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	<title>Argumento.net &#187; LITTERA&amp;TAL</title>
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	<description>QUEM ARGUMENTA SEMPRE ALCANÇA</description>
	<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:17:55 +0000</pubDate>
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		<title>O MAR DOS MEUS ANTEPASSADOS</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 17:55:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudiany da Costa Pereira</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[Camões]]></category>

		<category><![CDATA[Fernando Pessoa]]></category>

		<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<category><![CDATA[Sophia de Mello Breyner Andresen]]></category>

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		<description><![CDATA[(REESTREIA) A casa tinha três pisos alugados pelo senhorio a inquilinos de distintas nacionalidades. Nós morávamos na parte do meio. Os vizinhos todos, entretanto, podiam usufruir do imenso quintal fornido de legumes, frutas e hortaliças. O verde circundava os arredores da casa. À frente, podia-se colher nabos e alecrim e, ao lado direito, após a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(REESTREIA)</strong> A casa tinha três pisos alugados pelo senhorio a inquilinos de distintas nacionalidades. Nós morávamos na parte do meio. Os vizinhos todos, entretanto, podiam usufruir do imenso quintal fornido de legumes, frutas e hortaliças. O verde circundava os arredores da casa. À frente, podia-se colher nabos e alecrim e, ao lado direito, após a garagem, floresciam cravos de abril.</p>
<p>Nem todos os hóspedes cuidavam da horta, tampouco limpavam o espaço comum depois de usado. Mas era bom termos ao alcance temperos e couves, assim como uvas e ervas, além de estarmos cercados daquela beleza natural que coloria os nossos dias mesmo ao inverno. Da varanda que tínhamos no segundo andar, essa só nossa, que dava acesso após subir a estreita escada já meio enferrujada, podíamos observar o mar. E eu não abria mão desse direito, quase um dever, nem quando chovia. Ao saltar da cama pela manhã, logo cedo, mesmo de pijama e meias, subia cuidadosamente a escadinha de ferro e ficava lá algum tempo a contemplar o mar.</p>
<p>Só depois de me perder na imensidão daquele espetáculo é que descia novamente à cozinha e tomava, então, o pequeno-almoço. À noite, antes de deitar, subia novamente a mesma escada, e mais ouvia do que via aquele mar revolto e barulhento. Quando eu era pequena, sentava ao pé de minha avó para ouvi-la contar histórias do meu bisavô, um marítimo que partiu de Portugal rumo ao Brasil. Eu achava que Portugal era um lugar distante que jamais, talvez, eu pudesse conhecer uma terra que ficasse assim tão longe. </p>
<p>Quando fui, depois de uma vida passada a este Portugal e pude ver o mesmo mar que meu bisavô, e ter, decerto, a mesma sensação que ele ao cruzar aquele Atlântico para conhecer outras paragens, eu me lembrava em pormenores do que minha avó dizia; sobretudo do orgulho que ela tinha em ser filha de marítimo e ir, com ele, fazer travessias no porto de Porto Alegre, a passar viandantes de um lugar a outro das ilhas. </p>
<p>Hoje, essa magia ficou perdida no tempo; e tudo o que eu conheço o fiz pela imaginação talvez já colorida e, agora, definitivamente perdida da minha avó. Eu gostaria de poder contar a ela que estava no Portugal do meu bisavô, mas já não podia contar, pois mesmo que o fizesse, ela concordaria sem entender. Há algum tempo, ela já não reconhecia mais os seus, embora se lembrasse, com precisão, do passado junto ao Rio Guaíba, o rio da minha aldeia, como diria o poeta.<br />
E mesmo nesse lembrar-se de agora, já não podíamos mais saber o que era a lembrança vivida e o que nela havia de alucinação. Mas embalada por histórias de navios e mares, de timão e mastros, eu subia, além da varanda, no mirante das ruínas de um forte à beira-mar, e ficava olhando e ouvindo o mar. Nesse transe, me perdia em pensamentos que nem sabia serem meus, tentando sentir e adivinhar a emoção dos navegantes, bem como o vazio e a angústia da vida de quem aguarda regressos. </p>
<p>Subida no mirante olhava e perdia a vista naquele mar infindo cantado por <strong>Fernando Pessoa </strong>e <strong>Sophia de Mello</strong>, <strong>Camões</strong> e <strong>Sóror Saudade</strong>. Posso dizer quase com certeza e verdade que chegava a ver caravelas ao mar, e os homens chegando a terra de volta aos braços aflitos das mulheres na areia. Para olhar o mar é preciso ter olhos de enxergar o mar e as vidas que por ele passaram. Assim como a de meu bisavô: a buscar destinos e semear famílias, a gerar e velar pelas vidas que foram perdidas em nome do progresso e da aventura de ser Deus rompendo os limites impostos aos homens de outrora. Era esse o mar que eu olhava e ouvia todos os dias em que estive lá. E foram todas as emoções sentidas, as histórias que ouvi do mar e das conquistas, das perdas e das dores, das identidades misturadas pelas fronteiras do mundo, que eu queria contar para a minha avó e não pude. </p>
<p>Guardei-as todas, uma a uma, apertadas no peito, entrelaçadas na garganta, enquanto ouvia ela perguntar quem eu era, quando regressei. </p>
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		<title>MEU MUNDO RUIU</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Nov 2005 18:03:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudiany da Costa Pereira</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[LITTERA&amp;TAL]]></category>

