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	<title>Argumento.net &#187; SCRIBOMANIA</title>
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	<description>CADA ARGUMENTO NO SEU GALHO</description>
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		<title>TEMPORADA DE VERANEIO</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 23:25:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
				<category><![CDATA[SCRIBOMANIA]]></category>

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		<description><![CDATA[A leitura de “era uma vez um verão”, na Zero, de domingo passado, levou-me para o chalé de madeira com um avarandado ao redor, onde seis crianças brincavam até tarde da noite, enquanto os pais jogavam “buraco” e a vó guardava as roupas lavadas e secas no arame dos fundos da casa. Entre eles, lá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A leitura de “era uma vez um verão”, na Zero, de domingo passado, levou-me para o chalé de madeira com um avarandado ao redor, onde seis crianças brincavam até tarde da noite, enquanto os pais jogavam “buraco” e a vó guardava as roupas lavadas e secas no arame dos fundos da casa. Entre eles, lá estava eu ainda menina.</p>
<p>Vínhamos de trem de Alegrete para passar as férias, no litoral gaúcho, com os primos da capital, que só encontrávamos no verão. A casa alugada pela família tinha o controle e a supervisão da Vó Maria, que reunia filhos, noras, genros e netos para a temporada de veraneio.</p>
<p>Os dias eram radiantes e as noites, mesmo com pouca iluminação nas ruas, eram pura tranquilidade e segurança. Dormíamos com as portas abertas para “encanar” o vento que soprava do mar e passeava nos quartos por cima de nós com cheiro de maresia. Lá pela madrugada, algum adulto levantava para fechar a porta que segurava o vento lá fora até o amanhecer.</p>
<p>Cedinho, a ida para a praia transformava-se numa investida coletiva. As meninas eram encarregadas de contar as toalhas e os roupões felpudos, que nos aquecia na saída da água e impedia resfriados; os meninos ajudavam os homens com os guarda-sois e as cestas repletas de merendas preparadas pela vó Maria e a babá de uma prima menor que nem sempre nos acompanhava. Nossas mães pouca coisa carregavam no meio de tantos ajudantes. Vinham conversando, despreocupadas com aquele ar de mulher feita – donas do mundo –, todas juntas, amarrando nossa excursão. Os pais, vez ou outra conferiam se ninguém havia ficado pelo caminho e, se tudo em ordem, lá ia nossa caravana barulhenta, diariamente, rumo às areias soltinhas e ao mar.</p>
<p>As manhãs transcorriam sem tempo em meio às brincadeiras. Corrida até a beira para ver quem ganhava, dando luz aos menores; castelos enfeitados com a areia molhada pela água que surgia do buraco escavado pelo meu pai. Ele era mais alto que os tios e, portanto, tinha o braço maior, aquele que faria o poço mais fundo em busca da água. Quando o braço voltava trazia escorrendo entre os dedos a areia fininha pingando que contornava, feito renda, as torres do meu castelo. Os guris, ou jogavam bola entre eles, ou se enterravam até o pescoço para depois em desabalada carreira jogarem-se às ondas. Logo atrás deles nossos gritos – cuidado, cuidado hoje tem mãe d’água – ao que um ou outro estancava medroso de queimaduras, enquanto nos ríamos do desconfiado da vez. </p>
<p>Tio Luís encontrou um retratista de Porto Alegre. Andava fazendo dinheiro na orla – dizia ele –, e o contratou para fotografar a família toda. Entre tantas, uma foto especial, só das crianças. Como um trenzinho, um atrás do outro de maior a menor lá estávamos nós. Ainda tenho a foto e me surpreendo quando lembro a data – final dos anos cinquenta&#8230; Parece que foi ontem.</p>
<p>Quando tio Gringo pescava tínhamos fritado de peixe-rei e vovó descansava da cozinha. Sentada conosco na sombra da varanda contava da família que veio do norte da Itália. De todas as histórias a que mais nos agradava ouvir era a do irmão mais velho que fugiu de trem com uma mocinha de Taquara para Santa Maria, mesmo estando noivo de outra. Entre o escândalo da época e o amor do irmão e da cunhada, vovó mal escondia um sorriso brejeiro no canto da boca.<br />
