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	<title>Argumento.net &#187; QUEDA LIVRE</title>
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	<description>CADA ARGUMENTO NO SEU GALHO</description>
	<lastBuildDate>Thu, 20 Jun 2013 02:51:36 +0000</lastBuildDate>
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		<title>O PRÍNCIPE &#8211; PARTE 1</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Jun 2013 02:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Por volta de 1785 A professora estava cansada. As crianças não paravam quietas e ela não sabia mais o que fazer. A sensação de abafamento só tornava tudo pior. Em breve a chuva começaria a cair, mas, enquanto isso, ela tinha trinta crianças, entre sete e dez anos, sob sua responsabilidade e precisava pensar em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por volta de 1785</strong></p>
<p>A professora estava cansada. As crianças não paravam quietas e ela não sabia mais o que fazer. A sensação de abafamento só tornava tudo pior. Em breve a chuva começaria a cair, mas, enquanto isso, ela tinha trinta crianças, entre sete e dez anos, sob sua responsabilidade e precisava pensar em algo para distraí-las.</p>
<p>- Silêncio! – disse a professora, fazendo-se ouvir acima das conversas murmuradas dos alunos. – Silêncio! – ela repetiu, batendo com a régua de madeira na mesa.</p>
<p>A turma imediatamente ficou quieta. Todos temiam aquela régua. Se a professora resolvesse usá-la, nada e nem ninguém iria socorrê-los.</p>
<p>- Vocês devem calcular o resultado da soma de um a cem – enquanto escrevia a tarefa no quadro negro, um sorriso de satisfação surgiu em seu rosto. Agora sim ela poderia descansar um pouco.</p>
<p>Entretanto, não haviam se passado nem cinco minutos quando um menino gritou:</p>
<p>- Terminei!</p>
<p>A professora, com a cabeça inclinada sobre seus cadernos, nem se incomodou em olhar:</p>
<p>- Impossível! Sente-se e faça a tarefa, caso contrário vai para o castigo – disse ao aluno atrevido.</p>
<p>Mal ela havia terminado de falar quando a mesma voz repetiu:</p>
<p>- Terminei!</p>
<p>Furiosa ela ergueu a cabeça e procurou o atrevido. No fundo da classe, um de seus alunos mais novos a estava encarando, com o caderno colocado sobre a mesa e as mãos no colo.</p>
<p>- Senhor Gauss, tenho certeza que a sua tarefa deve estar incompleta. Faça um favor a si mesmo e termine-a.</p>
<p>O menino não baixou os olhos, permaneceu fitando a professora e teimosamente repetiu:</p>
<p>- Terminei!</p>
<p>A professora ficou vermelha.</p>
<p>- Muito bem, rapazinho. Venha até aqui e escreva no quadro a resposta – disse, já com a régua em uma das mãos.</p>
<p>O menino levantou-se do banco e calmamente caminhou até a frente da sala. Sua roupa, apesar de limpa, era muito simples, pobre até. No entanto, ele não parecia intimidado. Ao contrário. Sem olhar para a professora ou para qualquer um de seus colegas, o menino segurou a barra de giz e escreveu um número no quadro: 5050. Depois, em silêncio, permaneceu diante da turma, aguardando o veredicto da professora.</p>
<p>A velha mulher olhou para o quadro e em seguida para suas anotações amareladas. Ela já tinha proposto aquele exercício milhares de vezes e ninguém tinha levado menos do que uma manhã inteira para resolvê-lo. No entanto, agora&#8230;</p>
<p>- Onde você conseguiu essa resposta? – ela perguntou furiosa.</p>
<p>- Pensando – foi a resposta do menino.</p>
<p>- Como assim, pensando? Ninguém faz um cálculo desses em tão pouco tempo. Você deve ter olhado minhas anotações.</p>
<p>O menino não disse nada. O pai o havia ensinado a respeitar os mais velhos, principalmente se a pessoa mais velha fosse a sua professora. Se ele descobrisse que tinha sido mal educado com ela, sua bunda, com certeza, iria sofrer as consequências. Portanto, respirando fundo, tentou responder da forma mais educada possível:</p>
<p>- Mestra, eu apenas pensei em um caminho que me permitisse chegar à resposta o mais rápido possível.</p>
<p>- Que caminho?</p>
<p>Pegando o giz de novo ele escreveu:</p>
<p>- S<sub>n</sub> = n.(a<sub>1</sub> + a<sub>n</sub>) / 2</p>
<p>- O que é isso? – perguntou a professora.</p>
<p>- O caminho mais curto.</p>
<p>******************</p>
<p>Johann Carl Friedrich Gauss nasceu no dia 30 de abril de 1777 em uma pequena cidade da Alemanha, chamada Braunschweig. Sua família era muito pobre: o pai era jardineiro e pedreiro e a mãe uma dona de casa analfabeta.</p>
<p>Hoje, Gauss seria considerado um “menino prodígio”, pois desde muito cedo demonstrou uma inteligência sem igual, sendo capaz de, aos oito anos (momento no qual ocorre a história), encontrar, apenas por meio do raciocínio, a fórmula que demonstra a soma de uma progressão aritmética (abreviadamente P.A.). Um método rápido de efetuar uma soma que envolve vários números.</p>
<p>Herr Butne, diretor da escola primária frequentada por Gauss, reconheceu sua genialidade, passando a incentivá-lo nos estudos. Um colega, Johann Martin Bartels, outro jovem brilhante, alguns anos mais tarde o apresentaria a Carl Wilhelm Ferdinand, Duque de Brunswick. Esse nobre, impressionado com o talento matemático de Gauss, se tornaria seu protetor garantindo-lhe a conclusão dos estudos no Collegium Carolinum.</p>
<p>Antes dos vinte anos, Gauss já havia superado, em muito, as expectativas de seu protetor. Aos doze anos começou a desconfiar dos fundamentos da geometria euclidiana, aos dezesseis já tinha seu primeiro vislumbre de uma geometria diferente da de Euclides e aos dezoito inventou o “método dos mínimos quadrados”, indispensável em pesquisas geodésicas.</p>
<p>Contudo, sua genialidade não se restringiu aos anos de juventude. Ao contrário. Suas conquistas ultrapassaram, inclusive, os limites das ciências exatas. Gauss foi muito além.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Continua&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>CRÔNICAS SOBRE ALGUMAS DAS ESQUISITICES DA FÍSICA &#8211; 4</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Jun 2013 02:53:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Por favor, deixa o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui. Mario Quintana &#160; Você gosta de filmes de fantasmas? E em fantasmas, você acredita? Confuso com as minhas perguntas? Não se preocupe, eu explico. Em primeiro lugar, quero esclarecer que não gosto do gênero terror, principalmente se ele vem acompanhado de meninas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por favor, deixa o Outro Mundo em paz! </em></p>
<p><em>O mistério está aqui.</em></p>
<p>Mario Quintana</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Você gosta de filmes de fantasmas? E em fantasmas, você acredita? Confuso com as minhas perguntas? Não se preocupe, eu explico.</p>
<p>Em primeiro lugar, quero esclarecer que não gosto do gênero terror, principalmente se ele vem acompanhado de meninas de cabelo preto escorrido, casas mal-assombradas ou lugares onde as pessoas são metodicamente cortadas em pedaços. Definitivamente, esse não é o meu gênero de filme preferido.</p>
<p>No entanto, aprecio filmes que abordem a temática espiritual de maneira minimamente elegante, não importando se é um drama ou uma comédia. Chorei assistindo a “Ghost” (1990) e a “Amor Além da Vida” (1998). Quase enfartei com “O sexto sentido” (1999) e a frase “Eu vejo gente morta” se tornou um clássico dos filmes de fantasmas. E se vamos atrás de humor, sempre temos os engraçadíssimos “Os Caça-Fantasmas” (1984) e “Os Fantasmas se Divertem” (1988). São meio antigos, eu sei, mas fazer o quê? O século XXI não tem me animado muito quando o assunto é fantasmas.</p>
<p>Contudo, uma coisa é certa: novo ou antigo, quando se trata de fantasmas a audiência é sempre garantida. E na Física parece que não é muito diferente.</p>
<p>Um grupo de cientistas da Universidade Nacional de Singapura está trabalhando com a possibilidade de criar fantasmas reais. Imagens, semelhantes a hologramas, que poderiam ser projetadas no espaço livre. Uma espécie de ilusão de óptica tamanho gigante. Para que isso possa acontecer eles estão manipulando ondas eletromagnéticas, na faixa da microondas, e um material novo chamado “metamaterial”.</p>
<p>Se você não sabe o que é uma onda eletromagnética, lembre-se da luz. Ela é, com certeza, o exemplo mais importante e conhecido desse tipo de onda. Já os metamateriais – do grego “além de” – seriam materiais com propriedades não naturais. Atenção! Quando escrevo “não naturais”, não estou querendo dizer “sobrenaturais”. Nada disso! Significa apenas que se trata de materiais que possuem características estranhas – não encontradas na natureza –, mas continuam respeitando as leis da Física.</p>