		<category><![CDATA[José Craveirinha]]></category>

		<category><![CDATA[Mia Couto]]></category>

		<category><![CDATA[pós-colonialismo]]></category>

		<category><![CDATA[Ungulani Ba Ka Khosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Sabe quando você dedica um tempo enorme da sua vida fazendo uma coisa e descobre, de repente, que mais alguém, em outro lugar do mundo, teve ideia semelhante? O que é pior, já publicou essa ideia? Pois é, assim que me senti quando li o livro O conto moçambicano: escritas pós-coloniais, de Maria Fernanda Afonso. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sabe quando você dedica um tempo enorme da sua vida fazendo uma coisa e descobre, de repente, que mais alguém, em outro lugar do mundo, teve ideia semelhante? O que é pior, já publicou essa ideia? Pois é, assim que me senti quando li o livro <em>O conto moçambicano: escritas pós-coloniais</em>, de <strong>Maria Fernanda Afonso</strong>. </p>
<p>O livro é magnífico, resultado de uma tese de doutorado, e foi publicado pela Editorial Caminho, a mesma de <strong>Mia Couto</strong>. A autora percorre a literatura moçambicana contemporânea, através do universo da narrativa curta, interpretando autores como <strong>Mia Couto</strong>, <strong>Ungulani Ba Ka Khosa</strong>, <strong>Aníbal Aleluia</strong>, <strong>José Craveirinha</strong>, <strong>Raul Honwana</strong>, <strong>Suleiman Cassamo</strong>. </p>
<p>A leitura é límpida, fluida, mesmo em se tratando de um texto teórico, e mais de uma tese de doutoramento, você não sente vontade de largar o livro. E quer desvendar o universo marcado pelo cenário mítico africano. Sou particularmente fã de Mia Couto, mas igualmente de Ungulani Ba Ka Khosa. Disse que meu mundo ruiu por que minha tese também trabalha com narrativa curta, de Mia Couto, sem esquecer uma ligeira flertada pela ficção de Ba Ka Khosa. Especialmente um conto que está em <em>Orgia dos loucos</em>, e se intitula ‘Morte inesperada’. Nesse conto, há uma resistência muito grande da personagem-narrador ao assimilacionismo. Ele não quer frequentar a escola para não perder o vínculo com o saber ancestral africano. Tomando como cenário histórico o governo administrado pela Frelimo – Frente de libertação para Moçambique, que assumiu o poder no pós-independência, observa-se que o projeto inaugural de transformar a língua portuguesa em primeira língua passa, primeiramente, e num julgamento apressado, pelo detrimento das línguas nacionais. É a isso que a personagem resiste. Mas a forma como é trabalhado por Ungulani o drama existencial da personagem em ir ou não para a escola, e o desfecho trágico que se segue à sua escolha, são de um potencial dramático singular. </p>
<p>O assimilacionismo é também tema em várias obras de Mia Couto, contos ou romances, e na maioria destas narrativas, há o choque entre o saber tradicional e o patrimônio cultural europeu, exercitando uma dicotomia desproporcional entre saberes. </p>
<p>Se eu fosse utilizar muitos adjetivos para qualificar o livro de Fernanda Afonso deixaria de ser crítica profissional para me tornar uma tiete. Continuo a escrever minha tese, que enfoca este e outros autores, incluindo o timorense Luís Cardoso, sob outro prisma de análise, dentro do vasto campo dos estudos culturais. Entretanto, a contribuição de Fernanda Afonso para o estudo da literatura africana em língua portuguesa, e mais especificamente, a moçambicana, é incomensurável. Meu mundo ruiu igualmente porque muitos dos contos selecionados pela autora também estão no <em>corpus</em> de minha tese. Donde dá uma ligeira sensação de que o que se queria dizer, já foi parcialmente dito. Mas resta o consolo de que foi muito bem dito. E tem ainda outro tanto por dizer, sobretudo de Timor, de onde quase nada foi dito.</p>
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		<title>AS CAPAS PRETAS DE COIMBRA</title>
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		<pubDate>Sun, 23 Oct 2005 18:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudiany da Costa Pereira</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[LITTERA&amp;TAL]]></category>

