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	<title>Argumento.net &#187; DRY MARTINI</title>
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	<description>CADA ARGUMENTO NO SEU GALHO</description>
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		<title>UM SILÊNCIO TÃO DOENTE</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Jul 2009 01:55:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não sabemos mais questionar. Ficou para trás o fundamento, deu-se lugar ao pífio, à apreciação inverificável. Compreender não se resume à análise crítica, porque depende também da alteração que essa pode trazer às nossas vidas. Isso acontece? Por que nos acomodamos nessa manta de indignação efêmera? Por que, então, não raro nem indignados ficamos? O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sabemos mais questionar. Ficou para trás o fundamento, deu-se lugar ao pífio, à apreciação inverificável. Compreender não se resume à análise crítica, porque depende também da alteração que essa pode trazer às nossas vidas. Isso acontece? Por que nos acomodamos nessa manta de indignação efêmera? Por que, então, não raro nem indignados ficamos? O contexto da comunicação absorve, além da nossa capacidade de nos relacionar, a nossa falta de disposição para isso. E há quem diga que somos seres sociáveis. Não existe História sem memória e não existe memória sem interpretação. A pergunta é: sabemos, ao menos, o que interpretar significa? Foi construída a Língua Geral em época de colonização – tentou-se, assim, evitar o embate, a revolta, o questionamento, a diferenciação. Afinal, por que os negros teriam também o direto de opinar? Um absurdo. Dessa época, ficou a herança maldita. Conservaram-se atrasos em nossas mentes, as quais sempre sonharam escondido com o especifismo, mas permaneceram estagnadas, à beira da acomodação. A importância do público transformou em passado o apelo individual, mas – quem diria – ainda pensamos em dominação. E isso é bom? É ruim? É óbvio? Religiões criminosas, corrupções mascaradas, indiferença. Relativizou-se tanto os conceitos de extremos, a ponto de nos emudecermos frente à fotografia do nosso contexto social. Enxergamos a nós mesmos ali, inertes, enxergamos nossos reflexos tão ocos. Ante a televisão, baixamos a guarda para a liquidez da falta de valores, limites, argumentações, e nos sentimos confortáveis &#8211; até o minuto de enxergar a realidade. Nos convencemos de que ainda nos surpreendemos com o “ao redor do mundo”. Sentamos na sala, pegamos o controle remoto e é dado início ao faz de conta. Ponderamos, opinamos, esbravejamos, quando na verdade permanecemos mudos.</p>
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		<title>UM SE VAI; UM FICA</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Jul 2009 14:37:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
				<category><![CDATA[DRY MARTINI]]></category>

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		<description><![CDATA[A tristeza das lembranças que ficaram, mesmo depois que tu se foi, junto com meus clichês incuráveis se encarregam de não me deixar dormir bem à noite. Eu fico me perguntando por que certas coisas acontecem. Teu sorriso que nos mantinha longe da loucura cotidiana, tuas piadas necessárias em momentos inoportunos&#8230; tudo tá numa gaveta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="georgia;">A tristeza das lembranças que ficaram, mesmo depois que tu se foi, junto com meus clichês incuráveis se encarregam de não me deixar dormir bem à noite. Eu fico me perguntando por que certas coisas acontecem. Teu sorriso que nos mantinha longe da loucura cotidiana, tuas piadas necessárias em momentos inoportunos&#8230; tudo tá numa gaveta cinza, e talvez agora preta, com meus pensamentos mais recônditos. Esse acidente, embora só tenha virado parte de mais algumas estatísticas de jornal, mudou minha vida. Te levou pra longe, pra algum lugar que talvez nem exista, onde eu não sei se consigo chegar. O mais engraçado era que a gente realmente se