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">olha</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">para</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">fora</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">. A </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">sombra</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">nos</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> obriga a </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">ir</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">procurar</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">luz</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">em</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">outro</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">lugar</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">. E tentamos achá-la no </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">nosso</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">próprio</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">peito</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">, </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">mas</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">não</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> encontramos. </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">Importante</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> é a </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">sombra</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">que</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">nos</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> faz </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">olhar</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">para</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">dentro</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> do </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">peito</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">. </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">Importante</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> é a </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">escuridão</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">que</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> faz a </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">gente</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">perceber</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> o </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">escuro</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> de </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">cada</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;"> </span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">coração</span></em><em><span style="color: black; font-family: &quot;Arial Narrow&quot;;">.&#8221;</span></em></span><span style="color: black;"><br />
<span style="font-size: small; font-family: Arial Narrow;">Pensei </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">talvez</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">realmente</span><span style="color: black;"> tivesse </span><span style="color: black;">desencantos</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">suficientes</span><span style="color: black;">. A </span><span style="color: black;">última</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">faísca</span><span style="color: black;"> do </span><span style="color: black;">cigarro</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">ele</span><span style="color: black;"> havia depositado no </span><span style="color: black;">cinzeiro</span><span style="color: black;"> se apagou. E </span><span style="color: black;">eu</span><span style="color: black;"> revirei </span><span style="color: black;">meus</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">olhos</span><span style="color: black;">, procurando </span><span style="color: black;">algum</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">resto</span><span style="color: black;"> de </span><span style="color: black;">luz</span><span style="color: black;">. </span><span style="color: black;">Não</span><span style="color: black;"> encontrei. Levantei a </span><span style="color: black;">mão</span><span style="color: black;"> segurando </span><span style="color: black;">meu</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">copo</span><span style="color: black;"> de whisky </span><span style="color: black;">que</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">agora</span><span style="color: black;"> estava </span><span style="color: black;">vazio</span><span style="color: black;">. Balancei o </span><span style="color: black;">copo</span><span style="color: black;"> no </span><span style="color: black;">alto</span></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial Narrow;"><span style="color: black;">:<br />