		<category><![CDATA[Coimbra]]></category>

		<category><![CDATA[Educação]]></category>

		<category><![CDATA[Universidade de Coimbra]]></category>

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		<description><![CDATA[Passear pelas ruas de Coimbra é reviver um pouco a história da instituição universitária mais antiga de Portugal. Seja no Largo da Portagem – centro da cidade -, seja nos arredores do Arco da Almedina – na entrada da universidade -, deparamo-nos com os estudantes trajando suas capas pretas, oferecendo um belo espetáculo aos olhos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Passear pelas ruas de Coimbra é reviver um pouco a história da instituição universitária mais antiga de Portugal. Seja no Largo da Portagem – centro da cidade -, seja nos arredores do Arco da Almedina – na entrada da universidade -, deparamo-nos com os estudantes trajando suas capas pretas, oferecendo um belo espetáculo aos olhos de quem chega. </p>
<p>Coimbra não é uma universidade qualquer: é a universidade por excelência e por tradição. Sua problemática institucional se observa com a convivência diária, mas o que se vê – a fachada – são os corredores por onde passaram de reis a poetas. A edificação que abriga séculos de história, e a tradição, tão polêmica quanto bela, do uso do fato acadêmico. Onde se vê tradição, vê-se, igualmente, conscientização política.</p>
<p>Entretanto, nesse ano de 2005, a revoada dos andorinhas brancas teve um significado distinto. No mesmo dia em que o Reitor de Coimbra, <strong>Seabra Santos</strong>, ocupou a Capa do Jornal Diário de Coimbra para reclamar do orçamento destinado à Universidade, um grupo não significativo de estudantes invadiu a sala dos Capelos, onde se realizava a abertura solene das atividades letivas, para protestar.</p>
<p>Sim, o ensino superior português está em crise. Todos os anos há manifestações estudantis na universidade. Mas, desta feita, desde a abertura do ano letivo, os incidentes se sucederam, culminando, no dia 20 de outubro, com a intervenção da polícia de choque num protesto. </p>
<p>Mais de duzentos estudantes tentaram ingressar no senado durante a votação do preço máximo das propinas escolares (espécie de taxa) e foram barrados pela polícia, chamada pelo reitor Seabra Santos. O motivo, certamente, era garantir que esta solenidade não fosse interrompida como a primeira, mas os excessos, de ambas as partes, acabaram no triste episódio da prisão de um caloiro do curso de jornalismo, por desacato à autoridade.</p>
<p>A foto de um policial ajoelhado sobre a cabeça do estudante, enquanto outro o prendia, foi exibida pelos jornais e erguida pelos colegas como bandeira em defesa do artigo 25 da Constituição portuguesa, que garante o direito à integridade física. Os estudantes permaneceram em vigília em frente à sede da polícia, até a soltura do estudante que, mesmo em liberdade, poderá ser julgado e condenado a até cinco anos de detenção.</p>
<p>A tradicional Festa das Latas e Imposição das Insígnias – que é em essência uma recepção aos acadêmicos, foi transformada em comício e este em protesto que pede a renúncia do reitor. As solenidades de recepção aos caloiros foram transferidas, e ocorreram em dias distintos, marcadas pela inconformidade dos alunos com os episódios ocorridos este ano, incluindo o fechamento de uma via pública junto à universidade – a rua Padre António Vieira. </p>
<p>Estes episódios foram levados à discussão na Assembléia Geral de estudantes, ocorrida dia 4 de Novembro, em Lisboa. O que causou tudo isso?</p>
<p>A votação do preço considerado abusivo da cobrança das propinas (taxas), que foi estabelecido pelo senado universitário. Os estudantes acusam o reitor de ser o presidente do conselho de administração da universidade de Coimbra, e pedem sua renúncia. O líder estudantil Miguel Duarte disse, em entrevista ao Jornal Diário de Coimbra, que em trinta anos de democracia, nunca se presenciou um abuso como este. </p>
<p>O que subsiste na universidade é a inquietação e o inconformismo, a disposição para a luta e o ímpeto de mudança, que nos acompanha na juventude, seja ela de idéias, seja de idade. Não significa que um ou outro lado tenham razão sobre os abusos praticados. Se calhar, a verdade é o produto da soma do ponto de vista das duas partes, acrescido dos fatos, que são inegáveis. </p>
<p>Mas, o que eu queria mesmo dizer, é que as capas pretas de Coimbra ainda buscam o que consideram ser a verdadeira democracia, porque ainda resta Abril na Universidade. </p>
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		<title>ONDE FICA A AMÉRICA?</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Oct 2005 18:22:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudiany da Costa Pereira</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[América]]></category>