entendia, quando a gente falava mal do mundo, quando a gente petulantemente inventava gêneros musicais, tentando arranjar uma trilha sonora pra nossa vida que fizesse jus aos nossos momentos tantos. Eu sabia que não tinha esperança e aquele corredor branco, com cadeiras velhas e macabras, não deixava eu me esquecer disso. Quando o médico veio e deu os pêsames, foi só a consequência. Eu não chorei, eu não podia chorar, eu não queria. A gente prometeu que ia durar mais, que a gente ia durar muito mais do que um silêncio de vergonha antes do primeiro beijo, do que um copo de cerveja quente em meio às conversas pequenas, e acho que na minha cabeça a gente ainda vai fazer isso valer &#8211; continuo contraditoriamente incrédula, com a minha falta de autoestima e religião. Hoje decidi que não vou deixar passar, que eu não tô pronta ainda pra te deixar passar. Eu ainda quero muito rir contigo na cama e deixar tu contar as pintinhas do meu corpo, eu ainda tenho muito o que aproveitar de nós. Eu acho que te amo.</span></p>
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		<title>NEOLOGISMOS CONSCIENTES</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jul 2009 16:28:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Assim está escrito”, é o que costumo lembrar quando leio os ocultistas. Geniais ou excreções da sociedade? É sempre uma indagação de extremos. Você é certo ou você é errado, você trabalha ou você é vagabundo, você tem relações denominadas ou você é um libertino, você é das massas ou você é das carnes, você [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Assim está escrito”, é o que costumo lembrar quando leio os ocultistas. Geniais ou excreções da sociedade? É sempre uma indagação de extremos. Você é certo ou você é errado, você trabalha ou você é vagabundo, você tem relações denominadas ou você é um libertino, você é das massas ou você é das carnes, você é do tipo praia ou você é do tipo serra. Daí que eu me pego pensando sozinha, desvendando esses tantos mistérios que insinuam que eu tenho e que eu nem sei quais são. Uma espécie de <em>open talk</em>, como hoje gostam de dizer por aí, mas sem receptor. Quer dizer, há um receptor: <em>myself</em>. Ainda não perdi a mania de adivinhar a vida alheia pelos sapatos. Aquela velha no ônibus usando sandálias de plástico transparente e uma meia arrastão. Vejam bem, era apenas uma meia arrastão. A outra era branca, ou rosa, ou <em>light green</em>, ou sei lá, nunca fui muito boa com as cores básicas. O que diabos ela tava querendo me falar com aquilo? Ela parecia mesmo carente e abandonada, bem que eu vi. Me projetei daqui a uns, digamos, doze anos, já com queda de cabelo e fazendo tratamento de varizes. Eu sozinha, quase que maníaca, sem lembrar o que significa civilidade indumentária, entrando num ônibus usando sandálias de plástico transparente e apenas uma meia arrastão. Quanta perspectiva de vida pra uma pessoa só. Desviei o olhar com algum outro ponto de fuga no ônibus. De fato, eu não tava preparada pra dar o meu <em>forgiveness</em> àquela senhora.</p>
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		<title>A MINHA VEZ</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Jul 2009 02:26:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
				<category><![CDATA[DRY MARTINI]]></category>

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		<description><![CDATA[Achei uma cura tão insuportável pros meus dias insanos. Andaram dizendo que eu sou uma pessoa melhor quando tô contigo e eu passei a acreditar, e a tentar ser melhor, mesmo sabendo que isso não tem nada a ver com meu eu sincero. Não mudei, mas mudei. Me peguei nos momentos de distração não mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Achei uma cura tão insuportável pros meus dias insanos. Andaram dizendo que eu sou uma pessoa melhor quando tô contigo e eu passei a acreditar, e a tentar ser melhor, mesmo sabendo que isso não tem nada a ver com meu eu sincero. Não mudei, mas mudei. Me peguei nos momentos de distração não