- </span><span style="color: black;">Garçom</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">sem</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">gelo</span><span style="color: black;">, </span><span style="color: black;">por</span><span style="color: black;"> </span><span style="color: black;">favor</span><span style="color: black;">.</span></span></span></p>
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		<title>LÍRIOS</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Sep 2008 21:29:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[Espero te alcançar. Não pude escrever nada antes de agora, pois não alcançava o estado para escrever. Hoje alcancei, talvez pelo dia onze de dezembro e a madrugada me matando. E pensei que espero que meu estado de agora, que o meu escrever te alcance de alguma forma. Espero poder te alcançar. E quando digo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Espero te alcançar. Não pude escrever nada antes de agora, pois não alcançava o estado para escrever. Hoje alcancei, talvez pelo dia onze de dezembro e a madrugada me matando. E pensei que espero que meu estado de agora, que o meu escrever te alcance de alguma forma. Espero poder te alcançar. E quando digo alcançar, não falo alcançar querendo somente que você leia isso e pense em mim, no que fomos, no que nunca deixamos de ser e no lugar no qual nunca voltaremos a pisar. Não quero, e digo que, se for assim, melhor esquecer. Quero te alcançar de um jeito de tremer suas pernas, de fazer gritar o coração, porque se você treme, eu tremo. Se trememos não estamos seguros e se não estamos seguros, estamos bem. Eu estou bem. Apesar daquela coisa que atormenta, daquela coisa que se ausenta. Você sabe o que é aquela coisa? É. Você. Talvez não você exatamente, mas sim a saudade de você, a lembrança de você, o amor de você. E me pego pensando, às vezes de mansinho, às vezes quase em ódio, às vezes ao ler um livro, ou ao entrar em algum lugar e sentir um perfume que lembra o teu, ou quando vejo um lírio jogado no chão, nosso lírio jogado ao chão. Lembro-me de você, penso em você, vivo em você, pensando que você ainda vive em mim. Em cada curva do meu corpo e em cada lugar que meu olhar mira. E acho triste que só possa lembrar de você quando estou com a cabeça cheia, ou quando um lírio cai. Acho triste que tenha que ser tudo tão assim, tão incerto, tão pesado, tão lírios-jogados-ao-chão. Não posso mais sentar na varanda, fumar um cigarro e pensar em você. Não posso. Se penso em você assim, de cabeça vazia, assim, tão vulnerável, eu tombo, eu me inclino, eu caio, e não volto. Não volto nunca mais. E ao mesmo tempo que penso em não cair, penso todo dia em voltar, e lhe trazer o sol, e deitar com você, e contar estrelas, e contar histórias, e contar amores passados, e contar lírios em casamentos e rosas em funeráis.<br />
Espero te alcançar, do mesmo jeito que te alcanço em meus sonhos, e na verdade nem precisa ser sonhos, é só fechar os olhos. Te alcanço e você é tão minha em meu pensamento, que quando abro os olhos novamente parece impossível que eu não te tenha mais. Você foi tão minha, e eu me doei tanto, que parece inadmissível que minhas mãos tenham soltado as tuas.<br />
Mas soltaram. Talvez não as minhas, mas as tuas, talvez as duas juntas, ao mesmo tempo. Na mesma tristeza de não poder mais. E agora só te alcanço em pensamento, enquanto me seguro tentando não pensar.<br />
Mas não fico triste. Tenho as memórias, tenho as lembranças, tenho os lírios em um pote com água, tenho os espinhos das rosas de funeráis. E nem eles me machucam. Tenho meus pensamentos e nossas mãos dadas em sonhos. E falo com você todo dia em pensamento. Não dói. Dói depois, quando vejo que é pensamento. Mas na hora não dói. E você me conhece, prefiro o presente. E se é esse meu presente, e se é agora que estou bem. É agora que não dói. Então digo quê.<br />
Esses dias fumei um baseado com a Ana e ela falou muito em ti. Às vezes vejo tão somente para o meu interior que não consigo olhar pra nenhum outro lugar que não seja você dentro de mim, e penso que lembro tanto de você, que esqueço que os outros também te conhecem, penso que você é só minha nesse mundo, mas só penso. Falamos muito em ti. E logo, logo os gigantes vieram tentar tirar você de mim. Isso dói. Dói muito tentar te esquecer. Por isso não tento, só lembro. E você se acende as vezes dentro de mim. E esse as vezes tem sido tão freqüente. Mais de madrugada, ou nas raras vezes que acordo de manhã. Mais nos sonhos. Sempre em mim. Sempre você.<br />