		<category><![CDATA[doutrina Monroe]]></category>

		<category><![CDATA[George Bush]]></category>

		<category><![CDATA[professor]]></category>

		<category><![CDATA[Walter Benjamin]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje é um dia particularmente especial, pois nesta data comemora-se o dia do Professor. Dia do professor, assim como de pais e mães, deveria ser todos os dias. Não tomem este discurso como demagogia, porque ele parte da inegável premissa de que todos devemos nosso aprendizado aos grandes mestres, muitas vezes anônimos, pelos quais passamos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje é um dia particularmente especial, pois nesta data comemora-se o dia do Professor. Dia do professor, assim como de pais e mães, deveria ser todos os dias. Não tomem este discurso como demagogia, porque ele parte da inegável premissa de que todos devemos nosso aprendizado aos grandes mestres, muitas vezes anônimos, pelos quais passamos. Mestres esses que nos legaram não apenas o saber adquirido, mas a experiência de vida e a exemplaridade de ações. Educar no nosso país, por mais clichê que pareça essa afirmação, não é tarefa fácil, nem é novidade que não o seja. Também por isso todos os mestres merecem, pelo menos no dia hoje, um parabéns especialíssimo e um sonoro muito obrigada! </p>
<p><em>De que América estamos a falar, ó pá? </em> </p>
<p>Não sei por que com o passar do tempo adquirimos manias estranhas. Eu, como é óbvio, tenho as minhas. Uma delas é que não SUPORTO, mas não suporto mesmo, ouvir sempre, repetidas vezes, ditas pelas mais brilhantes cabeças pensantes do país, que os Estados Unidos da América (do NORTE) são “a América”. Em Portugal, então, não se diz Estados Unidos, diz-se América, donde eu tinha que lembrar constantemente que também vinha da América. Duma parte da América, de um quinhão da América. Do lugar que me coube neste latifúndio. <strong>George Bush</strong>, em seu discurso frente aos atentados de 11 de setembro, nos E.U.A. (do Norte), bradou em cadeia internacional: - “God bless América” - (título da composição de <strong>Irving Berlin</strong>, que foi cogitada para ser o hino nacional norte-americano). A sentença proferida no governo de <strong>James Monroe</strong>, na década de 20 do século XIX, conhecida como Doutrina Monroe, declarava “América para os americanos”, numa tentativa de afastar a dominação europeia no continente americano (lato sensu). <strong>Brad Pitt, Matt Damon </strong>e a família <strong>Baldwin</strong> são atores “americanos”. O jornal <em>New York Post </em>e a <em>Revista Time</em> são periódicos “americanos”. O <em>Dicionário Aurélio</em>, felizmente, faz a distinção entre americanos (do continente americano, seja da América do Norte, Central ou do Sul) e americanos do norte (mexicanos, estadunidenses e canadenses), mas este adjetivo “americano” é comumente interpretado como relativo ao que é ou que vem dos Estados Unidos. </p>
<p>A novela da Rede Globo, veiculada em horário nobre, chama-se <em>América</em>. Seus cenários são divididos entre Brasil e Estados Unidos, simultaneamente, embora todas as personagens sejam elas norte-americanas, mexicanas ou brasileiras falem a mesma língua portuguesa. Como se os Estados Unidos da América do Norte fosse o mais novo integrante da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa-, ou igualmente pertencesse à Comunidade Lusófona.  Mas o que faço é apenas um registro inútil, pois em ficção esse livre arbítrio que dilui fronteiras, e nesse caso beira ao absurdo, chama-se, salvaguardadas as devidas proporções, licença poética. Porém, ainda sobre o fato do continente americano ser reduzido à extensão territorial ocupada pelos Estados Unidos da América (do Norte), e isso ser representativo de todo um continente híbrido e multicultural, acredito que não exista motivo para que esse equívoco se perpetue nos nossos discursos, sem que se tente ao menos discutir essa questão. Famosos jornalistas, intelectuais, escritores, apresentadores de TV poderiam contribuir para desfazer, e não corroborar, esta incorreção geo-físico-político-sócio-cultural. Outro dia <strong>Rosane Marchetti</strong>, no Jornal do Almoço da RBS TV, quando anunciava a chegada de oito estudantes timorenses à capital gaúcha, disse que Timor Leste era um país africano. </p>