<p>A existência dos metamateriais foi prevista pelo físico soviético Victor Veselago, em 1967. Porém, só em 2006, a Universidade Duke, na Carolina do Norte/EUA., e o Imperial College, de Londres, conseguiram fabricar artificialmente os primeiros metamateriais. A lista de suas possíveis aplicações é imensa. Superlentes que poderiam estudar em detalhes trechos do DNA de uma célula viva, cristais que trabalhariam com luz, em vez de eletricidade, construção de poderosos computadores e, é claro, a projeção de fantasmas reais.</p>
<p>Como esses fantasmas são criados?</p>
<p>Os cientistas, basicamente, manipulam ondas eletromagnéticas que viajam ao longo do metamaterial, em um aparelho circular formado por fitas concêntricas repletas de pequenas antenas. As imagens formadas podem ser distorcidas, tremer, se dobrar e até desaparecer. Além disso, são capazes de surgir em qualquer espaço, longe da localização do objeto real, sendo possível, inclusive, criar mais de um fantasma de apenas um objeto.</p>
<p>Complicado? Meio maluco? Com certeza! No entanto, o pessoal de Singapura acredita que seus estudos são “o cálice sagrado dos pesquisadores no campo das ilusões de óptica”. Parece um exagero, mas os cientistas são assim mesmo: quando acreditam estar perto de alguma descoberta importante, são um pouco exagerados.</p>
<p>A razão para todo esse otimismo está nas aplicações do projetor de fantasmas. Será possível criar fantasmas na tela dos radares ou eliminar traços de objetos verdadeiros, tornando-os invisíveis – o que me faz lembrar de Harry Potter: será que o manto da invisibilidade não era feito de algum tipo de metamaterial? Além disso, os cientistas acreditam que “seus fantasmas” poderão ser empregados em experimentos psicológicos. Ao criar “visões” que as pessoas pensam ser verdadeiras será possível analisar suas reações a elas, o que abriria as portas para a manipulação cognitiva, estimulando o surgimento de ideais “extraordinárias e contraintuitivas”. Outro exagero? Quem sabe.</p>
<p>De qualquer maneira, a história nos tem provado que muitas invenções, antes consideradas impossíveis ou até mesmo sobrenaturais, acabaram se transformando em instrumentos de uso comum. Vide a <em>internet</em>.</p>
<p>Tem coisa mais estranha do que informações circulando em “uma nuvem” que ninguém vê e muito menos sabe localizar? Tenho certeza que se alguém vindo do passado se deparasse com o computador e todas as suas ferramentas, acreditaria estar diante de algum tipo diabólico de bruxaria. Portanto, não vamos menosprezar a pesquisa sobre a projeção de fantasmas, ela não é absurda ou inútil. Aliás, em ciência nada é realmente absurdo até que se prove o contrário, pois como dizia Carl Sagan, existem muitas hipóteses em ciências que estão erradas, mas elas são a abertura para achar as que estão certas.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>CRÔNICA SOBRE ALGUMAS DAS ESQUISITICES DA FÍSICA &#8211; 3</title>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 01:46:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[O equilíbrio entre ficção e realidade mudou na última década. Seus papéis estão invertidos. Somos dominados pela ficção. O papel do escritor é inventar a realidade. J. G. Ballard Em 1997 estreava “O Quinto Elemento”, um filme escrito e dirigido pelo francês Luc Besson. Em seu elenco, Bruce Willis, Gary Oldman, Milla Jovovich, entre outros. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O equilíbrio entre ficção e realidade mudou na última década. Seus papéis estão invertidos. Somos dominados pela ficção. O papel do escritor é inventar a realidade.</em></p>
<p>J. G. Ballard</p>
<p>Em 1997 estreava “O Quinto Elemento”, um filme escrito e dirigido pelo francês <strong>Luc Besson</strong>. Em seu elenco, <strong>Bruce Willis, Gary Oldman, Milla Jovovich</strong>, entre outros. Na produção, os quadrinistas <strong>Jean Giraud</strong> e <strong>Jean-Claude Mézières</strong> e no figurino, o estilista <strong>Jean-Paul Gaultier</strong>.</p>
<p>A trama ocorre em 2263 quando uma ameaça alienígena só poderá ser evitada pela conjugação de quatro pedras sagradas, representando os quatro elementos – água, ar, fogo e terra – além do quinto elemento, corporificado pela extraterrestre Leeloo (Milla Jovovich). O personagem de Bruce Willis (Korben Dallas) era o herói da história, cabendo a ele encontrar as pedras, proteger Leeloo e pôr fim à ameaça extraterrestre.</p>
<p>A história era bem bobinha – uma mistura de gêneros (fantasia científica, ação, comédia e <em>Techno-thriler)</em> – e, em alguns momentos, bastante inverossímil – aliás, como a maioria dos filmes de ficção científica. No entanto, para uma sessão da tarde, comendo pipoca, pode se tornar uma escolha interessante, principalmente pelo visual e o humor.</p>
<p>Nesse momento, depois de ler os três parágrafos anteriores, você deve estar se perguntando: “O que isso tem a ver com a Física?”. A história em si pouca coisa, mas alguns detalhes do enredo até têm alguma relação. Por exemplo, os quatro elementos.</p>
<p>Esse conceito tem sua origem no Ocidente, na Grécia antiga, entre os filósofos pré-socráticos. Segundo Aristóteles, os quatro elementos comporiam tudo o que existe na superfície da Terra, determinando, inclusive, o comportamento e a natureza dos corpos. Assim, o ferro e os metais seriam constituídos principalmente pelo elemento Terra sendo atraídos por ela, enquanto os seres humanos teriam nas suas constituições os quatro, porém, em quantidades diferentes.</p>
<p>Atualmente, o modelo padrão da Física não se baseia na existência dos quatro elementos, mas em quatro forças fundamentais – gravidade, eletromagnetismo, força forte e força fraca. A primeira explica por que os corpos caem e a Terra gira em torno do Sol. A segunda descreve os fenômenos elétricos e magnéticos. E as duas últimas atuam em escala atômica, explicando o comportamento das partículas subatômicas e a coesão da matéria. Assim, é possível perceber que, apesar das diferenças conceituais, existe uma relação importante entre os quatro elementos dos gregos e as quatro forças fundamentais da Física: as duas concepções têm o objetivo de explicar os fenômenos naturais.</p>
<p>“Tudo bem” – você deve estar querendo dizer. – “E o quinto elemento mencionado no filme, ele existe realmente ou é uma invenção?”</p>
<p>Para os gregos? Com certeza ele existia e era denominado de quintessência ou elemento “perfeito”. A substância da qual era constituído chamava-se éter. No entanto, esse quinto elemento não era encontrado na Terra, mas apenas no plano cósmico ou celeste, ou seja, na Lua, no Sol e nas estrelas. Foram as observações de Galileu, da superfície da Lua e das manchas solares, – tornando evidente a “imperfeição” cósmica – que lançaram as primeiras dúvidas sobre o conceito de “elemento perfeito” permitindo que ele fosse mais tarde derrubado.</p>
<p>E hoje, como essa ideia é tratada? Eu diria que com cautela e otimismo.</p>
<p>Cautela porque, mesmo que a Física não fale mais em “quinto elemento”, não está descartada a existência de uma quinta força ou interação<a href="file:///C:/Users/Paulo%20Ricardo/Downloads/CR%C3%94NICA%20SOBRE%20ALGUMAS%20DAS%20ESQUISITICES%20DA%20F%C3%8DSICA%203.docx#_ftn1">[1]</a>. O problema é que até o momento o assunto se encontra na fase da formulação teórica. Para que essa ideia seja levada a sério é preciso realizar experimentos rigorosos que confirmem a presença de uma partícula responsável por esse tipo de força.</p>
<p>Contudo, o otimismo entre os cientistas é muito grande. Afinal, se essa partícula realmente existir, ela poderá explicar por que os corpos, mesmo distantes por milhões de quilômetros, podem se “comunicar”. Esse fenômeno, chamado atualmente de “emaranhamento quântico”, vem assombrando os físicos desde o tempo de Newton, pois nunca foi encontrada a sua causa. E mesmo que hoje os cientistas considerem esse comportamento “normal” – quando se trata de partículas subatômicas – seria melhor, ou mais simples, poder medi-lo e analisá-lo sem precisar recorrer a teorias mirabolantes.</p>
<p>O espetacular de tudo isso é que, em 2010, os cientistas que trabalhavam no acelerador de partículas Tevatron, nos EUA, quase conseguiram detectar essa partícula. A má notícia é que se observou apenas um pico de energia, portanto, um evento rápido e de difícil reprodução. A boa notícia, no entanto, é que os experimentos até agora realizados permitiram eliminar as forças já conhecidas. Assim, quando essa quinta partícula resolver reaparecer, os cientistas têm esperanças de conseguir identificá-la.</p>