– Meio dia em casa, pedia sempre. Antes do almoço tínhamos um ritual que nunca foi desrespeitado: banho frio no chuveiro do pátio, para não sujar a casa e, depois, em fila, pela cozinha aguardava-nos um pequeno cálice de vinho do Porto com uma gema crua dentro. – Não pensa, não pensa, engole rápido – repetia vovó. Mas sempre tinha um de nós que, vez ou outra resolvia pensar&#8230; era horrível, mas todos cresceram sem traumas, fortes e sadios como ela prometeu. Não sei se pela gema crua com o vinho do Porto, ou se pela infância feliz dos verões em família.</p>
<p>Ao fechar o jornal daquele domingo me perdi da menina do era uma vez e virei a avó à espera dos netos em minha própria casa de veraneio – que pena que hoje o tempo tem pressa e os ventos que rondam nossas temporadas são outros.</p>
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		<title>SE A GENTE É CAPAZ&#8230;</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Dec 2011 15:23:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
				<category><![CDATA[SCRIBOMANIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Encontrei uma caixinha com o meu nome, perto da Árvore de Natal, e nela estava escrito: “só abrir dia 22”. Dia 22? – pensei –, por que 22 e não no Dia de Natal, quando sempre abrimos os presentes? Dois dias antes do Natal&#8230; Estranho, muito estranho. Estava ainda a uma semana da data estabelecida. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> Encontrei uma caixinha com o meu nome, perto da Árvore de Natal, e nela estava escrito: “só abrir dia 22”. Dia 22? – pensei –, por que 22 e não no Dia de Natal, quando sempre abrimos os presentes? Dois dias antes do Natal&#8230; Estranho, muito estranho. Estava ainda a uma semana da data estabelecida. De quem teria sido essa ideia? </p>
<p>Daí por diante, toda vez que por ali passava, sacudia a pequena caixa ligeiramente, mas sem muito impulso, pois desconhecia seu interior. Dentro, algo solto batia contra as laterais a cada vez que eu a balançava entre os dedos. Tentava identificar o conteúdo pelo barulho produzido nas sacudidelas que dava sem êxito. Havia um desafio de espera e eu era o alvo do teste.</p>
<p>Na maioria das casas, a árvore é colocada em um lugar estratégico, para lembrar a importância da data e seu principal protagonista. E ali estava com alguns presentes, o Presépio de cristal, a imagem do Menino e minha pequena caixa: – “só abrir&#8230;” Seria uma pegadinha? Vou ignorá-la, pensei. Ou, quem sabe, abro ligeirinho, depois que todos estiverem dormindo, total, é para mim mesma, qual o problema se eu der uma espiadinha? Deixo como estava e finjo surpresa no dia, para não magoar ninguém. Será? E se eu não gostar do quem tem dentro, vai ficar pior, terei que fingir. Isso não vai dar certo. Já não basta o corre-corre estressante do final de ano e agora essa caixinha, estacionada na minha bancada em plena sala, no lugar de honra do Natal. Uma caixinha sem procedência, anônima, que nem sei de onde veio.</p>
<p>Mesmo assim, resisti à tentação e abri só no dia marcado. Encontrei uma pequena imagem, uma oração e algumas orientações. Deveria fazer o mesmo. Passar adiante para três pessoas escolhidas com cuidado, cujo perfil iria garantir a continuidade do passa-repassa para mais três e essas para outras três e mais outra&#8230; e assim por diante, Fiquei imaginando se todo mundo fizesse direitinho, a caixinha talvez desse a volta ao mundo.</p>
<p>No final da oração, depois do louvor e dos agradecimentos necessários, adequados ao período do ano, uma recomendação – Fé, muita fé ao fazer os pedidos, já que dois estariam classificados na categoria dos difíceis e o terceiro seria um pedido impossível. </p>
<p>Não vou descrever minha reação, até porque fiz os pedidos, inclusive o impossível, afinal é Natal – um bom tempo para MILAGRES, se a gente é capaz&#8230; de acreditar.</p>
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		<title>FEIRA DO LIVRO NO INTERIOR</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Oct 2011 02:30:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