<p>Concordo que ninguém tenha obrigação de saber que Timor Leste é uma jovem nação asiática, e que o que tem em comum com os países africanos de língua portuguesa é a história de subjugação colonial à matriz portuguesa, a língua de cultura e os conflitos de libertação nacional. A sociedade não é obrigada a saber disso. Na verdade, pouca gente sabe ao certo onde fica Timor. Além do que, pode ter sido um lapso da nobre apresentadora. Linguistas dizem (informação paralela) que <strong>Jorge Alberto Mendes Ribeiro</strong> - o pai -, repetia, incessantemente, aquela frase: &#8220;foi um privilégio ter estado com vocês&#8221;, numa tentativa de mostrar a pronúncia correta da palavra prIvilégio. Conduta que reforça a já sabida e notória influência dos meios de comunicação social como veiculadores de construções narrativas que, pelo alcance obtido, se tornam verdades. </p>
<p>Com a velocidade assustadora que mudam os costumes na contemporaneidade, já passamos pela era do rádio - que também foi difusor de comportamentos e condicionador de ações pragmáticas, como a homogeneização linguística de norte a sul do país -, pelo domínio absoluto da mídia televisiva, que mostrava (mostra) a notícia via satélite, imprimindo modas e comportamentos imediatos na sociedade, para passarmos à era da comunicação On-Line, seja através do jornalismo (“confira as notícias minuto a minuto”), ou das mensagens eletrônicas, ou dos blogs, ou das redes de amigos (Orkut, Gazzag), que se tornaram os parnasos contemporâneos. </p>
<p>A informação, dessa forma, nos é dada em abundância de quantidade, porém carência de qualidade. <strong>Walter Benjamin</strong>, no famoso e sempre lembrado texto “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, reflete sobre a importância da informação na nossa vida (dele, década de 30 do século XX), e na evolução dos gêneros. Enquanto o romance levou séculos para materializar-se enquanto forma narrativa, não em superação, mas principalmente em detrimento do narrador oral, trazendo para a cena literária a solidão da leitura, a informação pode modificar nossa vida do dia para a noite, causando assim o que ele chama de “a morte da narrativa” pela rapidez com que se desenvolve e pelo acrescento da explicação. Tudo precisa ser rapidamente compreendido, e para que possa assim o ser, os fatos são digeridos, desmembrados, fragmentados. E essa tendência passa a ser também incorporada pelas narrativas ficcionais.  </p>
<p>Uma informação cria realidades quando está a serviço, primeiramente, de um aparelho ideológico. Dizer que os Estados Unidos da América (do Norte), que para aquém de ser uma superpotência econômica mundial, é um fragmento territorial, cuja extensão representa uma percentagem do imenso continente denominado América - em homenagem a Américo Vespúcio, não o seu descobridor, mas o que se flagrou dessa empreitada – pode reafirmar uma soberania que já existe no campo econômico e cultural. Num contexto, vale lembrar, em que todos nós, americanos, discutimos e reafirmamos nossas identidades (híbridas) culturais em oposição, como também em equivalência, a outras identidades. Por que, então, perpetuar essa incongruência? </p>
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		<title>O PROCESSO DE RECONSTITUIÇÃO DA HISTÓRIA</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jul 2005 18:48:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudiany da Costa Pereira</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[LITTERA&amp;TAL]]></category>