mais cantando sozinha ou falando sozinha, mas, sozinha, lembrando daqueles dias. E isso me deixa nervosa, isso me deixa suando, com raiva. As coisas mais banais, ler, dormir, comprar, falar são agora desculpas pra pensar em nós. É uma inquietação, que às vezes acaba até em arrepios sem propósito, desejos que eu nem sei quais são. Daí, eu vejo o meu redor se relacionar tão bem, eles fazem tudo parecer tão fácil. E não é, não é fácil pra mim, pra gente. Vejo, e vejo, e vejo de novo as fotos, leio os recados, te sinto escrevendo aquelas breguices nas minhas costas. E eu sinto saudades. Depois eu sinto vontade. Eu reluto em dar nome pra coisas que foram criadas para não ter denominação, porque é nisso que eu acredito. E, ironia, até isso tu fez eu querer relevar. Eu falo mal, e falo errado, e bato, e brigo, e acho tudo tão hipócrita, tudo tão sufocante. Não admito que perco a racionalidade pro teu jeito de dizer que me quer na tua vida. Apago a luz. Continuo com aquela mesma antecipação de atos, freneticidade das palavras. Mas agora é a minha vez de decorar meus passos no escuro, cuidando pra que tu não acorde.</p>
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		<title>ME DEIXA CRER QUE ATÉ AQUI NADA MUDOU</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jul 2009 18:53:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu tive a impressão de conhecer uma pessoa há tantos anos. Os ritmos certos, as mesmas ideias inadmissíveis. Somos únicos, nos sentimos assim, sabemos tudo, podemos tudo mais ainda. E, depois, o que eu deveria fazer com isso? Relação, planos, compromisso, promessas que jamais serão cumpridas, deveres sentimentais? Eu começo a acreditar que realmente eu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu tive a impressão de conhecer uma pessoa há tantos anos. Os ritmos certos, as mesmas ideias inadmissíveis. Somos únicos, nos sentimos assim, sabemos tudo, podemos tudo mais ainda. E, depois, o que eu deveria fazer com isso? Relação, planos, compromisso, promessas que jamais serão cumpridas, deveres sentimentais? Eu começo a acreditar que realmente eu sou diferente de tudo? E tudo é tão rápido que, talvez, eu possa dizer que valeu a pena antes mesmo de ter começado. Eu aposto no bom senso alheio? Ou eu vou embora, sumo, tchau? Eu me sinto culpada por alguém depender tanto assim de mim, eu me sinto metade vadia e metade ciente. Mas estar ciente é algo tão vazio. Eu perdi já aquele tesão pelos segundos juntos e mal olho na cara daquele que poderia ser Aquele a quem todo mundo espera. </p>
<p>E eu? </p>
<p>Eu espero passar a excitação ou tento simplesmente aprender a gostar da companhia? Eu tento reatar comigo mesma o que um dia a gente teve, ouço aquela música do acervo brega que me faz querer morrer. Ou eu apenas olho pra trás, nostálgica e hipócrita assim mesmo, e penso na quão absurda perda de tempo foi ter concorda em viver ilusões. E daí eu quero fazer, e faço, qualquer coisa que me torne menos humana, que faça eu perder o sentido. Ou eu tento de qualquer maneira, desesperadamente de qualquer maneira, que o mundo concorde com as minhas ideias. Eu lembro, e lembro, e lembro. Eu lembro das brigas que resultaram em sexo, das brigas que resultaram em lágrimas, das brigas que resultaram em mais brigas, das brigas que não resultaram em absolutamente nada. Eu arranjo outro vício, espelho, álcool, mutilação, dinheiro, só pra me desvencilhar da minha própria mente. E, depois, o que eu deveria fazer com isso? Reler cartas antigas, tentar apagar as lembranças que talvez nem lembranças sejam mais? Eu carrego o que tiver que carregar, sozinha, ou eu me acabo pensando nas tantas madrugadas ouvindo Mingus? E odiando, odiando, odiando, porque tudo o que eu sei fazer é odiar. E talvez eu ainda acorde todo o dia, orgulhosa, pateticamente forte, fingindo que eu sou assim, fingindo que eu consegui esclarecer a vida. Ou talvez eu tente acreditar que, na próxima parada, vai estar lá aquele que poderia ser Aquele a quem todo mundo espera. Eu vou ter a impressão de conhecer essa pessoa há anos. Os ritmos certos, a mesmas ideias inadmissíveis&#8230;</p>