				<category><![CDATA[SCRIBOMANIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Pezinhos apressados, de mãos dadas dois a dois, em fila, transitavam do outro lado do balcão improvisado. Olhos, olhos e olhinhos curiosos, arregalados, brilhantes; dedos, dedos e dedinhos ligeiros, suaves, sensíveis num passa-passa frenético sobre os livros coloridos e repletos de apelos à imaginação. Ali estavam eles – os livros infantis e as crianças – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pezinhos apressados, de mãos dadas dois a dois, em fila, transitavam do outro lado do balcão improvisado. Olhos, olhos e olhinhos curiosos, arregalados, brilhantes; dedos, dedos e dedinhos ligeiros, suaves, sensíveis num passa-passa frenético sobre os livros coloridos e repletos de apelos à imaginação. Ali estavam eles – os livros infantis e as crianças – diluídos num mundo fantástico no qual me inseria como auxiliar de livreira pela primeira vez.</p>
<p>Castelos em 3D, vozes de animais, músicas, navios e piratas, assombrações, princesas e fadinhas preenchiam as prateleiras e a curiosidade dos passantes. Nos três dias da Feira, mergulhei na “Fantasia do Doutor Bolor”, descobri os segredos do “Diário de um Banana”, encontrei o “Nosso Amigo Ventinho”, que me empurrou até “A Escola de Monstros da Madame No”. Entretanto, queria mesmo era descobrir “Como Ser Uma Princesa”. Entre um atendimento e outro, eu dava meia volta volver no tempo, e retornava àquele lugarzinho encantada da minha infância – no Alegrete.</p>
<p>As escolas agendadas visitaram a Feira e, os pequenos tinham, além dos livros (que nem todos conseguiam comprar), hora do conto, brincadeiras no palco central, teatro de bonecos, cantorias e a presença de um palhaço que passeava feliz com uma menina-boneca-bailarina. No dia seguinte, lá estava ele disfarçado de Dom Quixote acompanhando a Emília do Sítio, que fugia da Cuca.</p>
<p>Tudo conspirava para atiçar o desejo de adquirir os livros, mas as crianças da escola pública, não compraram. Só o picolé da carrocinha, que instalada na saída da grande tenda, fez preço especial para o evento tão concorrido. E, lá iam eles de volta, dois a dois de mãos vazias, em fila.</p>
<p>Uma professora reuniu seus alunos em frente ao nosso stand e solicitou um dos livros que lhe chamou a atenção. Virou o livro para eles na altura do peito, folhou vagarosamente, fez comentários e mostrou as figuras coloridas e os efeitos especiais que o livro possuía. Aquele brilho que vemos nos olhos das crianças e, algumas vezes nos dos adultos, estava ali, intenso, único, presente naquele pequeno grupo e em sua professora. Quando terminou, fechou o livro e o entregou de volta. O silêncio instalou-se entre nós duas. Sem muito pensar, me vi perguntando: – E agora? – Algumas crianças olharam-me sem compreender o porquê da pergunta, estavam acostumadas às impossibilidades da própria vida; dois ou três levantaram os ombrinhos em sinal de impotência e um deles, olhos escuros, indagativos encarou a professora que assumindo seu difícil lugar respondeu: – o livro não vai, mas os personagens podem ir conosco, nas lembranças, no coração. Reaparecerão nos nossos desenhos e até, quem sabe, irão visitar nossos sonhos&#8230; Eles podem ir, não é senhora? – insistia a professora – ao que respondi muito sem graça: – Claro, claro! – me sentindo péssima. O patrono da Feira, <strong>Juremir Machado</strong>, no seu discurso de abertura, tinha razão: <em>“deveríamos poder vender os livros a menos de dez reais, os bons livros deveriam ser para todos</em>”, mas parece que entre o desejo e a realidade instalam-se outros personagens que mantêm essa distância sofrida entre o livro e a maioria das crianças.</p>
<p>Mas, nem tudo foi tão nostálgico. O balcão da Feira oportunizou-me algumas situações especiais. Fiz uma nova amiga para o Facebook, uma jovem leitora, que iniciou conversações sobre os livros que gosta de ler, emitindo opiniões fantásticas sobre suas expectativas para a vida adulta. Encontrei um menino de cinco anos que permaneceu comigo no stand da Livraria Carochinha, enquanto os pais assistiam à palestra show de Nei Lisboa.  Sabia tudo sobre dinossauros e, nessa noite, ele foi o meu palestrante e eu sua plateia.</p>