<p>É óbvio que Luc Besson, quando escreveu e dirigiu “O Quinto Elemento”, não pensou em nada disso. Entretanto, assim como já ocorreu outras vezes, a ficção e a ciência mostraram estar mais próximas do que imaginávamos. Afinal, é preciso reconhecer que por diversas vezes a ficção se antecipou à ciência, atuando como uma espécie de oráculo do futuro. De qualquer maneira, o importante quando se trata do estudo dos fenômenos naturais é – como disse o escritor inglês <strong>Arthur Clarke </strong>(1917-2008) – descobrir os limites do possível, mesmo que para isso seja preciso aventurar-se um pouco mais à frente deles, indo até o impossível.</p>
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<hr size="1" />
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<p><a href="file:///C:/Users/Paulo%20Ricardo/Downloads/CR%C3%94NICA%20SOBRE%20ALGUMAS%20DAS%20ESQUISITICES%20DA%20F%C3%8DSICA%203.docx#_ftnref1">[1]</a> Na verdade, a Física moderna não usa mais as expressões “força e interação”. Hoje o conceito utilizado é o de “campo” que seria uma espécie de perturbação criada em torno de qualquer corpo e podendo ser sentido por outros corpos.</p>
</div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>PÉS DE BARRO</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Apr 2013 12:07:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Se meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles. Adlai Stevenson &#160; “Homens adultos, brilhantes e poderosos traíram seus amigos, mentiram desavergonhadamente para seus inimigos, enunciaram críticas chauvinistas e odiosas, refutaram-se mutuamente”. Esse é o resumo da professora de matemática e historiadora, Lenore Feigenbaum, sobre o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Se meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles.</em></p>
<p><strong>Adlai Stevenson</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Homens adultos, brilhantes e poderosos traíram seus amigos, mentiram desavergonhadamente para seus inimigos, enunciaram críticas chauvinistas e odiosas, refutaram-se mutuamente”. Esse é o resumo da professora de matemática e historiadora, Lenore Feigenbaum, sobre o “desentendimento” que por anos existiu entre Newton e Leibniz. Um episódio que coloca por terra qualquer ilusão que possamos ainda alimentar sobre a perfeição de nossos ídolos ou heróis.</p>
<p>Newton é reconhecido como sendo o autor de algumas das mais importantes leis da Física, ensinadas até dos dias de hoje, em todas as escolas do mundo. No entanto, sabe-se que o seu conhecimento ia muito além do estudo dos fenômenos naturais. Ele foi um dos melhores (senão o melhor) matemático de sua época. Do mesmo modo, Leibniz. Ele é considerado um dos grandes filósofos da história, porém, Leibniz, assim como Newton, também se destacou em outras áreas do saber, como ciências, engenharia e, é claro, matemática. Portanto, estamos falando de duas mentes brilhantes, que influenciaram com suas ideias não só a sociedade de sua época, mas também a nossa.</p>
<p>A polêmica na qual foram os personagens principais começou a se desenhar no final do século XVII e só teve o seu desfecho no fim da primeira década do século XVIII. Naquela época, a velocidade com que as pessoas se comunicavam era bem diferente do que é hoje. A troca de cartas era a maneira mais comum de comunicação, independente das distâncias envolvidas. Logo, se, atualmente, uma mensagem pode ser enviada e recebida em poucos segundos, nesse período as cartas levavam dias e até meses para chegar (quando chegavam) aos seus destinos. E foram, justamente, duas cartas a causa do mal entendido entre Newton e Leibniz.</p>
<p>Por volta de 1676, Newton estava trabalhando em uma “nova matemática” com o objetivo de enunciar o que seria chamado mais tarde de Lei da Gravitação Universal. Ele denominou esse novo método de “fluxões”. Nesse mesmo ano, por meio de um amigo comum, Newton correspondeu-se com Leibniz e numa das cartas enunciou o teorema fundamental do futuro Cálculo Infinitesimal. Entretanto, aqui há dois detalhes importantes a considerar. Primeiro, essa mensagem estava criptografada (uma das várias esquisitices de Newton), o que impediria, conforme os defensores de Leibniz, a sua leitura e, consequente, interpretação. E, segundo, Leibniz na época já teria criado a sua própria versão para o Cálculo Diferencial e Integral.</p>
<p>Você, a essa altura, já deve estar se perguntando: “Então, onde está o problema?” A resposta é simples: nas diferentes personalidades desses dois homens.</p>
<p>Enquanto Leibniz acreditava que todo o conhecimento deveria ser compartilhado, Newton guardava a sete chaves tudo para si, evitando sempre que possível publicar ou expor suas ideias.</p>
<p>Assim, em 1684, – oito anos depois da tal troca de cartas –, Leibniz publicou os princípios e aplicações do Cálculo Integral e Diferencial. Já as “fluxões” de Newton permaneceram ocultas, ou seja, nem uma única linha se tornou pública.</p>
<p>A “bomba”, no entanto, só estouraria 15 anos mais tarde, em 1699, quando um dos alunos de Newton, em vista do entusiasmo dos discípulos de Leibniz em divulgar as ideias do mestre, decidiu acusar o matemático alemão de plágio. Pouco depois outro admirador de Newton publicou, na revista oficial da Royal Society, que Leibniz havia retomado o cálculo newtoniano, limitando-se apenas em trocar os nomes. Com essas duas declarações foi impossível impedir que a “guerra” fosse declarada!</p>
<p>A partir daí os golpes baixos trocados entre os dois lados pareciam não ter fim: cartas anônimas, traduções do latim para o inglês seguindo uma ou outra orientação, desafios matemáticos, etc. Newton chegou ao ponto de organizar uma comissão “imparcial” na Royal Society com o objetivo de determinar quem teria sido o autor do novo método matemático. Outro detalhe interessante: o presidente dessa comissão era o próprio Newton. Adivinhem, portanto, quem foi aclamado o “pai do cálculo”?</p>
<p>De qualquer maneira, o fato é que nenhum dos dois lados soube se comportar de forma honrosa. Ao contrário. As brigas prolongaram-se muito depois da morte de seus protagonistas e foram uma mistura de insultos e equações.</p>
<p>James Gleick, autor de uma das várias biografias de Newton, afirma que a causa de toda essa confusão esteve centrada no sigilo, pois foi ele que gerou a competição e a inveja. Hoje, no entanto, não há dúvidas de que Newton e Leibniz criaram o cálculo de maneira independente, ou seja, os dois são considerados os pais dessa “criança”.</p>
<p>E a todas essas, como fica a minha admiração? Continuo considerando Newton um herói?</p>
<p>A resposta é um sincero e bem audível, SIM! Contudo, isso não quer dizer que eu ignore os seus pés de barro. De jeito nenhum!</p>
<p>Newton era um obcecado, um homem difícil, capaz de agir, muitas vezes, de maneira pouco digna. Ao longo da vida conquistou, não só desafetos, mas também inimigos mortais. Esses são fatos com os quais não posso e nem quero discutir.</p>
<p>Logo, reconheço e aceito que meu ídolo não foi o mais perfeito dos homens. Na verdade, ele estava bem longe da perfeição. Porém, esse reconhecimento não diminui outro fato importante: sua genialidade alterou drasticamente a forma como o homem entendia o universo. E até mesmo aqueles que hoje veem falhas em seus sistemas e métodos reconhecem o quanto suas ideias ainda influenciam os cientistas e a sociedade moderna. É como diz Gleick no final da biografia: “Aquilo que Newton descobriu entrou na medula do que sabemos sem saber que sabemos”. E isso, com certeza, merece a minha total e irrestrita admiração.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>PÉS DE BARRO &#8211; PARTE 1</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Mar 2013 12:58:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>
		<category><![CDATA[Isaac Newton]]></category>
		<category><![CDATA[Robert Hooke]]></category>

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		<description><![CDATA[Não é bom tocar nos ídolos; o dourado pode sair nas nossas mãos. Gustave Flaubert &#160; Não conheço ninguém que não tenha, em algum momento da vida, experimentado o amor sem reservas que só um ídolo é capaz de despertar. Há os que veneram atores e atrizes, outros preferem astros de rock e há aqueles [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Não é bom tocar nos ídolos; o dourado pode sair nas nossas mãos.</em></p>