		<category><![CDATA[Breviário das terras do Brasil]]></category>

		<category><![CDATA[Carlos Ginzburg]]></category>

		<category><![CDATA[Luiz Antonio de Assis Brasil]]></category>

		<category><![CDATA[O queijo e os vermes]]></category>

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		<description><![CDATA[O QUEIJO E OS VERMES E AS FONTES DOCUMENTAIS
Penso – essa estranha mania - que um dos assuntos que, entra ano e sai ano, continua sendo discutido dentro da academia literária diz respeito às relações entre ficção e história, no que elas se assemelham como construtos ficcionais ou elaborações discursivas. E não é para menos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O QUEIJO E OS VERMES </em>E AS FONTES DOCUMENTAIS</p>
<p>Penso – essa estranha mania - que um dos assuntos que, entra ano e sai ano, continua sendo discutido dentro da academia literária diz respeito às relações entre ficção e história, no que elas se assemelham como construtos ficcionais ou elaborações discursivas. E não é para menos. Com a postura desmitificadora da história, que se remodela a partir da década de 70, várias questões com relação ao passado foram repensadas sob óticas distintas. Os historiadores trabalham em novos modelos de análise histórica e fazem surgir as histórias do cotidiano, das mentalidades, da ordem privada e, mais recentemente, do imaginário. </p>
<p>A visão que se tinha da história, durante século XIX, era de uma história que deveria dar conta da totalidade da visão do mundo, como uma equação matemática. A partir destes estudos, iniciados com a Escola dos Anais, podemos observar que a história não só não é una, como também pode ser vista por inúmeros ângulos: a história do vencedor e a do vencido, das classes dominantes e das subalternas, e dentro dessas, sob a ótica de um único indivíduo que, sem querer representar a totalidade de uma classe, dela nos dá ao menos a noção de sua existência. </p>
<p>Pensar o período em que vigora a Inquisição não só no Brasil ou Portugal – como faz o escritor gaúcho <strong>Luiz Antonio de Assis Brasil</strong>, em <em>Breviário das terras do Brasil </em>-, como também na Espanha e na Itália - como faz o historiador italiano <strong>Carlo Ginzburg </strong>-, é pensar um momento da história da humanidade em que o simples fato de pensar, importando menos o conteúdo das ideias, por si só era considerado heresia. O indivíduo que nesse período não tem poder sobre o conhecimento está subjugado ao conhecimento como fonte de poder, por uma instituição, é importante que se diga, que não hesita em usar esse instrumento como forma de dominação e de divulgação de um pensamento religioso, de uma fé que se queria única. </p>
<p>Nesse período também, talvez exausto de não entender o mundo em que vive, como demonstra Menocchio, a personalidade histórica resgatada por Carlo Ginszburg, em <em>O queijo e os vermes</em>, o homem amplia o seu horizonte, voltando os olhos para um passado distante e, em termos artísticos e filosóficos, bastante fecundo. Assim como as artes voltam os olhos para o antiguidade clássica, a filosofia de mundo dessa época vem à  tona. E com ela, além da sua estética, a sua fé. Uma fé em que dialogam deuses e homens e em que, não sabendo ou não podendo explicar o mundo, busca-se o plano das divindades para conviverem e até mesmo interferirem no plano humano.</p>
<p>É o homem tentando ajustar-se ao mundo com as armas que tem a seu dispor. É assim no mundo grego, é assim no mundo renascentista. E as personagens resgatadas dos porões da história, fadadas ao esquecimento, mais do que personalidades perseguidas pela inquisição,  corporificam o próprio pensamento renascentista. Domenico Scandela, o moleiro Menocchio, por exemplo, queria estabelecer com o mundo e, por consequência, com a fé e tudo o que pairava no mundo como verdade absoluta, uma relação de igualdade. </p>
<p>E nós tentamos estabelecer com esse pensamento, a partir da ótica do presente, uma relação que passa pela compreensão e vai à perplexidade. Estamos falando de um período histórico complexo – que coloca Deus em oposição ao homem, ao invés de estabelecer entre ambos uma relação de conformidade.</p>