<p>Um temporal anunciado substituiu, no último dia, o burburinho alegre da Feira. E, ela foi cancelada. Lamentei, pois aguardava ansiosa a sessão de autógrafos de uma nova escritora e amiga – Margarete Hülsendeger – que vinha de Porto Alegre para a Feira do Livro no interior, com o “E Todavia se Move”, título e conteúdo interessantíssimos. Às pressas, recolhemos livros, prateleiras, toalhas, embalagens coloridas e carregamos o carro. De volta a Uruguaiana, a Livraria Carochinha – especializada em Literatura Infantil – e a sua nova aprendiz.</p>
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		<title>O SUSTO</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 03:16:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quase novembro, e a manhã com preguiça de começar. Ainda sente a dormência no corpo e os olhos remelentos que, transbordando sono, negam-se a acordar. Sentado, aguarda. Não tem muito que fazer, não consegue. O rádio mal sintonizado do outro lado da bancada repete um som muitas vezes incompreensível para ele. Os pés balançam pendurados, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quase novembro, e a manhã com preguiça de começar. Ainda sente a dormência no corpo e os olhos remelentos que, transbordando sono, negam-se a acordar. Sentado, aguarda. Não tem muito que fazer, não consegue. O rádio mal sintonizado do outro lado da bancada repete um som muitas vezes incompreensível para ele. Os pés balançam pendurados, indolentes, e os mexe só para ver a sombra que reflete na lateral do armário da cozinha. Como se caminhasse – a sombra. Mesmo assim, inapetente de curiosidade, vê o gotejar cadenciado de um pingo e outro. E, ali, deixa ficar os olhos semi-abertos por um tempo, até que a luz do sol bate na pia e o reflexo colorido que ultrapassa a água o incomoda. Desvia-os. Uma lombeira toma conta, dobra os braços sobre a pequena mesa que o ampara e deita a cabeça vazia de ideias, só igualada ao vazio do estômago da hora. Aguarda sozinho, imerso no silêncio e no torpor morno que o domina. É quando as vê. Formigas em fila contra a parede rente ao chão num ir e vir compassado. Hipnotizado, acompanha trajetórias, enquanto uma mosca estonteada pelo cheiro úmido do suor zumbe e voa ao seu redor.</p>
<p>Apressada tropeçou, e na busca do equilíbrio, jogou o corpo e os braços para frente. O açucareiro de porcelana, que há anos estava na família, chocou-se contra a parede. Rachou com um estrondo. No mesmo instante, começou a chover cacos. O som seco do baque e o grito dela ocuparam seus ouvidos. Como um temporal de verão, cristais de vidro e açúcar tamborilaram no chão, pontilhando o assoalho com um rastro branco e doce. Imediatamente, um véu negro, desenrolado ao vento, invadiu os fragmentos junto à parede. As formigas perderam a fila e o rumo na mesma sintonia do choro forte que invade a cozinha. Ele leva as mãos ao rosto movido pelo susto, suspenso no ar, e continua a chorar, afinal, é apenas uma criança à espera da mãe para o mingau da manhã.</p>
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		<title>LAVANDO A ALMA</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Aug 2011 01:26:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Chove a cântaros. Procuro pequenas ilhas na calçada para evitar as poças e, então me dou conta. Que importância pode ter a irregularidade das calçadas da Osvaldo, se os tons em cinza que abraçam as palmeiras imperiais estão cada vez mais bucólicos nessas tardes de inverno? Olho mais longe. Uma nesga de luz desenha uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chove a cântaros. Procuro pequenas ilhas na calçada para evitar as poças e, então me dou conta. Que importância pode ter a irregularidade das calçadas da Osvaldo, se os tons em cinza que abraçam as palmeiras imperiais estão cada vez mais bucólicos nessas tardes de inverno? Olho mais longe. Uma nesga de luz desenha uma cortina de névoa esbranquiçada que disfarça o final da avenida e o tom mais escuro da entrada do túnel. Que me importa a onda d’água, que na diagonal levanta dos carros e vem em minha direção? Desfruto de uma tarde de inverno. Com entusiasmo, num jogo de corpo que aceita e se prepara para a dança, desvio dos pequenos tsunamis urbanos nas beiradas das calçadas. O som da rua é intenso e nas esquinas o vento assobia fininho, fingindo ser um violino – penso que toca para mim. Diminuo o passo e apuro os sentidos.</p>