<p>Gustave Flaubert</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não conheço ninguém que não tenha, em algum momento da vida, experimentado o amor sem reservas que só um ídolo é capaz de despertar. Há os que veneram atores e atrizes, outros preferem astros de rock e há aqueles que adoram escritores e pintores. A verdade é que não faltam homens e mulheres fascinantes no mundo e, portanto, heróis e heroínas com os quais podemos nos identificar. Eu, é claro, não sou uma exceção.</p>
<p>Apaixonei-me perdidamente inúmeras vezes, sempre por seres inalcançáveis. A consequência desses amores de mão única é óbvia: sofri como só os apaixonados são capazes de sofrer. Com a maturidade, a “paixonite” da adolescência foi sendo substituída pela simples e saudável admiração. Essa mudança de foco trouxe, no entanto, o conhecimento de que meus antigos e novos heróis tinham não só qualidades, mas defeitos difíceis de ignorar. Descobri, talvez, um pouco tarde, que todos os ídolos, por mais maravilhosos que pareçam, têm pés de barro.</p>
<p>Um de meus “ídolos de pés de barro” é considerado até os dias de hoje uma das mentes mais brilhantes que a humanidade já produziu. A palavra “gênio” é pouco para definir a personalidade complexa desse homem. Estou me referindo ao filósofo natural e matemático, Isaac Newton (1643 &#8211; 1727).</p>
<p>Newton envolveu-se com os mais variados assuntos – Mecânica, Óptica e Engenharia –, criou uma matemática própria – o Cálculo Diferencial e Integral – permitindo que leis universais fossem enunciadas de forma precisa e racional. Porém, essa genialidade não conseguiu encobrir os problemas de comportamento que o acompanharam durante toda a vida. Além de ser avesso a qualquer tipo de crítica ou debate, Newton era introspectivo, misógino, irascível e, por consequência, um indivíduo antipático e completamente antissocial. Suas brigas com outras personalidades importantes da História da Ciência aumentaram ainda mais a sua fama de homem com um “temperamento difícil”.</p>
<p>Meu ídolo, com certeza, tinha pés de barro extremamente frágeis.</p>
<p>Duas contendas em especial se destacam em sua biografia. A primeira com o cientista experimental inglês Robert Hooke (1635 &#8211; 1703). E a segunda com o filósofo, cientista e matemático alemão Gottfried Leibniz (1646 &#8211; 1716).</p>
<p><strong>********</strong></p>
<p>Robert Hooke é um daqueles personagens da ciência que alguns já ouviram falar e poucos sabem quem realmente ele foi. Contudo, suas contribuições ao estudo dos fenômenos naturais são inquestionáveis. Ele inventou o microscópio composto, escreveu um livro chamado “Micrographia”, repleto de gravuras de organismos observados em seu microscópio, foi autor de uma lei que descreve o comportamento das molas e um dos fundadores de uma das sociedades científicas mais antigas e respeitadas no mundo, a Royal Society.</p>
<p>Newton e Hooke tiveram o seu primeiro debate público quando discordaram sobre a natureza da luz. O primeiro defendia uma natureza corpuscular, enquanto o segundo acreditava em uma natureza ondulatória. No entanto, é preciso esclarecer que Hooke fazia apenas eco a outras vozes igualmente importantes da época, como o matemático e astrônomo holandês Christian Huygens. Na tentativa de esclarecer os dois pontos de vista, Newton foi chamado para o debate várias vezes, mas comportando-se como uma criança birrenta, sempre recusou. Sua ojeriza à discussão, assim como a sua baixíssima tolerância à crítica, fez com que seu trabalho sobre a luz – <em>Opticks</em> – ficasse oculto por 32 anos!</p>
<p>Porém, a inimizade entre os dois homens não teve como motivação principal a discordância sobre a natureza da luz. Antes disso, uma crise mais séria já havia ocorrido.</p>
<p>Na sua obra mais importante – os <em>Principia Mathematica </em>– Newton apresentava as três leis do movimento dos corpos, assim como a Lei da Gravitação Universal, demonstrando matematicamente que a força de atração entre os corpos variava com o inverso do quadrado da distância. O problema é que essa ideia já havia sido explorada, em anos anteriores, por Hooke. Inclusive, esse tinha trocado cartas com Newton explicando a sua concepção sobre o movimento dos planetas. Portanto, qual não foi a surpresa de Hooke quando soube que nos <em>Principia</em> não havia nenhuma referência ou agradecimento a ele.</p>
<p>É claro que, para os historiadores, não importa quem teve a ideia, mas quem conseguiu perceber a sua importância e integrá-la numa teoria coerente do ponto de vista físico e matemático. E essa proeza foi, sem dúvida alguma, de Newton. No entanto, coloquem-se no lugar de Hooke. Imaginem o que ele deve ter sentido? Ou melhor, o que deve ter dito em alto e bom som diante de vários de seus colegas da Royal Society? Cobras e lagartos com certeza!</p>
<p>Newton sendo Newton nunca perdoou Hooke. As críticas e as acusações só o tornaram ainda mais recluso e antipático. Ele ficou enfurecido e pediu o seu afastamento da Royal Society. Inclusive, as más línguas dizem que a famosa frase: “Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes” não se tratava de uma homenagem aos seus antecessores (Kepler e Galileu), mas um deboche a Hooke, pois este, devido a um desvio da coluna, via-se forçado a andar curvado, parecendo tudo, menos um gigante.</p>
<p>Essa situação desconfortável e constrangedora só veio a se alterar quando Hooke morreu. Aliás, essa morte trouxe inúmeros benefícios a Newton. Ele não só autorizou a publicação do livro <em>Opticks, </em>como aceitou retornar a Royal Society, tornando-se, em poucos meses, seu presidente.</p>
<p>Segundo os biógrafos, o poder exercido por Newton durante seu tempo como presidente da Royal Society pode ser descrito como despótico. Ele comparecia a todas as reuniões, comentava quase todos os trabalhos e escolhia os membros do conselho. Aqueles que quisessem permanecer como membros da sociedade tinham de estar em absoluta sintonia com as ideias de seu presidente. E foi usando esse poder que ele perpetrou sua maior vingança contra o colega falecido.</p>
<p>Reza a lenda que uma de suas primeiras decisões foi retirar do prédio qualquer quadro que retratasse Hooke. Com esse ato, ele sepultava não só o homem, mas qualquer representação dele.</p>
<p>Assim era Newton, um gênio inconteste, mas um ser humano com uma personalidade muito complicada. E se os problemas de relacionamento de meu ídolo se restringissem apenas a esse episódio com Hooke, seria possível até relevar. No entanto, a verdade é que ele não sabia fazer amigos. Muito pelo contrário.</p>
<p>Continua&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>NOTAS SECRETAS DE UM MATEMÁTICO: FINAL</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Feb 2013 11:46:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Os céus medi, e agora medirei as sobras da Terra. O espírito era celeste, mas aqui jaz a sombra do corpo. Johannes Kepler &#160; Não consigo evitar, a preocupação me consome, pois temo pelo meu futuro. Essa guerra estúpida e sem sentido mantém-me em constante estado de alerta. Contudo, apesar dela, tenho vivido em relativa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Os céus medi, e agora medirei as sobras da Terra.</em></p>
<p><em>O espírito era celeste, mas aqui jaz a sombra do corpo.</em></p>
<p><strong>Johannes Kepler</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não consigo evitar, a preocupação me consome, pois temo pelo meu futuro. Essa guerra estúpida e sem sentido mantém-me em constante estado de alerta. Contudo, apesar dela, tenho vivido em relativa tranquilidade. O imperador tem me obsequiado com seus favores e Praga acabou se tornando o meu lar.</p>
<p>Parece, no entanto, que o meu destino não é viver feliz e em paz. Ao contrário. Agora vejo-me obrigado a decidir qual religião devo professar. Meus amigos argumentam que ao escolher o catolicismo estarei assegurando uma posição estável para mim e para minha família. Até mesmo Guldin enviou-me carta, desde Viena, tentando-me convencer a aceitar a abjuração.</p>
<p>Essa seria, com certeza, a saída mais simples e lógica. Afinal, sendo batizado já me considero católico, apenas não assumi o <em>status </em>de romano. Então, por que essa ideia me causa tanto desconforto?</p>
<p>O problema é que nunca precisei da mediação de qualquer autoridade eclesiástica para sentir-me na presença de Deus. Eu sempre o encontro nas minhas leituras e na observação dos céus. Porém, para “eles” isso não parece ser o suficiente.</p>