<p>O que ocorre com Menocchio é que ele tenta, voltando ao princípio grego de compreensão do mundo, entender o mundo em que vive, de uma forma que seja palpável, compreensível, que esteja ao alcance de sua forma de ver o mundo, conferindo à sua interpretação do cânone religioso a mesma feição estabelecida no mundo grego, no qual a proximidade do plano divino se constituía numa tentativa de aproximar as questões sobrenaturais do mundo vivido. Há um grande distanciamento entre a visão do mundo que passa às multidões, pelo filtro da Igreja Católica, e o mundo das massas camponesas, analfabetas.</p>
<p>Este contexto, o da inquisição, nos remete a um outro problema-chave para a reconstituição da história de Domenico Scandella,  o moleiro italiano que foi perseguido pela inquisição século XVI, que é o problema das fontes documentais, nas quais o historiador foi buscar o material do seu trabalho. A reconstituição desta história é feita a partir dos diálogos, dos testemunhos que constam nos inquéritos da Santa Inquisição. Diálogos estes que não representam a totalidade da sua classe: donde podemos observar a ausência e a manipulação das fontes. </p>
<p>Uma das primeiras ideias que temos ao entrar em contato com o texto do italiano Ginzburg é o da busca de uma história próxima à cultura popular, embora este não seja o objetivo primeiro, e o autor deixe claro que a história de Menhocchio não representa esta totalidade, embora dela esteja mais próximo do que a cultura dominante que temos notícia, divergente, portanto, da historiografia oficial do ocidente. O autor vai &#8220;tentar&#8221; resgatar um modus vivendi que não conheceu, a partir de documentos escritos que, como vimos, podem ter sido manipulados tanto pela parcialidade dos relatos, quanto pela indução às respostas, constrangimento esse a que as testemunhas foram expostas nesses processos de inquisição. </p>
<p>Perante esses fatos o autor já comunica que seu posicionamento será de repúdio a essa postura totalitarista diante da história, sobretudo no que se refere ao seu país, e a história do Santo Ofício. Carlo Ginzburg resgatará a história que ninguém conheceu, a história que o próprio fazer histórico desconhece: a história dos anônimos. </p>
<p>Por outro lado, também permite perceber que mesmo os anônimos, aqueles de quem a história não dá conta, mesmo eles sofreram e foram perseguidos pelos tribunais do Santo Ofício, ponto esse em que suas vidas coincidem com as de outros tantos famosos que a Igreja condenou à fogueira. O ponto que os une é a morte, o mesmo que une toda a humanidade. E, junto com a morte, está a ideia de putrefação, que foi a alegoria que condenou Menocchio, o moleiro friuliano.</p>
<p>O autor começa a analisar as transformações culturais a partir da desestruturação social, dos fatores econômicos, da diferença de classes sociais: dominantes e subalternas. Ginzburg estabeleceu parâmetros de comparação entre a cultura das classes ditas subalternas e a cultura erudita. Aquelas, principalmente, se pensarmos em termos de passado histórico, são muito mais afeitas à tradição oral, o que lhes confere certa limitação: “os historiadores não podem se pôr a conversar com os camponeses do século XVI&#8221;, como afirma Ginzburg. Fato este que os torna dependentes de fontes indiretas, tais como a escrita e achados arqueológicos. </p>
<p>Estas fontes, há de se destacar, apesar de verossímeis, uma vez que os produtores textuais, os cronistas ou historiadores, enquanto sujeitos sociais, elaboram seus textos conforme  ideologia própria, que pode ser, inclusive, a da cultura dominante, e na quase totalidade dos fatos o é, como foi dito, as fontes são parciais, contém uma parcela da história, um ângulo de visão da mesma.<br />
Os relatos que servem como fontes documentais dão uma mostra do quanto o próprio processo histórico da Inquisição é uma elaboração ficcional, só deixando de ser  ficcional quanto às penalidades aplicadas, porque os relatos partem da interpretação dos delatores, quando não da interpretação dada pelos inquisidores e da indução das respostas.  E o resgatar desse fato histórico incontestável se desdobra através da elaboração discursiva do historiador, que não deixa de ser, igualmente e sem demérito, um construto ficcional. É claro que essa é uma visão do lado de cá da história; do lado de cá do Atlântico. </p>
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		<title>RENDA-SE À METAMORFOSE DE PAULA REGO E LÍDIA JORGE</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jan 2005 18:10:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudiany da Costa Pereira</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[LITTERA&amp;TAL]]></category>