<p>Chove a cântaros e eu caminho devagar, bem devagar, absorvendo os movimentos da rua que por tantos anos foi cenário e minha morada. Do outro lado, no parque, dois homens empurram sem pressa um velho e enferrujado carrinho com os seus parcos pertences. Ignoram a chuva e dividem, entre goles, a vida e o trago. O cão que os acompanha, encolhido, procura abrigo e, como não acha, roda às tontas por entre as pernas do dono. Os vendedores das lojas, protegidos, observam o vai e vem das sombrinhas que matizam o preto e branco da tarde.</p>
<p>O trânsito carrega uma humanidade agitada. O velho da cadeira de rodas – com ponto fixo na mendicância do bairro – espera ensopado. Ali, embaixo de uma marquise, espera pelo menino que o leva à tardinha para casa. Está atrasado o guri. Meus dedos encostam a palma da mão fria quando lhe entrego uns trocados.</p>
<p>– Deus lhe dê muito mais, dona – repete baixinho.</p>
<p>– Já deu! – respondo, olhando-o pela primeira vez nos olhos.</p>
<p>Um latido distrai minha atenção e, na vitrine da veterinária, dois cachorrinhos brincam felizes. Ninguém tem tempo para olhar.</p>
<p>Não desvio dos pingos mais grossos que vazam das velhas sacadas, quero ouvir a água mais forte, tamborilando no meu guarda-chuva. Num contraponto quase que imperceptível, parece que ouço o percutir cadenciado de um grupo de capoeira. Sinto todos os sons e os cheiros da Redenção – ao sol, nas manhãs de domingo.</p>
<p>Distraída, com o que vejo e sinto passeio na chuva. Piso forte no chão para estar de volta, e para ver a água saltar e invadir meus sapatos. Que me importa que chova a cântaros, antes de partir quero encharcar-me de minhas lembranças. Bom Fim.</p>
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		<title>NOITES DIFÍCEIS</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jun 2011 17:31:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
				<category><![CDATA[SCRIBOMANIA]]></category>

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		<description><![CDATA[“Que será da luz difusa do abajur lilás Se nunca mais vier a iluminar&#8230;” Música de Mario Rossi – Que será?  Quieta, mas em estado de alerta, ouve os ruídos. Ao longo da noite, quando o silêncio se instala por completo, reconhece todos os barulhos da rua e por eles, as horas que se movem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>“Que será da luz difusa do abajur lilás </strong></p>
<p><strong>Se nunca mais vier a iluminar&#8230;”</strong></p>
<p><strong>Música de Mario Rossi – Que será?</strong></p>
<p> Quieta, mas em estado de alerta, ouve os ruídos. Ao longo da noite, quando o silêncio se instala por completo, reconhece todos os barulhos da rua e por eles, as horas que se movem inexoráveis para o dia seguinte. Mantém o abajur ligado e a penumbra nos olhos.</p>
<p>Levanta.</p>
<p>Os chinelos desenham na sola dos pés as imperfeições sutis do caminho e, na luz difusa, a sombra desliza nas paredes contraídas pela ausência. Prisioneira, dá voltas à própria lucidez. O uniforme descansa sobre a poltrona e na agenda entreaberta, sobre a mesa auxiliar, a planilha dos voos do mês. Revisa os horários na busca da casualidade do encontro. Relê os emails na esperança de encontrá-lo na caixa de entrada. Nada. Ele já não perde mais o sono por ela. No amargo da falta, o sabor do descaso. Definha.</p>
<p>Improvável nenhuma conexão. O caos aéreo dos últimos dias, não poderia&#8230; Tanto assim, não. Revisa outra vez a rota de todos os voos no seu turno. No tempo da espera, parece que sabe. Preserva-se e não o procura mais. Dói. Sente que os dias dissolvem-se atarefados, e a mente imóvel na rotina mantém uma falsa ordem, mas as noites permanecem. Insones. Difíceis</p>