<p>Devo pensar com seriedade em uma maneira de sair de Praga antes que seja tarde demais. Talvez consiga trabalho em Sagan. O ducado agora pertence ao general Wallenstein, meu amigo há mais de vinte anos. Conhecemo-nos quando elaborei seu horóscopo. Na época minhas previsões foram tão exatas que o general sentiu-se em dívida comigo. Entretanto, ainda não estou seguro se essa seria a decisão acertada, pois a sorte de meu protetor depende da sorte das armas. Se em uma dessas inúmeras batalhas ele é derrotado, será minha família e eu que sairemos perdendo.</p>
<p>Em meio a toda essa confusão uma das poucas coisas que me consola é o de ter enfim publicado minhas “Tabelas Rodolfinas”. As medidas coligidas por Brahe ajudaram-me a elaborar esse documento, tornando-o um guia importante para astrônomos, astrólogos, navegadores e exploradores. Foram 22 anos de trabalho árduo, recalculando e interpretando os inúmeros dados acumulados por Brahe. Posso comparar esse trabalho as dores de um parto: um esforço descomunal, muito suor e um sofrimento enorme.</p>
<p>Entretanto, apesar do seu mérito evidente fui obrigado a enfrentar vários obstáculos para conseguir a sua publicação. Uma verdadeira <em>via crucís.</em></p>
<p>Primeiro a gráfica. A que existia em Linz foi completamente destruída pela guerra. Precisei ir até Ulm para encontrar um editor. Até hoje não sei como consegui sobreviver à viagem. Tive de percorrer a pé a distância entre essas duas cidades carregando os tipos para a impressão. Nunca pensei que pudesse sentir tantas dores.</p>
<p>Ao chegar em Ulm deparei-me com outro problema, o dinheiro, ou melhor, a falta dele. Os adiantamentos do tesouro imperial não foram suficientes nem mesmo para comprar o papel. Paguei do meu próprio bolso o custo da impressão. E como se não bastasse, os herdeiros de Brahe tornaram a minha vida um inferno, exigindo participação nos lucros das vendas.</p>
<p>Enfim, o orgulho de ver minha obra publicada custou-me uma longa e perigosa viagem, meses de negociação e um dinheiro que não possuía. Hoje sou um homem bem mais pobre. Pouco progredi no que diz respeito à minha situação financeira. Se Barbara fosse viva estaria, com certeza, azucrinando-me os ouvidos. Graças a Deus que agora tenho Suzanna.</p>
<p>Se não fosse por ela, eu estaria louco ou morto. Ela é tudo o que sempre desejei em uma mulher. No entanto, dessa vez não quis correr riscos e obriguei-me a seguir um método que me permitisse escolher a esposa ideal. Para atingir esse objetivo, avaliei minuciosamente o caráter, a fortuna, a reputação da família, o estado de saúde, a idade e os atrativos de minhas pretendentes. Entre as onze candidatas, Suzanna foi a escolhida. Graças ao bom Deus, finalmente, encontrei nela uma esposa leal, amável, boa dona de casa, compreensiva e bela, atributos que nunca fizeram parte da personalidade de Barbara.</p>
<p>Portanto, por Suzanna e pelos meus filhos, preciso escolher bem. Permanecer em Praga e me declarar católico apostólico romano ou ir para Sagan e colocar-me sob a proteção do general Wallenstein? Se a minha escolha for a errada, não prejudicarei apenas a mim, mas arrastarei Suzanna e as crianças para um perigo que há anos tento evitar: envolver-me de forma definitiva nessa guerra insana.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Praga, 10 de abril de 1628.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>FIM.</strong></p>
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<p>*****************</p>
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<p>Johannes Kepler, matemático, astrônomo e astrólogo alemão, nasceu em 27 de dezembro de 1571 em Weil der Stadt, próximo a Stuttgart, e morreu em 15 de novembro de 1630, na cidade de Sagan.</p>
<p>A guerra referida no texto é a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Essa é a denominação genérica para uma série de conflitos envolvendo diversas nações europeias, especialmente a Alemanha, por motivos diversos: rivalidades religiosas (protestantes <em>versus</em> católicos), dinásticas, territoriais e comerciais.</p>
<p>Kepler acabou decidindo ir para Sagan, a fim de evitar a abjuração. No entanto, essa cidade também foi atingida pela guerra e seus cidadãos foram confrontados com a escolha de converter-se ao catolicismo ou deixar a cidade. Kepler foi poupado desse ultimato, mas caiu em um isolamento profissional do qual nunca se recuperou.</p>
<p>Sua última obra, <em>Somnium</em>, relato fantástico de uma viagem à lua, foi publicada quatro anos após a sua morte. Nem mesmo seu túmulo foi deixado em paz, pois a Guerra dos Trinta Anos destruiu a cemitério no qual Kepler fora enterrado.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>NOTAS SECRETAS DE UM MATEMÁTICO &#8211; PARTE 2</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Feb 2013 17:11:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Prefiro a crítica mais dura de um homem inteligente, a aprovação irreflexiva da grande massa. Johannes Kepler &#160; Sinto vergonha de admitir o quanto de paz de espírito conquistei com a morte de dois seres humanos. Contudo, essa é a verdade. A morte de Barbara e Brahe trouxe um novo alento à minha atormentada vida. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Prefiro a crítica mais dura de um homem inteligente, a aprovação irreflexiva da grande massa.</em></p>
<p><em> </em><strong>Johannes Kepler</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sinto vergonha de admitir o quanto de paz de espírito conquistei com a morte de dois seres humanos. Contudo, essa é a verdade. A morte de Barbara e Brahe trouxe um novo alento à minha atormentada vida. Os dois sabiam apenas impor-me humilhações; a primeira, ao homem e o segundo, ao matemático. Lamento somente a morte de meu filho inocente. A doença é impiedosa, seiva vidas sem olhar o coração. No entanto, permaneço acreditando na sabedoria divina.</p>
<p>Alguns invejosos acusam-me de ter assassinado Brahe com o propósito de me apropriar de suas “riquezas astronômicas”. Mentiras! Sim, eu não o apreciava, sim, discutíamos o tempo todo, mas daí a assassiná-lo há uma grande distância. Não sou um assassino. Todavia, não negarei que a sua morte beneficiou-me em muitos sentidos.</p>
<p>As informações tão zelosamente escondidas por Brahe estão muito além do que eu imaginava. Nelas encontrei as respostas que há tanto tempo procurava, confirmando minhas ideias e permitindo-me elaborar um novo e maravilhoso modelo do universo. Além disso, fui nomeado matemático imperial. Rodolfo II tornou-se meu protetor e incentivador, assim, nada mais justo do que dedicar minha mais recente obra – “A Astronomia Nova” – a ele.</p>
<p>Não tenho mais dúvidas de que o Sol está no centro e é a causa do movimento da Terra e dos outros planetas. Do mesmo modo, as órbitas. Elas não são perfeitamente circulares – como defendem meus colegas –, mas elípticas. Foram setenta tentativas e cinco anos de pesquisa, mas valeu a pena. O sistema cosmológico que hoje ofereço é mais completo, mais simples e mais de acordo com a obra de Deus.</p>
<p>Todavia, como nasci debaixo de uma má estrela, minhas conquistas sempre vêm acompanhadas de dores e sofrimentos. Meu imperador prometeu-me uma soma considerável para a publicação do livro, porém, esse dinheiro até agora não tem passado de uma promessa. Além disso, o genro de Brahe vem importunando-me de todas as maneiras  possíveis, exigindo direitos sobre o livro e querendo escrever um prefácio que enalteça seu falecido sogro e diminua todas as minhas descobertas.</p>
<p>Enfim, minha vida é feita de alguns poucos sucessos e infinitos dissabores. Mesmo os que se dedicam ao estudo da natureza e compartilham de minhas ideias deram-me as costas. O italiano Galileu Galileu, apesar da minha insistência, tem se negado a emitir uma opinião sobre os meus trabalhos. Agora, é ele que está sendo alvo de todo o tipo de calúnias. Sua famosa luneta só tornou seus inimigos ainda mais furiosos. Contudo, suas observações têm apenas confirmado minhas próprias ideias. Talvez se tivéssemos trabalho em conjunto teríamos mais força para enfrentar esses ignorantes maledicentes.</p>
<p>Atualmente vivo outro momento de extrema tensão e perigo. Katharina está sendo acusada de feitiçaria.</p>
<p>Minha querida irmã Margarete escreveu-me uma carta desesperada dando-me conta do que está acontecendo com nossa mãe. A princípio pensei tratar-se de uma brincadeira de mau gosto. Afinal, Katharina nunca foi a melhor das mães, mas não é uma bruxa. Porém, para meu espanto, a situação é realmente séria, Katharina está correndo o risco de ser queimada na fogueira.</p>