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		<title>DON&#8217;T LET ME BE MISUNDERSTOOD</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Jun 2009 13:55:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
				<category><![CDATA[DRY MARTINI]]></category>

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		<description><![CDATA[A: Desculpa pelo atraso. Esse centro ainda acaba comigo, que calor! Quanta gente! E ainda&#8230; B: Tudo bem? A: Melhor que nunca. Tô tentando achar o cara do isopor pra comprar uma água. B: Comigo também, tudo tranquilo, caso queira saber. A: Eu quero. B: Mudei durante esse tempo, sabe. Como é que chamam mesmo? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A: Desculpa pelo atraso. Esse centro ainda acaba comigo, que calor! Quanta gente! E ainda&#8230;<br />
B: Tudo bem?<br />
A: Melhor que nunca. Tô tentando achar o cara do isopor pra comprar uma água.<br />
B: Comigo também, tudo tranquilo, caso queira saber.<br />
A: Eu quero.<br />
B: Mudei durante esse tempo, sabe. Como é que chamam mesmo?<br />
A: O quê?<br />
B: Quando as pessoas se transformam, crescem&#8230;<br />
A: Amadurecimento?<br />
B: É, isso, eu amadureci. Sabe, eu senti tua falta. Mas eu não te culpo.<br />
A: Eu não me arrependo de nada.<br />
B: Tu não merecia tão pouco de mim. Queria mesmo que tu me desculpasse.<br />
A: Não tenho do que reclamar; afinal quem sumiu, oficialmente, fui eu e não tu. Embora eu acredite que isso fosse acontecer de qualquer jeito.<br />
B: É ridículo querer ser amigo depois de tudo, eu sei. Mas a gente sempre se deu tão bem. Eu gosto muito de ti.<br />
A: Sabe, às vezes eu lembro de umas conversas que a gente tinha&#8230; a gente ria de todo o mundo e falava tão mal de qualquer sentimento. A gente se divertia.<br />
B: Quem diria&#8230; eu, agora, namorando&#8230;<br />
A: E lembra de como tu conheceu ela? Que ironia, meu deus.<br />
B: Tu tá bonita, sabia? Da última vez que te vi tava bem diferente.<br />
A: Ah, na praia?<br />
B: Tava engraçada, toda vermelha.<br />
A: E o teu amigo? Faz tempo que não falo com ele.<br />
B: Tá tranquilo. Tava namorando também, mas já não tá mais.<br />
A: Eu acho engraçado, sabe? Tanta coisa aconteceu nesses últimos tempos&#8230; eu pensava muito em ti as vezes.<br />
B: A gente é diferente, eu continuo acreditando nisso.<br />
A: Cadê o cara do isopor? Tô com sede.<br />
B: A gente é feio. Talvez por isso a gente tenha sido tão feliz.<br />
A: Só queria que tu deixasse de ser tão acomodado com as coisas. Eu pensava que era por causa da idade, mas não. Tu já não tinha mais dezessete anos. Que dirá agora.<br />
B: Eu&#8230;<br />
A: Queria que tu te desse conta dessa merda da tua capacidade, seja pro que socialmente é condenado, e investisse nisso, não só fingisse. Sempre te falei que teu problema era não ir atrás de algo importante pra ti. E eu vi tudo passar, eu vi tu deixar tudo passar. Daí, enchi o saco.<br />
B: Agora tô estudando. Faço até trabalho.<br />
A: Eu senti tua falta&#8230;<br />
B: Lembra aquele teste vocacional que a gente fez na internet? A racional e o artista.<br />
A: Verdade, eu lembro disso. Que patético.<br />
B: E lembra da primeira vez que a gente se beijou? Foi aqui no centro até.<br />
A: Hm, lembro. Que falta de classe da minha parte. Cair naquela tua lábia besta de cutucar meu ombro&#8230;<br />
B: Funcionou.<br />
A: Fato.<br />
B: Sempre gostei de ficar contigo, conversar contigo; até teus trocadilhos infames que às vezes nem tu entendia&#8230;<br />
A: Os teus não eram lá essas coisas também.<br />
B: Que merda.<br />
A: Tem uma coisa, sim.<br />
B: Ãhn?<br />
A: Tem uma coisa que eu me arrependo, sim. Queria ter, sei lá, insistido mais. Eu queria ta lá vendo tu mudar, queria tá lá pra, provavelmente, fazer alguma piada sem graça.<br />
B: E aquela noite que, depois de tudo, a gente ficou a madrugada inteira contando piadas de ponto?<br />