<p>No horário de trabalho, atravessa o hall do aeroporto em direção ao guichê de passageiros. Ao redor dos olhos, o tom cinza esfumaça o rosto.  Caminha absorta olhando os ladrilhos que desenham o chão e, ao passar pelo embarque, encontra-o. Com outra.</p>
<p>O braço sobre ombros alheios, os dedos longos, distraídos, quase a tocar o seio com o mesmo cuidado com que tocava os seus, a intimidade maliciosa no olhar a excita, ao mesmo tempo em que uma névoa turva-lhe a visão. Finge não ver, mas quando passa por eles, um suor frio já goteja na testa, escorre no rosto corado e encontra a boca entreaberta, seca.</p>
<p>Move-se em direção ao espaço que lhe cabe naquele terminal e só ao ultrapassar o balcão é que o vê novamente. Desequilibra-se como na primeira vez – apressados, insanos – no pequeno apartamento dela. Ele dissimula, como se não lembrasse, desvia o olhar e passa por ela. Desaparecem os dois entre tantos.</p>
<p>Em vigília, é apenas ela. Puxa outra vez a coberta e se enrola, e se enrosca, e se encolhe sobre o vazio, murmurando que o quer de volta, que chegue logo e como sempre não lhe deixe escolha. No deslocar das horas, não ouve mais a chave girando na porta. Acende o abajur, e sob um fiapo de luz lilás aguarda sem questionar. Espera. Amanhã inventará novos dias para outras noites. Difíceis.</p>
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		<title>PÉGASO</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 02:50:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
				<category><![CDATA[SCRIBOMANIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Da inspiração vazia se alimenta Mesmo que busque o melhor refúgio Nas dobras sombrias da memória. Sem saber por que, Na escuridão das linhas, Tateia ansiosa em busca da leveza. Mergulhada no humano, condenada ao peso, Debate-se infeliz, perdeu o vôo, Dissolveu-se&#8230; O sonho.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Da inspiração vazia se alimenta<br />
Mesmo que busque o melhor refúgio<br />
Nas dobras sombrias da memória.</p>
<p>Sem saber por que,<br />
Na escuridão das linhas,<br />
Tateia ansiosa em busca da leveza.</p>
<p>Mergulhada no humano, condenada ao peso,<br />
Debate-se infeliz, perdeu o vôo,<br />
Dissolveu-se&#8230;<br />
O sonho.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>CASAQUINHO DE LANTEJOULAS</title>
		<link>http://www.argumento.net/colunas/scribomania/casaquinho-de-lantejoulas/</link>
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		<pubDate>Tue, 03 May 2011 23:42:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
				<category><![CDATA[SCRIBOMANIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Viajou na boleia do caminhão por gentileza de um vizinho, depois de trem por dois dias inteiros. Levava uma pequena sacola com alguns pertences, pouco dinheiro e um pacote bem amarrado por uma corda grossa e áspera que lhe ardia nos dedos. Não pregou o olho durante toda a viagem, sabia bem o que perdera [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Viajou na boleia do caminhão por gentileza de um vizinho, depois de trem por dois dias inteiros. Levava uma pequena sacola com alguns pertences, pouco dinheiro e um pacote bem amarrado por uma corda grossa e áspera que lhe ardia nos dedos. Não pregou o olho durante toda a viagem, sabia bem o que perdera além do sono.</p>
<p> Ao descer do trem, emaranhou-se na multidão e o sentimento de abandono foi tão intenso que ficou paralisada no meio da plataforma. Não largou a sacola, nem o pacote que segurava firme contra o peito. Nele, o casaco bordado pela avó. Os passantes esbarravam, esfregavam-se nela e, como quem segue o fluxo, esquivando-se dos encontrões, foi empurrada para a rua.</p>
<p> Anoitecia.</p>
<p>Vivia outro momento, eram dias de mau tempo. A enxurrada levou os pais, a casa, alguns amigos e a plantação que lhes dava o sustento. O sítio e o corpo da avó desapareceram na lama. Alicia salvou-se por conta de uma mentira aos pais. Não foi estudar, estava na cama com Jano a algumas quadras dali. Abraçados, ouviam o som da chuva e do vento enquanto desfrutavam avidamente da própria nudez. O brilho dos raios, como mau presságio, multiplicava imagens retorcidas dos jovens amantes, nas lantejoulas do casaquinho esquecido ao lado da cama. O barulho ensurdecedor da cidade e o movimento acelerado do trânsito impediam qualquer raciocínio; entretanto, Alicia sabia que precisava retirar do bolso o pedaço de papel com o endereço da casa de Dona Algisa – seu novo destino.</p>