<p>Meu primeiro ato foi enviar uma carta de protesto ao chanceler argumentando que toda a acusação é uma grande estupidez. Segundo Margarete, eles estariam tentando, inclusive, sujar meu nome, imputando-me acusações igualmente ridículas. Querem impor-me a marca de filho da bruxa.</p>
<p>As denúncias mencionam sortilégios variados que provocariam enfermidades, dores e até paralisia. São todos absurdos, simples fofocas de comadres, como tentei demonstrar em minha carta. No entanto, o passado de Katharina não ajuda (uma tia foi queimada na fogueira por motivos semelhantes), assim como seu temperamento irascível. Ela não consegue permanecer calada.</p>
<p>Margarete suplica que eu vá em seu socorro, pois o processo contra Katharina evolui rapidamente para um desfecho trágico. Assim, devo interromper meu trabalho, enfrentar uma guerra que está prestes a eclodir e desembolsar um dinheiro que não tenho. Definitivamente, na noite de meu nascimento as estrelas não estavam ao meu favor.</p>
<p>De qualquer maneira, preciso ir até Wurtembergue, pois consegui, junto ao chanceler, um adiamento de cinco semanas para o início da tortura. Enquanto isso, Katharina permanece presa e em completo isolamento. Devo, então, me apressar, com 75 anos, se a tortura não matá-la, as condições de sua cela o farão.</p>
<p>Peço a proteção de Deus nessa viagem perigosa e que Ele me ajude a encontrar as palavras certas para convencer os juízes da inocência de minha mãe. A ideia da tortura e da morte pelo fogo me repugna e apavora. Preciso impedir a qualquer custo que isso venha a acontecer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Linz, 12 de julho de 1620.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Continua&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>NOTAS SECRETAS DE UM MATEMÁTICO &#8211; PARTE 1</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Jan 2013 00:31:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[A diversidade dos fenômenos da Natureza é tão vasta e os tesouros escondidos nos céus tão ricos, precisamente para que a mente humana nunca tenha falta de alimento. Johannes Kepler Nasci de sete meses numa fria manhã de dezembro. Até hoje me pergunto: se meu nascimento tivesse se dado no tempo certo, a minha vida [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A diversidade dos fenômenos da Natureza é tão vasta e os tesouros escondidos nos céus tão ricos, precisamente para que a mente humana nunca tenha falta de alimento.</em><br />
<strong>Johannes Kepler</strong></p>
<p>Nasci de sete meses numa fria manhã de dezembro. Até hoje me pergunto: se meu nascimento tivesse se dado no tempo certo, a minha vida seria diferente? Bobagem! Pensar nos “ses” não vai me trazer nenhum alívio e nem alterar o caráter dos meus pais.</p>
<p>Heinrich era um mercenário cruel e nojento que só voltava para casa por dois motivos: para engravidar e bater na minha mãe. Agradeço a Deus não termos convivido por muito tempo. Quando eu tinha apenas seis anos, ele saiu da minha vida para nunca mais voltar. Katharina, no entanto, continua viva. Não é correto dizer isso; afinal, trata-se da mulher que me trouxe ao mundo, mas ela é uma daquelas mulheres que jamais poderia ter concebido. Pequena, magra e malvada, só tem me causado problemas.</p>
<p>Contudo, não pensem que guardo rancores. Na verdade, meus pais não têm culpa. Quando pude estudar mais a fundo seus mapas astrológicos, as respostas estavam todas ali. A violência de Heinrich e a maldade de Katharina foram determinadas pelas suas datas de nascimento. Ambos nasceram sob uma má estrela.<br />
Sou, portanto, um sobrevivente. E como tal tenho vivido.</p>
<p>Ao contrário de três de meus irmãos, que morreram ainda quando crianças, eu sobrevivi. Nunca fui uma cruz pesada para minha mãe e posso dizer, sem falsa modéstia, que graças a mim a família não se transformou em um desastre total. Todavia, precisei pagar um preço alto, pois minha saúde nunca foi perfeita. Sempre padeci de dores de cabeça insuportáveis, febres intermitentes, feridas, pústulas e até mesmo sarna. Meu sofrimento parecia nunca ter fim.<br />
Sim, com certeza, sou um sobrevivente.</p>
<p>Meu único refúgio era a escola. Lá eu estava protegido da loucura da minha família. Os professores gostavam de mim e eu deles. Eles sabiam valorizar meus talentos e nunca demonstraram desprezo ou tentaram me ridicularizar. Tenho uma dívida especial para com o professor Michael Mästlin. Foi graças a ele que aprendi a analisar os fenômenos celestes e a entender as diferenças entre os modelos de Ptolomeu e de Copérnico. Michael foi mais que um professor, ele se tornou o pai que eu nunca tive.</p>
<p>Ao rever minha vida percebo sempre ter estado em busca da harmonia e do equilíbrio. Ao não encontrá-los dentro da família, voltei-me para os estudos. E que conhecimento carrega mais harmonia e significado do que a Matemática? Acredito seriamente que ela é um poderoso meio para estarmos perto de Deus. Meu sonho sempre foi servi-lo e a forma que encontrei foi unir meus dois temas de estudo preferidos, a Matemática e a Teologia.<br />
No entanto, não pensem que sou um covarde. O corpo pode ser frágil, mas o espírito não o é. </p>
<p>Quando aceitei deixar meus estudos no seminário de Tübingen para assumir o cargo de professor em Graz, mergulhei em um mundo cheio de sangue, ignorância, ódio e morte. Católicos e protestantes enfrentavam-se todos os dias, não só nos campos de batalha, mas dentro dos muros das cidades. Minha viagem entre Wurtemburg e Graz transformou-se em uma aventura terrível da qual demorei a me recuperar.</p>
<p>Como foi difícil a adaptação a esse novo ambiente. Eu havia estudado para ser um sacerdote, não um professor. Pela primeira vez senti que não era apreciado pelos meus colegas. E os alunos? Esses me detestavam! Minhas aulas eram penosas, confusas e pouco inteligíveis.</p>
<p>Todavia, apesar de viver angustiado, eu continuava a minha busca pelo que me acostumei a chamar de a “música das estrelas”. Nada se comparava a essa necessidade de sentir, mais do que saber, a verdadeira harmonia do Cosmos. Eu precisava ler a vontade de Deus nas páginas da Criação! E essa leitura só seria possível se o modelo cosmológico mudasse. Precisava abandonar o modelo ptolomaico, entregando-me de corpo e alma ao estudo das ideias de Copérnico.</p>
<p>Agora você deve estar pensando: “Esse homem é um louco!”. Sim! Sou um sobrevivente e um louco. Quando terminei meu primeiro livro, estabeleci as bases do meu pensamento em torno de três questões fundamentais: Por que existe um número determinado de planetas? Por que estão dispostos a essas distâncias do Sol? Por que se deslocam a essas velocidades?</p>
<p>Com a sua publicação conquistei muitos inimigos entre católicos e protestantes, pois nenhum deles aceitava o modelo copernicano. Talvez minhas respostas torpes tenham contribuído para essa rejeição; contudo, senti que era meu dever levantar essas questões.</p>
<p>Foi mais um período difícil. Meus colegas riam de mim pelas costas, ridicularizando-me. Apesar de nada entenderem, se achavam no direito de criticar como se fossem grandes conhecedores. Sempre me espanto com a crueldade dos ignorantes, ela não tem limites e muito menos piedade.</p>
<p>E agora aqui estou. Encerrado dentro deste castelo, marido de uma mulher detestável e servindo a um homem grosseiro e arrogante.</p>
<p>Barbara é uma megera gorda e uma simplória reclamona. É como se as estrelas tivessem conspirado contra mim trazendo-me uma mulher em tudo semelhante a minha mãe. Ela me perturba todos os dias, reclamando da nossa situação de “servos” dentro do castelo, quer que eu tome uma atitude, arranjando mais dinheiro e melhorando nossa posição social. A harpia esquece que quando a conheci era uma viúva com um filho pequeno para criar. Eu lhe dei casa, comida e um nome, mas mesmo assim ela nunca está satisfeita.</p>
<p>Para tornar minha vida ainda pior, meu empregador é um homem rude, mal-educado e dono, infelizmente, de riquezas que não sabe explorar. Tycho Brahe é o seu nome. </p>
<p>Ele me contratou para analisar e interpretar os milhares de dados que tem coletado dos céus ao longo dos anos. O castelo está equipado com os melhores instrumentos de medida, no entanto, por medo que eu roube suas informações, Brahe até agora não se dispôs a compartilhá-las comigo. Ele apenas me entrega tarefas tediosas, desprezando minhas qualidades como matemático e astrônomo. Essa situação tem deixado meus nervos à flor da pele. Barbara e Tycho conseguem despertar o pior de mim. Meus pensamentos estão sempre cheios de imagens nas quais os vejo mortos.</p>