A: Bando de bêbados. Acho que vou desistir do cara do isopor. Que calor. Tu não tá com sede, não?<br />
B: Tô bem.<br />
A: Eu lembro de quando a gente se conheceu. Me mandou à merda logo de cara.<br />
B: Tu respondeu&#8230;<br />
A: Depois ficou reclamando que a caixa do Tolstói tava muito cara na livraria. Eu devo ter pensado “que intelectual do caralho” ou algo parecido.<br />
B: Eu era metido mesmo.<br />
A: Eu ainda sou.<br />
B: Não quero tentar recomeçar essa coisa, seja lá que nome tem. Eu só quero que tu aceite de novo minhas compulsões, minha música fudida, minha completa falta de qualquer porquê.<br />
A: E eu lá alguma vez gostei das explicações?<br />
B: Por que a gente não dá certo junto?<br />
A: Deixa de ser babaca. Sempre te disse, se a gente desse certo não ia ter graça.<br />
B: Tu sabe que não vai mais ter outras pessoas. Elas vão existir, vão ir, voltar, é verdade. Mas o que que elas vão ter com a gente?<br />
A: É o risco que se corre.<br />
B: Isso não te incomoda?<br />
A: Esse calor me incomoda. Cadê o cara do isopor, cacete?<br />
B: Tu não muda mesmo.<br />
A: Eu ainda tenho aquilo tudo escrito, cada palavra, cada ódio, cada discrepância nossa em relação a, quem diria?, nós mesmo. Eu tenho aversão ao teu cheiro na minha pele e eu não aguento mais fingir que não me acostumei.<br />
B: Não sei quem é pior. Mas vai ver um dia a gente vai tá casado, longe no mundão.<br />
A: Ou vai ver a gente se convença que a obviedade das nossas opiniões acabe de vez com alguns sonhos, talvez até loucuras. Tu não entende?<br />
B: Eu entendo até demais. E eu queria não entender, pra de repente conseguir deixar pra lá.<br />
A: Tudo que eu repudio&#8230; Eu não funciono assim. Eu não quero um sim, um não, eu não quero um bom dia feliz, estabilidade. Eu quero tudo aquilo lá. Aquilo que ninguém sabe que existe.<br />
B: Infelizmente eu quero isso também. Eu te amo.<br />
A: Finalmente! Água! Tem troco, moço? Quanto tá?</p>
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		<title>NEM PAZ, SÓ ESPINHOS E DESAMOR</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 14:51:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
				<category><![CDATA[DRY MARTINI]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela saiu de casa, jurando que até às seis estava de volta. Levou consigo a bolsa de couro, a roupa do corpo, o cigarro na boca, o tênis de lona. Cruzou a primeira esquina e já se sentia sozinha. A outra, nem tão agoniada, mas nem por isso menos sensível, saía de casa passiva a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela saiu de casa, jurando que até às seis estava de volta. Levou consigo a bolsa de couro, a roupa do corpo, o cigarro na boca, o tênis de lona. Cruzou a primeira esquina e já se sentia sozinha. A outra, nem tão agoniada, mas nem por isso menos sensível, saía de casa passiva a si mesma, estranha aos demais, sem nada a contemplar. Odiava a vida, as almas perdidas, os fins de tarde e o amor. Um reflexo de tempo, não explicado pela física, nem por ciência divina, podia ter mudado tudo, podia ter dado voz ao mudo, trazido paz ao resto. Estava só, realmente, mas não podia constatar ao certo. Aos seus dias fatigados ignorava, aos sonhos debelados enganava, às lembranças remotas fugia, aos pensamentos desvanecidos escondia-se &#8211; nada era tão insensato assim. E corria ligeira, com a sombra pequena e, à santa ingênua, queria lograr. Mas viu a primeira, tão linda e tão clara, parecia uma rosa e se apaixonou. </p>
<p>Ah, aquela esquina, tão curta e tão fina, que definiu essa atração. Porém, não queria, não. Podia errar, a outra ferir, fazer Satã sorrir ou simplesmente chorar. Voltado ao reflexo, ainda um mistério, não criaram critério, mas levaram ao fim. Foram só seis segundos que, embora escassos, passaram e nem as estrelas pararam, mas o vento bradou. Beijaram-se forte, como se tudo fosse acabar. A outra, nem tão agoniada, mas nem por isso menos sensível, saía de casa passiva a si mesma, estranha aos demais, sem nada a contemplar. Sentiu um calafrio, um intrincado vazio, perdeu o pavio, queria gritar. Nada havia acontecido, porque aquela, com a bolsa de couro, a roupa do corpo, o cigarro na boca e o tênis de lona, havia cruzado a esquina. E o resto foi pura falsídia, uma ilusão.</p>