<p>Não se lembrava dela com clareza, era apenas uma menina e pouca atenção deu àquela senhora – dona de uma pensão na cidade grande – que de passagem visitou a família num verão longínquo. Órfã, pobre e culpada, Alicia deu as costas à tragédia. Pegou carona no caminhão e aceitou a oferta de trabalho de dona Algisa, a mulher que mal conhecia. Teve casa, comida e algum dinheiro. Em troca, obedecia às regras da pensão – tratar muito bem dos seus clientes em quaisquer que fossem as suas necessidades.</p>
<p>A pouca luz no quarto e o estado de embriaguez do novo hóspede a protegiam. Era ele, teve certeza. Antes que notasse sua verdadeira expressão, ela desviava o olhar, não queria ser reconhecida depois de tantos anos. Jano iria preferir que ela tivesse se perdido na lama do sítio como a avó.</p>
<p> Sentou-se na cama, arrastou as pernas para a borda e de mansinho levantou. Vestiu a roupa devagar para não despertá-lo e com os olhos baixos, foi em direção à porta. No caminho, passou a mão no espaldar da cadeira, retirando dali o surrado casaquinho bordado. No movimento tensionado, uma réstia de luz fez reflexo nas lantejoulas. Ele virou-se na cama e a olhou com mais atenção.</p>
<p> Ao ultrapassar a porta do quarto ouviu, num tom de espanto e surpresa, o que não queria ouvir:</p>
<p> – Alicia?</p>
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		<title>QUARENTENA</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Apr 2011 14:31:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
				<category><![CDATA[SCRIBOMANIA]]></category>
		<category><![CDATA[Martha Medeiros]]></category>

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		<description><![CDATA[Em uma das minhas viagens, li Martha Medeiros – Tudo que eu queria te dizer. Li para ter companhia e desviar o medo que me assola durante as viagens internacionais sobre o Oceano. Tempos depois, após uma cirurgia, fiz uma viagem em que o oceano era outro – meu próprio interior – com zonas desconhecidas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em uma das minhas viagens, li <strong>Martha Medeiros </strong>– <em>Tudo que eu queria te dizer</em>. Li para ter companhia e desviar o medo que me assola durante as viagens internacionais sobre o Oceano.</p>
<p>Tempos depois, após uma cirurgia, fiz uma viagem em que o oceano era outro – meu próprio interior – com zonas desconhecidas como o primeiro. Entre minhas companhias, lá estava Martha novamente em –<br />
<em>Fora de mim</em> – presente de uma amiga que me cercava de atenções durante minha recuperação.</p>
<p>O repouso exigido proporcionou-me espaço suficiente para ir além das entrelinhas do que lia. Então, mergulhei sem pressa naquele oceano particular em que ninguém entra e, em algumas páginas, lá estava eu – fora de mim. Nós, mulheres, quando o assunto é amor, temos um padrão comum, repetitivo, incrustado no nosso DNA.</p>
<p>O tema é recorrente na Literatura, mesmo assim, a autora nos faz cúmplices da experiência amorosa dos personagens, e a narrativa, tecida como um <em>patchwork</em>, tem um retalho nosso ali alinhavado. Reconheci comportamentos que transitam de forma corriqueira e, mesmo que a paixão desenfreada, enlouquecida, doentia seja o ícone central do livro, foi o conjunto de experiências relatadas que induziu à volta ao prumo, deu corpo ao texto e criou essa miscigenação de todas nós com a vida nossa de cada dia. Uma boa leitura para um período de quarentena.</p>
<p>Poderia continuar divagando sobre os homens que se despedem rapidamente, ou aqueles que constroem a saída, ardilosamente – como um predador. Sobre as mulheres que assumem a sobrevivência e os mandam embora, em nome da própria sanidade, sobre as que se reconstroem na sozinhez, ou sobre as que resolvem copiar a praticidade masculina do descarte, ou&#8230;</p>