		<category><![CDATA[A costa dos murmúrios]]></category>

		<category><![CDATA[Lídia Jorge]]></category>

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		<category><![CDATA[Museu Serralves]]></category>

		<category><![CDATA[Paula Rego]]></category>

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		<description><![CDATA[O cenário político português está em baixa, com a crise da administração de Santana Lopes, Primeiro-Ministro demissionário. Em contrapartida, a cena artístico-cultural está em livre ascensão. Em pauta a voz feminina na literatura, em versão para a sétima arte, com A costa dos murmúrios, obra de Lídia Jorge e adaptação de Margarida Cardoso; e nas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cenário político português está em baixa, com a crise da administração de <strong>Santana Lopes</strong>, Primeiro-Ministro demissionário. Em contrapartida, a cena artístico-cultural está em livre ascensão. Em pauta a voz feminina na literatura, em versão para a sétima arte, com <em>A costa dos murmúrios</em>, obra de <strong>Lídia Jorge </strong>e adaptação de <strong>Margarida Cardoso</strong>; e nas artes plásticas, com a megaexposição de <strong>Paula Rego</strong>, no museu Serralves do Porto. </p>
<p>O que presenciamos é a perspectiva do olhar feminino sobre a realidade social: o olhar da alteridade que também sofre perdas, espera maridos, fornece filhos para a guerra e outros conflitos sociais.<br />
Paula Rego, a artista mais badalada do momento, também tem sua obra marcada pela retratação do cenário social. São representações de mulheres de expressões grotescas, mas nem por isso menos belas. Uma mãe contemporânea, camponesa, sentada de pernas abertas com o filho morto sobre os braços lembra a Virgem Maria com o filho adulto ao colo, dessacralizada, vestida de negro, de feições rudes e pernas semiabertas. Ainda assim, uma mãe que sofre a perda do filho.</p>
<p>O filho bem pode ser Nosso Senhor, como pode igualmente, e sem heresia, ser um judeu evadido do holocausto. Uma virgem pós-moderna. A imagem, e somente a imagem, remete à simbologia universal. Porque os traços assemelham-se a mais comum das mulheres. O sofrimento humano está expresso em diferentes formas. Esta imagem se repete igualmente em outra série, desta vez intitulada “metamorfose”, que remete à obra de <strong>Kafka</strong>, mas, ao mesmo tempo, remete a cenas do holocausto.</p>
<p>A expressão da dor humana, a agonia da contorção corporal: o homem parece querer sair do seu próprio corpo, fugir da sua imagem. Uma imagem que choca pela retratação da dor, do quase nu, não do nu artístico, mas do nu de estar despido diante do mundo, a ausência de tudo. Novamente aqui pode ser a personagem de Kafka, Gregor Samsa, durante a metamorfose, como pode ser o mesmo judeu do colo de Maria pós-moderna. </p>
<p>Quem, aliás, mais tristemente expressivo do que os judeus, nesse período lamentável da história da humanidade, para representarem a metamorfose do corpo? Na retratação das cenas sociais, de momentos críticos extraídos da realidade social, Paula Rego lembra <strong>Picasso</strong>: &#8220;Guernica&#8221;, pelas cenas centradas no detalhe. O detalhe que evoca a degradação ou a destruição sociais. Em outro momento, igualmente evocativos da realidade social, lembra <strong>Salvador Dali</strong>: a desproporção e a deformação das imagens. </p>
<p>Mas há também momentos apenas curiosos como uma série de 7 quadros representando um momento de insônia ou um uma mulher tendo convulsões. Um dos quadros que mais me chocou se chama “Obediência” e retrata uma cena doméstica: uma mulher de cócoras, com a cabeça encostada em uma cadeira, levantando o vestido. Nada mais sugestivo à submissão feminina que a literatura portuguesa tanto retrata desde as cartas portuguesas, de <strong>Mariana Alcoforado</strong>.</p>
<p>Se Lídia Jorge fala da guerra sob a perspectiva feminina, desvendando uma história que se queria oficial durante a guerra colonial em Moçambique, pois a autora diz que escreveu <em>A costa dos murmúrios </em>para evitar que aquelas vidas caminhassem para a versão oficial, Paula Rego também retrata esse universo da guerra, sob diferentes  perspectivas. </p>
<p>Desde o detalhe da intimidade do lar: “maternidade”, até momentos que antecedem à brutalidade entre os universos masculino e feminino. Os motivos são retirados da realidade social ou da obra literária: Kafka, <strong>C. Brönte</strong>, <strong>Eça de Queirós</strong>. </p>
<p>Quem olha um pequeno quadro intitulado “Inundação”, logo enxerga, por detrás, preso ao detalhe, Picasso. A miséria oriunda da enchente é pormenorizada nos detalhes espalhados pelo pano de fundo da tela, tanto que a barcarola perdida na correnteza, em primeiro plano, pouco expressa diante do mosaico de situações apresentadas, distribuídas na tela. </p>
<p>Do cubismo de Picasso ao surrealismo de Dali, da fiel retratação da vida quotidiana à composição de personagens da literatura universal, a marca da exposição de Paula Rego é o ecletismo: ela é uma artista pós-moderna em essência. As personagens, os traços e os motivos se repetem, se conjugam, se transformam ao percorrer as séries. </p>
<p>As obras encontram-se dispostas em sete ambientes, sendo que num deles há apenas estudos dos quadros apresentados na exposição, bem como coisas menores. A imponência de algumas telas que chegam a medir 180 cm x 180 cm é algo assim meio barroco. Há de leve uma ligeira vontade de se render aquele encanto, de postar-se de joelhos: renda-se você também à metamorfose destas mulheres.</p>
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