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		<title>É TUDO QUE TENHO A DIZER</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Jun 2009 11:07:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
				<category><![CDATA[DRY MARTINI]]></category>

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		<description><![CDATA[Já nem sei qual é, talvez, o meu tamanho. Um pé depois do outro, quando não perco o ritmo pra derrotas incessantes. Carências de filosofia, uma realidade de tédio. Hoje, ontem, depois fervem na cabeça. E isso ecoa. Tento viver num círculo doentio, uma ciência pervertida criada prum bando de loucos. Sejam ricos, populares, fantoches, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já nem sei qual é, talvez, o meu tamanho. Um pé depois do outro, quando não perco o ritmo pra derrotas incessantes. Carências de filosofia, uma realidade de tédio. Hoje, ontem, depois fervem na cabeça. E isso ecoa. Tento viver num círculo doentio, uma ciência pervertida criada prum bando de loucos. Sejam ricos, populares, fantoches, minorias. Grupos cujas manias superam toda a falta de bom senso. De qualquer senso. São raivas contidas, locuções em alto tom nos passos calculados e nas confissões ao fim da festa. De onde vêm tantos ruídos? Dispersamos todas as velhas motivações, que hoje não nada além de vergonha. A gente tenta, e tenta, e tenta. A gente bem que tenta nos despreocupar com o adiante, mas pelo quê, então, planejaríamos o futuro?  Sorrio amarelo pras verdades ditas entre dentes, antes mentiras bem faladas. Só que, pensando melhor, também as mentiras andam, assim, tão líquidas. O que se afirma ante essa sobriedade hedonista? Eu quero unha na carne, bala fria no coração, dor sincera. Eu quero a dor sincera da não rendição. E essa dor&#8230; ah, essa é uma dor tão boa&#8230;</p>
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		<title>PROS CANSADOS E PROS SUJOS DE TRISTEZAS</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Jun 2009 16:50:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
				<category><![CDATA[DRY MARTINI]]></category>

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		<description><![CDATA[(3:47 A.M.) Nada se sabe dos que renunciaram de forma prosaica, dos que foram dispostos adicionalmente, daí, sim, numa forma tão indisposta quanto. Dentro de uma caixa com defeituosos, qual de nós que se destaca? (4:13 A.M.) Eles têm tentado se desfazer daqueles problemas tantos, que por tantas vezes interrompem suas reflexões. Mas se disseram [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="justify;">(3:47 A.M.)<br />
Nada se sabe dos que renunciaram de forma prosaica, dos que foram dispostos adicionalmente, daí, sim, numa forma tão indisposta quanto. Dentro de uma caixa com defeituosos, qual de nós que se destaca?</div>
<p>(4:13 A.M.)<br />
Eles têm tentado se desfazer daqueles problemas tantos, que por tantas vezes interrompem suas reflexões. Mas se disseram que por cada palavra a gente morre mais, o que de fato nos mantém aqui? Uma grande estagnação de sentidos tem tomado conta de cada retina, de cada rotina vazia. Ouçam o velho Farka Touré, minha gente: há apenas cidades e espaços nos separando, mas a nossa alma e o nosso espírito são os mesmos.</p>
<p>(4:39 A.M.)<br />
Corrigindo. E, depois disso, silêncio. Vácuo sonoro que vem daqueles que, a princípio ou sem princípio, teriam algo a dizer &#8211; combinado com os incessantes barulhos de outros, que, com certeza, mal sabem o que dizem. A situação é de caos, uma coisa da qual emerge toda a falta de consciência. O que fazer quando o significado da desordem faz muito mais sentido do que o da própria ordem?</p>
<p>(5:01 A.M.)<br />