<p>Ao fechar o livro, uma última pergunta: – Queremos mesmo e para sempre esse equilíbrio amoroso que nos amarra a ideia do amor eterno? Será? Esta é a beleza da leitura: os elos individuais que ela produz em mergulhos dentro e fora de nós.</p>
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		<title>POEIRA</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Mar 2011 00:57:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
				<category><![CDATA[SCRIBOMANIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sei se falo ou não, mas eu ando perturbada, e se te conto é para endireitar os fatos, apesar de desconfiar que esteja condenada a um longo e lento martírio. Não sei bem em que dia, o relógio despertou-nos no horário e, depois que servi o café, todos se encaminharam ao trabalho. Fiquei só. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei se falo ou não, mas eu ando perturbada, e se te conto é para endireitar os fatos, apesar de desconfiar que esteja condenada a um longo e lento martírio.</p>
<p>Não sei bem em que dia, o relógio despertou-nos no horário e, depois que servi o café, todos se encaminharam ao trabalho. Fiquei só. Como sempre, iniciei pelos quartos no andar de cima da casa. Abri as janelas, sacudi bem as cobertas, alisei os lençóis das camas, juntei a roupa para a lavanderia e desci as escadas em direção à cozinha. Foi com um duro golpe na cabeça, que percebi que havia caído e rolado escada abaixo. De um barulho infernal sobreveio um silêncio ensurdecedor e, sem saber bem o porquê, adormeci.</p>
<p>Acordei assustada, demorei alguns minutos para entender que já era quase noite e que o lusco-fusco invadia casa adentro pela janela da frente.</p>
<p>Quis apressar-me, precisava retirar o pó dos móveis. Todo o santo dia reviro os armários para passar um paninho. De tanto limpar, aprendi a identificar a poeira em suas diferentes tonalidades – do branco gesso ao âmbar claro, dos tons do ocre ao verde musgo, até o cinza escuro – e dependendo da cor, sei bem de onde vem aquele pozinho nojento que limpo, limpo e retorna todo o santo dia. Com habilidade, sempre fiz chegar o paninho às prateleiras onde guardo os brancos lençóis de linho bordados à mão; ao rodapé da escrivaninha de cedro; à lombada dos livros na sala de estar; por entre os desenhos externos da cristaleira e às caixas guardadas na parte de cima dos guarda-roupas – reduto preferido da poeira.</p>
<p>Refeita da queda, resolvi iniciar meu trabalho doméstico. Foi quando notei que não estava sozinha. Havia uma mulher de bruços no meu sofá. Cheguei mais perto. O rosto enterrado no assento, meio de lado, estava completamente desfigurado. Uma das pernas pendia em direção ao chão como prova de um último esforço. Senti náuseas e fiquei estonteada, virei de costas, pois aquela imagem me era insuportável. Respirei fundo e fiquei mais tonta ainda.</p>
<p> Como entrou, se a porta estava fechada? Se te conto é para achar uma lógica que me explique tudo pelo que venho passando.</p>
<p> Permaneci de costas para ela, por um bom quanto tempo, mas precisava tomar coragem e ter certeza. Segurei o pulso sem olhar direito. Estava morta. Como explicar isso à minha família, todos trabalham tanto, mal param em casa. Não, não iria incomodá-los com aquela mulher deitada no meu sofá da sala e a casa por limpar.</p>
<p>Não sei bem quanto perdi ali, pois perdi também a noção do tempo, e o ar estava cada vez mais irrespirável. Uma exalação fétida começava a emanar do corpo inerte. Não suporto mais esse cheiro, essa sujeira toda na minha sala, com que tenho convivido e que me leva quase que à beira da loucura.</p>
<p> Há dias não tiro o pó, ninguém tira.  A noite já desceu várias vezes e nenhum dos meus chega do trabalho, o que me deixa extremamente aflita. Numa massacrante rotina de espera, não como, nem bebo, mas não me faz falta, só me incomoda mesmo essa poeira cinza, tomando conta do meu corpo. Invadindo tudo, esfarelando-se em mim.</p>
<p> Prisioneira nesta sala de luz bruxuleante, eu ando perturbada, e se te conto é porque preciso de resposta.</p>
<p>  – Estarei morta, sem conseguir morrer?</p>
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