Pensar em ti não dói. Lembrar de ti não dói. Por mais que seja triste. Parece que a tristeza me consola, e eu nem me preocupo se você pensa em mim ou não. Continuo pensando em ti. Pesando em voltar. Tentando não cair. Pesando que amanhã talvez eu te encontre, e a gente possa sentar para conversar sobre as nossas vidas tão casuais. E imagino você segurando minha mão, enquanto eu falo devagar pra você que juntei um lírio do chão. E que isso é tão <em>nós</em>. Isso, assim, de juntar lírios do chão e chegar em casa e te mostrar dizendo olha-o-que-eu-encontrei-na-rua. E no meu pensamento, e como um dia foi na realidade, você diria oh-que-bonito e poria o lírio em um vaso com água, como um dia aconteceu. E eu guardei o pote, e os lírios. E as lembranças. E você? Será que guardou alguma coisa? Aquele cartão-postal, talvez. Aquela luneta de montar? A camisa com o sol estampado? Alguma coisa? Algo assim tão bobo e que pra mim é tanto. Ou sou só eu que me afundo nessas coisas bobas e boas? Mais bobas do que boas, provavelmente. Mais minhas do que suas. Mais lembranças do que certezas. Mais passado do que presente. Mais você em mim. Mais pensamentos. Não dói.<br />
Meus pensamentos não dóem. Eles são tão suáves, tão amenos, tão leves. As vezes levanto a cabeça do livro que leio e repito seu nome. Julia, Julia, Julia. Mais que três vezes. Tantas vezes. Tão baixo. Só pra eu ouvir. Julia, você guardou aqueles lírios? E repito tantas vezes, nossos planos. Acorde tarde, Julia. Pra contarmos as estrelas. Você nunca se lembra.<br />
Eu lembro. Os lírios no chão, os espinhos no peito, o sol estampado, as estrelas no céu, o cigarro aceso entre seus dedos, o baseado na mão da Ana, os gigantes na minha cabeça, os vagalumes, as pequenas epifanias do Caio, a brisa da madrugada, os dragões, os fantasmas, os moinhos. Os lírios. Jogados, caídos, pisados. Você se lembra? Você pensa em voltar?<br />
Júlia, eu espero te alcançar. Espero.</p>
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		<title>O AMOR É UMA TRAGÉDIA</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Sep 2008 21:20:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Difini</dc:creator>
				<category><![CDATA[OU SOMBRA]]></category>

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		<description><![CDATA[Meus dedos encostaram nos teus como se aquilo fosse um acidente premeditado. Acidente porque nós já havíamos tentado amar uma vez e sabíamos que seria impossível que tivesse nos sobrado alguma força para tentar de novo. Sabíamos do erro, da imprecisão, sabíamos que não deveria ser. Acho que se fôssemos comparar, meu amor foi maior [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meus dedos encostaram nos teus como se aquilo fosse um acidente premeditado. Acidente porque nós já havíamos tentado amar uma vez e sabíamos que seria impossível que tivesse nos sobrado alguma força para tentar de novo. Sabíamos do erro, da imprecisão, sabíamos que não deveria ser. Acho que se fôssemos comparar, meu amor foi maior que o teu, minha entrega foi o dobro da tua. Mas agora não importava o tamanho do amor que cercava cada um de nós. Agora era simplesmente meus dedos encostando nos teus, sem importar quem de nós tinha dado o primeiro passo. Acho que se fôssemos analisar, seria assim: eu conseguia amar, mas não queria; você queria, queria desesperadamente, mas não podia, não conseguia. Mas agora não importava mais a calma ou o desespero. Era simplesmente um acidente que meus dedos tivessem tocado os teus, sem importar a hora exata ou a capacidade de amar dentro de nós. Mas não deixava de ser premeditado, pois eu pousei de leve a minha mão em cima da mesa querendo te tocar, e você imitou meu movimento querendo me tocar. E nossos dedos foram se aproximando aos poucos, enquanto as horas se mexiam. E nenhum dos braços se contraiu, tentando frear o acidente. Nenhuma palavra de perdão saiu de nossas bocas, tentando disfarçar a vontade de tocar. Nada aconteceu para fingir que aquilo não era uma escolha. Nossos dedos não se encolheram de leve quando se tocaram. E aquilo foi simplesmente acontecendo, sem que nenhum de nós parasse para teorizar o que poderia acontecer no instante seguinte. Como um carro beirando um penhasco sem que o motorista tire o pé do acelerador. Enfim, meus dedos tocaram os teus, ou seus dedos tocaram os meus, em um gesto leve e delicado e ao mesmo tempo de forma tão brusca que eu não poderia mais dizer se havia sido apenas um toque ou o presságio de uma tragédia que viria logo a seguir. E bateu em mim, e acredito que em ti também, uma lufada de sentimentos tão firme, tão forte, daquelas de dilacerar o mais puro coração. Mas sendo um toque, uma tragédia ou, até, talvez, uma nova tentativa de amar, de um jeito ou de outro nossos dedos se tocaram. E eu levantei minha cabeça e, novamente, você imitou meu movimento e dessa vez foram nossos olhos que se tocaram. E eu, em meio ao desespero, não podia dizer se aqueles olhos que miravam os meus guardavam rancor ou esperança. Não podia dizer se era tristeza pela primeira tentativa que falhou, ou se era felicidade pelo que aquele movimento inicial, de botar a mão mesa, guardava. Não