<p>Preciso encerrar essas anotações (e escondê-las), pois Tycho está oferecendo mais um de seus jantares prolongados e copiosos. Um dia desses, ele irá estourar de tanto comer. Bem que esse dia podia ser hoje.</p>
<p>Castelo de Benatek, 24 de outubro de 1601. </p>
<p>Continua&#8230;</p>
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		<title>A HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA- PARTE 2</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Dec 2012 10:54:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Radioatividade e radiação são palavras feias. Palavras que assustam, fazendo-nos pensar em hecatombes nucleares e em uma terra povoada por mutantes deformados ou zumbis assassinos. Tenho certeza de que muitos pesadelos tiveram sua origem nas imagens de um planeta – nosso planeta! – devastado pela radiação. No entanto, você acreditaria que houve uma época na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Radioatividade e radiação são palavras feias. Palavras que assustam, fazendo-nos pensar em hecatombes nucleares e em uma terra povoada por mutantes deformados ou zumbis assassinos. Tenho certeza de que muitos pesadelos tiveram sua origem nas imagens de um planeta – nosso planeta! – devastado pela radiação.</p>
<p>No entanto, você acreditaria que houve uma época na qual cremes de beleza e pílulas radioativas eram utilizados porque se acreditava nos seus benefícios à saúde? Pois bem, trate, então, de acreditar, porque isso realmente aconteceu.</p>
<p>A busca por novas formas de energia é um sonho que acompanha o homem desde sempre. A água ou o vento movendo moinhos e barcos. Vapor fazendo funcionar máquinas que realizavam o trabalho de vários homens. A eletricidade iluminando cidades com o simples toque de um botão. Máquinas fantásticas que deixaram de ser apenas uma fantasia, alterando para sempre a face do mundo. </p>
<p>O problema era (e é!) que nenhuma dessas máquinas conseguia dar ao homem o que ele mais desejava: uma fonte de energia inesgotável e permanente. Para a tristeza de muitos, o chamado moto-perpétuo (máquina que funcionaria sem perdas de energia) nunca deixou de ser um sonho ou um delírio, sempre associado a mentes desequilibradas.</p>
<p>Entretanto, quando a radioatividade surgiu, ela transformou-se, por um curto período de tempo, na resposta para os problemas energéticos da humanidade e, por consequência, a bola da vez da ciência. E o mais estranho foi que, nessa época – final do século XIX –, muitos cientistas de renome – entre eles <strong>Lord Kelvin</strong> – acreditavam que nada mais havia a ser descoberto. </p>
<p>Tudo começou com a tentativa do físico inglês <strong>William Crookes</strong> de provar a existência de espíritos. Sim, você não leu mal, e-s-p-í-r-i-t-os. Como ele não conseguia explicar os fenômenos observados nas mesas mediúnicas – muito em moda no final do século XIX – decidiu usar a metodologia científica e os laboratórios à sua disposição para desenvolver essas pesquisas. Infelizmente para ele e felizmente para a ciência, seus experimentos “espirituais” convenceram poucas pessoas, mas no decorrer do processo algo importante aconteceu.</p>
<p>Ele construiu um tubo de vidro selado, de onde retirou todo o ar. Em cada extremidade desse tubo, colocou um eletrodo (condutor metálico por onde circula uma corrente elétrica). Toda vez que uma bateria era ligada a eles, as paredes do vidro ficavam fluorescentes. Como Crookes não tinha a mínima ideia do que era aquilo, chamou o fenômeno de “matéria radiante”. Mais tarde, outro William – o físico alemão <strong>William Röentgen</strong> –, utilizando esse mesmo tipo de tubo, declarou tratar-se de uma nova forma de energia, batizando-a de “raios X”.</p>
<p>Tente, agora, imaginar a comoção dos cientistas da época: em um tubo onde, aparentemente, não existia nada, surge um tipo de energia desconhecida (daí o nome raios X), invisível e tão potente que era capaz de atravessar o corpo humano (uma das primeiras imagens obtidas a partir dessa radiação foi a dos ossos da mão da esposa de Röentgen). Não havia como fingir desinteresse. E os cientistas da época nem tentaram.</p>
<p>Por essa razão não é de surpreender que outro físico tenha se jogado de cabeça nas pesquisas que envolviam os raios X. Estou falando do francês <strong>Henri Becquerel</strong>, autor de outra grande descoberta.</p>
<p>Como seu avô era um colecionador de cristais, Becquerel resolveu utilizar um deles em suas pesquisas. A escolha recaiu sobre sais de urânio, pois sabia que eles brilhavam no escuro. Assim, o físico francês, depois de “carregá-los” com luz solar, os fechou em uma gaveta junto com algumas placas fotográficas. O resultado foi o esperado: as placas ficaram marcadas pelo cristal. Ele repetiu a experiência diversas vezes, inclusive, sem “carregar” o urânio previamente e o efeito foi sempre o mesmo.</p>
<p>O estranho foi que, apesar dos resultados, Becquerel não quis prosseguir com os experimentos. Na verdade, ele se cansou deles, justamente por não ser capaz de explicar o que estava ocorrendo. Para nossa sorte – ou azar, depende do ponto de vista – quem assumiu o seu trabalho foi uma aluna de origem polonesa chamada <strong>Maria Skłodowska</strong>, mais conhecida como Marie Curie, nome que adotou após o casamento com outro físico francês, Pierre. Foram os dois que levaram as pesquisas adiante, descobrindo outros cristais com a mesma propriedade do urânio, sendo Marie a criadora da palavra radioatividade.</p>
<p>Detalhe importantíssimo: todas essas investigações foram realizadas sem nenhum tipo de proteção. Agora, posso quase ouvir você dizendo: “Que horror!!”. Sim, concordo, mas é preciso lembrar que esses eventos ocorreram no fim da década de 1890. E, naquela época, nenhum dos cientistas envolvidos entendia realmente com o que estava se metendo. Sabia-se apenas que a energia liberada era enorme e o fenômeno em si muito bonito. Crookes chegou a criar um dispositivo chamado “espintariscópio”. Esse equipamento continha uma minúscula porção de rádio (outro material radioativo) que ao ser observado com uma lupa permitia ver “um espetáculo infinito de estrelas cadentes”.<br />
É óbvio que com o tempo os efeitos colaterais não puderam ser simplesmente ignorados, pois as pessoas em vez de se curarem, adoeciam e morriam. <strong>Pierre Currie</strong>, antes de ser atropelado por uma carroça num dia chuvoso em Paris, já estava muito doente e hoje se acredita que ele tenha desenvolvido algum tipo de câncer nos ossos. Sua esposa, Marie, viveu um pouco mais, mas também morreu de uma doença “misteriosa” do sangue. E se formos mais fundo no necrológio dos cientistas que tomaram parte nas pesquisas com materiais radioativos veremos mais mortes por causas desconhecidas.</p>
<p>E hoje, século XXI, o que sabemos sobre a radioatividade?</p>
<p>Existem materiais – urânio, rádio, césio, polônio, entre outros – que sofrem o chamado “decaimento”, ou seja, emitem não só partículas subatômicas, mas também energia (radiação). Quando o decaimento ocorre o elemento se transforma em outro material mais estável. O problema – eu diria “O” grande problema – é que isso pode durar bilhões de anos!</p>
<p>E por que isso seria um problema?</p>
<p>Simples: esses materiais precisam ser armazenados de forma absoluta e completamente segura. Se isso não é feito, corre-se o risco de contaminar o planeta de forma irreversível, o que nos levaria aos mutantes e zumbis dos nossos pesadelos. De qualquer maneira, apesar de ninguém mais usar pasta de dente radioativa, a radioatividade continua muito presente em nossas vidas. Sem ela, não haveria mamografias, tomografias, radiografias e outras “ias” que possam existir. Graças a desbravadores como Crookes, Röentgen, Bequerel e o casal Curie temos equipamentos que nos fornecem diagnósticos mais precisos para doenças que há 100 anos matavam dolorosa e silenciosamente. </p>
<p>A essa altura, talvez você esteja pensando na bomba atômica ou em usinas nucleares. Com certeza, a bomba é algo realmente repulsivo, mas as usinas são apenas outra maneira de se obter a energia que precisamos para sustentar a sociedade da qual fazemos parte. A bomba não é uma opção. As usinas, no entanto, são uma possibilidade a ser considerada, desde que a segurança sempre esteja em primeiro lugar. Desculpem-me pelo clichê, mas a radioatividade é como qualquer criação humana; se vamos usá-la para criar ou destruir isso depende apenas de nós, o homo sapiens. Portanto, faço minhas as palavras do astrônomo e biólogo, <strong>Carl Sagan</strong> (1934-1996) quando pergunta: “E se o mundo não corresponde em todos os aspectos a nossos desejos, é culpa da ciência ou dos que querem impor seus desejos ao mundo?” </p>