Tão da vida quanto Lexington Steele. Confesso, no entanto, que estaria mais confortável se Aurora Snow e Mr. Marcus estivessem presentes. O que eu não faria por uma noite em cima daquelas mesas do Boom Boom Room ao som de Boogie Chillen?</p>
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		<title>O OLHO QUE RESPONDE</title>
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		<pubDate>Wed, 27 May 2009 16:34:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mariana Melleu</dc:creator>
				<category><![CDATA[DRY MARTINI]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[estética]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Marc Jimenez]]></category>
		<category><![CDATA[Walter Benjamin]]></category>

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		<description><![CDATA[Marc Jimenez já nos expunha, em seu clássico “O que é estética?”, que “[...] dificilmente podemos admitir que o prazer seja uma espécie de dado em estado puro na obra de arte. [...]” (JIMENEZ; MARC, 1999, p. 385.) Afinal, no que se resume o fazer artístico, caso possa ser resumido, quando não agregamos a ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="justify;"><strong>Marc Jimenez </strong>já nos expunha, em seu clássico “O que é estética?”, que “[...] dificilmente podemos admitir que o prazer seja uma espécie de dado em estado puro na obra de arte. [...]” (JIMENEZ; MARC, 1999, p. 385.) Afinal, no que se resume o fazer artístico, caso possa ser resumido, quando não agregamos a ele um valor pessoal? </p>
<p>É auto-explicativo que nossa vivência influencia a perspectiva da obra de arte, ao passo em que retomamos o visual para, justamente, transformar o nosso dia-a-dia. Como cidadãos, nos tornamos os vilões e, ao mesmo tempo, os reféns das tão inconclusivas Belas Artes – somos um dos elementos mais essenciais quando se trata da base teórica, dos conceitos e das definições técnicas, embora venhamos a ser completamente desarmados em se tratando dos momentos de apreciação.</p>
<p>Há tempos deixou-se de lado o vazio interpretativo acerca das manifestações artísticas, mesmo com o advento das novas tecnologias – as quais, segundo alguns defendem, inclusive auxiliaram na difusão das mesmas. Cansou-se das vidas cinematográficas, das realidades inatingíveis, do show do paraíso. Também devido a isso, por exemplo, diz-se que “[...] o que caracteriza o filme é não só a forma como o homem se apresenta perante o equipamento de registro, mas também a forma como, com a ajuda daquele, reproduz o seu meio ambiente. [...]” (BENJAMIM; WALTER, 1955, p. 15.)</p>
<p>As nossas lacunas existenciais, as nossas aflições – e por que não? – físicas, assim como o prazer dos sentidos e a nossa própria alegria são, constantemente, a temática do pitoresco, daquilo que é considerado arte. Devido a isso, estabelecem-se os paradoxos da sociedade contemporânea. Transpassam-se os valores individuais do homem para a obra de arte e, por isso, perde-se um pouco da idéia de utilidade e de razão funcional para a sua existência – isto é, a arte pela arte. Simultaneamente a isso, no entanto, os tempos modernos ditam os novos ideais de vida, nos quais há espaço apenas para o proveitoso, para o instantâneo e para o veloz – e sobressai-se, aí, a arte aplicada. É sob essa ótica conceitual das contraposições artísticas que, em seu “Argumentação sobre a morte da arte”, <strong>Ferreira Gullar </strong>pondera: “[...] o urinol, que Duchamp enviou a uma exposição de arte, torna-se o símbolo da estética atual: não há diferença qualitativa entre um desenho de Klimt e um borrão de tinta, entre uma escultura de Brancusi e um caco de telha, uma obra de Rodin e um urinol. Só que ninguém preferiria colocar em sua sala, em lugar de uma obra de Rodin, um urinol comprado na loja da esquina. [...]” (GULLAR; FERREIRA, 1993, p. 54.) Isto é, o homem moderno procura desvencilhar-se da asfixia estética, mas, para isso, também abre mão de seu objetivismo. É, enfim, a inadimplência aquilo que ele realmente procura na arte – a beleza da suas próprias contradições tornando-se visuais.</div>
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