podia dizer se aqueles dedos que tocavam os meus, querendo e não querendo tocar, guardavam receio ou vontade. E também não saberia dizer se aquele sentimento que se instalava em mim era leve ou pesado, bom ou ruim, ódio ou amor. E àquela altura eu não sabia mais que sentimento eu queria dentro de mim e nem sabia mais o que era certo ou errado. Não queria amar, não queria odiar, não queria nada a não ser ficar olhando seus olhos em um quase-ódio, em um quase-amor, enquanto meus dedos tocavam os teus em um movimento leve e delicado, ou em um movimento firme e forte, capaz de dilacerar o meu e o seu coração. E ficamos em silêncio com os dedos encostados e os corações dilacerados. Ficamos em silêncio em um desespero de voltar a tentar, de voltar a amar. Ficamos em silêncio, pois sabíamos que se um de nós falasse alguma coisa teríamos que teorizar aquele toque, aqueles olhos se olhando em um quase-amor, em um quase-ódio de não saber o próximo passo. Sabíamos que se começássemos a falar teríamos que teorizar vontades, mas não queríamos e nem podíamos. E por mais que fosse apenas um pequeno toque sabíamos que aquilo era grande demais para não significar nada. Mas ficamos em silêncio. E eu esperava que de alguma forma aquele acidente, aqueles olhares cruzados, virassem logo uma tragédia. E que aos poucos meus olhos fossem se fechando e seu corpo fosse se movendo para cima do meu corpo, e nossos lábios fossem se encostando, e aquela tragédia fosse se encaminhando, levemente, para tornar-se realidade. Eu queria chegar ao ponto em que eu fosse aquele motorista do carro, beirando ao abismo, que tenta frear no último momento, mas aí já é tarde, a tragédia está feita, o carro está caindo e nossos lábios estão se encostando. E nesse momento eu ouviria um pequeno estalo na minha cabeça que diria que enfim aquele acidente virou tragédia, e não só nossos dedos e olhares se tocavam, mas sim nossos corpos, nossos corações dilacerados, pelo toque inicial. E o estalo me lembraria da incapacidade que eu teria de me guiar a partir daí, pois faltava teoria dentro de mim, e eu precisava que algo me explicasse o que era aquele toque. E por não saber explicar, fiquei em silêncio, esperando que você desse o primeiro passo, e ao mesmo tempo, sem querer que aquele instante chegasse a um fim. Você piscou os olhos, e nosso olhar se quebrou. E eu pensei que talvez aquele fosse o próximo passo. Pensei que talvez fosse apenas isso. Nossos dedos se encostaram e o próximo passo era nada. Eu tinha duas possibilidades em minhas mãos, e você fazia questão de encostar na ponta dos dedos onde elas estavam. E minha vontade era de dizer me perdoe, por favor, mas será que você pode segurar firme em minha mão, e depois ir soltando aos poucos para eu ver se uma das possibilidades cai no chão, e talvez, assim a outra fique estática grudada em mim, e aí já está escolhido, pois meu coração está dilacerado, querida, meus olhos não suportam mais te olhar e meu braço está inquieto desde que seus dedos encostaram os meus. E talvez, eu tenha chegado a dizer, mas estava tão concentrada no meu pânico de te-tocar-ou-não que não soube se disse tudo isso ou só pensei em dizer. Mas sei que seu braço foi se mexendo e seus dedos deixando de encostar os meus e passando aos poucos pelas minhas articulações até chegar à palma de minha mão, e continuo subindo ou descendo até meu pulso, onde me segurou como quem segura um punhal e foi me puxando por cima da mesa, por cima do seu corpo, por cima do meu pânico, até eu estar estendida, estática, em cima de você, sentindo o seu coração que batia tão forte, tão firme. E você botou a mão em meu peito, olhando nos meus olhos, como se procurasse um batimento, mas não sei se corações dilacerados costumam bater, e já havia tempo que eu não parava para sentir meu coração pulsando dentro de mim. E você foi se aproximando, e segurou meu outro pulso, enquanto eu continuava a sentir o pulsar do seu peito e a pensar se corações dilacerados batem ou não. E você foi se aproximando como eu tanto imaginei. E veio a minha cabeça a vontade de sair correndo, pois não tinha mais forças para amar. Mas quando me dei conta disso, e tentei frear, já era tarde demais. O carro caía penhasco a baixo e meus lábios estavam próximos demais dos teus. E eu ouvi no fundo da minha cabeça um estalo sinalizando a tragédia. E pensei que talvez sim. Pensei que se sobrou força pra você me puxar pelo pulso, se sobrou vontade para eu me deixar levar, pensei que sim, que ainda haveria uma possibilidade de amar. Ouvi de novo o estalo, e senti meu coração dilacerado batendo aos poucos. E pensei novamente que sim: corações dilacerados batem, e batem forte. E teorizando assim, que meu peito ainda pulsava, fechando os olhos, quebrando o olhar, permitindo que você me puxasse para mais perto ainda, me entreguei, enfim, àquela tragédia.</p>
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