<p>Eu sei qual é a minha resposta. Você sabe a sua?</p>
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		<title>A HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA &#8211; PARTE 1</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Nov 2012 01:47:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>
		<category><![CDATA[Aristóteles]]></category>
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		<description><![CDATA[Não é difícil alimentar pensamentos admiráveis quando as estrelas estão presentes. Marguerite Yourcenar Ele era mal-educado, despótico e irascível. Quando estudante, esteve em várias universidades e se envolveu em diversas brigas. Toda essa beligerância acabou levando-o a uma discussão com um colega – não se sabe o motivo – cujo resultado não foi nada agradável: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é difícil alimentar pensamentos admiráveis quando as estrelas estão presentes.<br />
<strong>Marguerite Yourcenar</strong></p>
<p>Ele era mal-educado, despótico e irascível. Quando estudante, esteve em várias universidades e se envolveu em diversas brigas. Toda essa beligerância acabou levando-o a uma discussão com um colega – não se sabe o motivo – cujo resultado não foi nada agradável: a perda de um pedaço do nariz.</p>
<p>O rapaz que acabo de descrever poderia ser confundido com qualquer jovem rebelde, possuidor de um temperamento difícil e, portanto, propenso a se envolver em confusões. No entanto, o rapaz em questão já está morto há mais de 400 anos. Ele nasceu no ano de 1546, na cidade de Skane, Dinamarca, e se chamava <strong>Tycho Brahe</strong>.</p>
<p>Desde muito moço, Brahe interessou-se pelo estudo dos corpos celestes. Além disso, para sorte das próximas gerações, ele tinha muito dinheiro. Assim, no momento em que pôs as mãos na fortuna deixada de herança por um tio, passou a adquirir os instrumentos de medida mais sofisticados de sua época. E quando não os encontrava, simplesmente os construía.</p>
<p>Para reforçar ainda mais esse seu interesse pela astronomia, teve a sorte de ver, na noite de 11 de novembro de 1572, o surgimento no céu de um objeto extremamente brilhante. Hoje se sabe que esse fenômeno resulta da explosão de uma estrela “velha”, mas, na época, Brahe – assim como nenhum outro astrônomo – não foi capaz explicar o que tinha observado. No entanto, ele percebeu algo muito mais importante: a concepção aristotélica do universo estava errada!</p>
<p>Desde o momento em que os escritos de Aristóteles foram trazidos, novamente, para a Europa pelos árabes, depois da invasão da península ibérica, muitas das ideias do filósofo grego – mentor de Alexandre – foram adotadas – após algumas adaptações – pelos sábios do ocidente. Uma dessas ideias era que os céus seriam uma “esfera de cristal”, na qual as estrelas eram fixas e cuja forma esférica perfeita e imutável fora obra de Deus. Portanto, não é de se estranhar que Brahe tenha se perguntado: “Se o céu é imutável, como se explica o fenômeno observado na noite de novembro de 1572?”</p>
<p>Na verdade, o astrônomo dinamarquês, sob o efeito daquela “visão”, não foi em busca de explicações que justificassem o modelo de universo vigente. Ao contrário, tornou-se a obsessão de sua vida encontrar provas capazes de derrubá-lo. </p>
<p>Como sua fama era cada dia maior, em 1575 o rei Frederick II, da Dinamarca, doou-lhe uma ilha inteira – chamada Hveen – e nela ele fez construir um enorme complexo, o Castelo de Urânia (musa da astronomia e da astrologia). Nesse lugar, além da residência da família, havia quartos destinados aos astrônomos visitantes, laboratório alquímico, tanques de peixes, jardim botânico, curtume, moinho de farinha, tipografia e uma fábrica de papel. Enfim, um gigantesco observatório, dedicado não só a mapear os céus, mas também ao de construir instrumentos de medida de grande precisão. Poderíamos dizer que o Castelo de Urânia era uma espécie de CERN (Centro Europeu para a Pesquisa Nuclear) do final do século XVI.</p>
<p>Tudo teria transcorrido maravilhosamente bem se o gênio irascível de Brahe não houvesse se manifestado. Quando o rei Frederick faleceu, um novo soberano subiu ao trono da Dinamarca – seu filho, o rei Cristiano IV – que, como era natural, tinha suas próprias ideias sobre como gastar o dinheiro da coroa. Ninguém sabe qual foi a causa do desentendimento entre o novo rei e Brahe – suspeita-se de um choque (ou colisão!) de egos – o certo é que o resultado foi o pior possível: Brahe, sua família, todos os seus instrumentos e observações foram obrigados a abandonar a ilha de Hveen. Esse “êxodo” ocorreu em 1597.</p>
<p>E, novamente, foi a fama de astrônomo admirável que veio em seu socorro, salvando-o de uma vida errante. Nomeado matemático imperial pelo rei Rodolfo II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, rei da Boêmia e da Hungria, recebeu, a título de pagamento, o Castelo de Benaltky, local onde pode prosseguir com suas observações e medições.</p>
<p>Contudo, apesar de toda a fama, Tycho no fundo reconhecia suas limitações. Ele, ano após ano, compilava dados e mais dados, sem conseguir dar um passo mais seguro no sentido de contradizer o modelo astronômico em vigor na época. Assim, decidiu que o melhor seria adotar uma espécie de modelo híbrido. </p>
<p>A representação aceita nesse período era a defendida pelo astrônomo grego <strong>Ptolomeu</strong>. Nela a Terra estava no centro do universo, enquanto o Sol e os outros corpos celestes moviam-se a sua volta. Pois bem, Brahe ficou a meio caminho entre a doutrina ptolomaica e aquilo que há anos era objeto de suas observações. Assim, para ele, apenas o Sol e a Lua girariam em torno da Terra, enquanto todos os outros corpos celestes giravam em torno do Sol. O problema era que essa ideia, ao romper apenas parcialmente com o antigo modelo, não conseguia explicar as inconsistências que já começavam a aparecer entre a prática – o que era observado no céu – e a teoria.</p>
<p>Brahe estava nessa verdadeira encruzilhada quando um matemático pobre, enfermiço e infeliz, surgiu em seu caminho. Se eu acreditasse em astrologia, diria que nesse encontro houve uma combinação “mágica” de elementos astrais. Talvez Brahe – que era também astrólogo – tenha tido algum tipo de pressentimento. Não sei. Ninguém sabe. O fato foi que ele acabou contratando-o como seu matemático e astrônomo particular. O contratado era, nada mais, nada menos, que um dos melhores matemáticos da época, o alemão <strong>Johanes Kepler</strong>. </p>
<p>Os primeiros meses de convívio não foram fáceis. Brahe se mostrava ainda mais possessivo e controlador com os registros que há tanto tempo “colecionava”. Ele fornecia a conta-gotas os dados referentes às suas observações astronômicas, impedindo que Kepler formasse uma ideia mais clara do conjunto. </p>
<p>De qualquer maneira, esse jogo de esconde-esconde não durou muito tempo. Um ano e meio depois da chegada de Kepler ao Castelo de Benatky, Brahe morreu em condições misteriosas. Os historiadores acreditam que a sua morte tenha sido consequência de uma infecção urinária. No entanto, os adeptos de teorias da conspiração defendem a ideia de envenenamento por mercúrio. Alguns, inclusive, acreditam que Kepler tenha sido o autor desse suposto “assassinato”, pois essa seria a única forma de ter acesso às informações que Brahe, com tanto zelo, escondia.</p>
<p>Particularmente não tenho nenhum interesse em descobrir a forma como Brahe morreu, apenas posso lamentar. Contudo, o fato é que do encontro desses dois homens – aparentemente incompatíveis e, com certeza, imperfeitos – a face do mundo mudou de forma radical.<br />
As informações coletadas por Brahe ao longo de toda uma vida e interpretadas pelo gênio inconteste de Kepler retiraria, enfim, a Terra e, por consequência, o homem do centro do universo. Essa mudança de modelo cosmológico tornar-se-ia um verdadeiro tsunami. A partir da consolidação do modelo heliocêntrico, a humanidade passaria a questionar-se mais profundamente sobre temas transcedentais do tipo: quem somos, de onde viemos e para onde desejamos seguir. E como para essas perguntas ainda inexistem respostas satisfatórias, talvez devêssemos torcer para que nesse exato momento, em algum lugar do planeta, estejam nascendo crianças que, a exemplo de Tycho Brahe e Johanes Kepler, venham a buscar nos céus a chave que nos permitirá entender, não só o passado mas, principalmente, o futuro. </p>
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