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	<title>Argumento.net &#187; QUEDA LIVRE</title>
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	<description>CADA ARGUMENTO NO SEU GALHO</description>
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		<title>UM FÍSICO NO DIVÃ &#8211; PARTE TRÊS</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 11:19:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[- Qual foi mesmo o nome que ele deu para esse sonho? - O Relógio do Mundo. - Interessante. E o desenho também é dele? - Sim. Aliás, há algum tempo ele está desenhando seus sonhos. - Interessante. Erna Rosembaum e Carl Jung estavam confortavelmente sentados em duas poltronas no aconchegante escritório deste último. Na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Qual foi mesmo o nome que ele deu para esse sonho?</p>
<p>- O Relógio do Mundo.</p>
<p>- Interessante. E o desenho também é dele?</p>
<p>- Sim. Aliás, há algum tempo ele está desenhando seus sonhos.</p>
<p>- Interessante.</p>
<p>Erna Rosembaum e Carl Jung estavam confortavelmente sentados em duas poltronas no aconchegante escritório deste último. Na lareira, um fogo aquecia o ambiente, enquanto na rua a neve não parava de cair. Espalhados sobre uma mesa, estavam alguns desenhos e anotações, todos feitos pela mesma pessoa, o físico Wolfgang Pauli.</p>
<p>- Olhe que interessante – apontou Jung para a folha em sua mão. – Há um círculo vertical e outro horizontal com um centro comum e ambos estão sendo carregados por um pássaro negro. Contudo, tanto o círculo vertical como o horizontal estão divididos. O primeiro em 32 partes e o horizontal em quatro cores. E veja – voltou a apontar – o “relógio” tem três pulsações diferentes. Interessante. Muito interessante.</p>
<p>Erna sabia que seu ex-professor estava tentando interpretar as imagens produzidas pela mente de Pauli. Ele andava fascinado com os sonhos do físico. Além disso, Jung tinha certeza de estar perto de comprovar e explicar uma de suas teorias mais importantes: a influência dos símbolos durante o processo de síntese do inconsciente. Pauli já trouxera para análise mais de 300 sonhos e todos, sem exceção, foram parar nas mãos do médico.</p>
<p>- <em>Herr Doktor</em>, esse sonho abalou profundamente meu paciente. No entanto, ao contrário do que aconteceu das outras vezes, foi um abalo positivo. Ele disse ter sentido uma “suprema harmonia”, como se algo, que ele ainda não é capaz de descrever ou explicar, tenha sido solucionado.</p>
<p>- Compreendo – disse Jung. – Nesse desenho é possível perceber o terrível conflito do seu paciente. Na forma de símbolos, uma espécie de mandala tridimensional, ele expõe o fato de estar completamente dividido entre os apetites da matéria e o seu amor a Deus. Em relação a isso, ele já lhe disse por que abandonou a Igreja Católica?</p>
<p>- De maneira explícita, ainda não. No entanto, acredito que tudo está, de alguma forma, relacionado com a morte da mãe. Ao mesmo tempo em que se sente traído, não consegue superar o sentimento de culpa por não ter notado o que ela pretendia fazer. Porém, a causa de seus problemas com as outras mulheres reside mais no sentimento de traição do que no de culpa. Afinal, se a própria mãe foi capaz de abandoná-lo, matando-se, o que ele pode esperar das outras mulheres?</p>
<p>Jung nada disse. Na verdade, ele parecia não a estar ouvindo. Seu olhar vagava dos desenhos para as anotações.</p>
<p>- Você tem certeza de que ele nada sabe sobre psicologia? – perguntou o médico.</p>
<p>- Sim. Quando ele chegou até mim – por seu intermédio, o senhor deve se lembrar –, além de não saber nada sobre psicologia, e muitos menos sobre psicologia analítica, sua mente estava fechada para qualquer referência a realidades que não pudessem ser comprovadas cientificamente. Contudo, desde que ele começou a anotar seus sonhos e a se envolver com a terapia isso vem mudando gradativamente.</p>
<p>- Sim, sim. Isso já pode ser percebido nesses desenhos, em especial, naquele que ele chamou de O Relógio do Mundo – disse o médico, enquanto voltava a analisar a figura.</p>
<p>Erna conhecia Jung há bastante tempo, no entanto, nunca havia se acostumado com o hábito de seu ex-professor de falar como se estivesse sozinho. Era preciso chamá-lo à realidade para que ele compartilhasse suas ideias.</p>
<p>- <em>Herr Doktor</em>, por favor, o senhor sabe que o meu conhecimento sobre arquétipos é insuficiente para realizar qualquer tipo de análise. Preciso, portanto, que o senhor me oriente na melhor forma de conduzir o tratamento – pediu Erna.</p>
<p>- Sim, sim. Compreendo a sua preocupação. Mas, querida, perceba, esse homem já está procurando recursos dentro do seu inconsciente para lidar com essas memórias recalcadas que tanto o atormentam. A morte da mãe, ou melhor, a forma como a mãe morreu, fez com que ele passasse a questionar sua condição de homem. Ele agora precisa encontrar a conexão entre a sua psique e a realidade que o cerca. Nisso reside o significado mais profundo do Relógio do Mundo: ele é a representação simbólica da união de sua alma com Deus.</p>
<p>- Mas, <em>Herr Doktor</em>, como ajudá-lo a compreender esse emaranhado de sentimentos que tanto sofrimento tem lhe causado? – perguntou Erna.</p>
<p>Jung sorriu e, com tranquilidade, respondeu:</p>
<p>- Minha cara Erna, você esqueceu qual a profissão do seu paciente?</p>
<p>- Físico, eu sei. Contudo, é justamente isso que está atrapalhando. Sua mente nega o intuitivo, acreditando apenas no que a razão pode provar.</p>
<p>- No entanto, você disse que ele já começa a crer na existência de outras realidades e, consequentemente, de outras verdades. Utilize, então, a Ciência que ele tanto respeita e ama a favor do tratamento. Vejo por suas últimas anotações que ele está muito envolvido em tentar provar a presença de uma partícula que ninguém até agora conseguiu descobrir. Faça-o estabelecer uma relação entre o que ele busca como cientista e a sua vida pessoal.</p>
<p>Erna sabia que, como sempre, Jung estava certo. Contudo, ela ainda tinha muitas dúvidas na forma de encaminhar a terapia. Talvez, se Pauli não fosse um homem com uma inteligência extraordinária, o seu trabalho como terapeuta fosse mais facilitado. Ela estava justamente pensando em outras questões para discutir com seu ex-professor quando ele a interrompeu:</p>
<p>- Cara Erna, chega de falarmos de trabalho. É hora do nosso chá. E você sabe como <em>Frau</em> Emma é rigorosa quando se trata das refeições em família. Vamos levante-se, tenho certeza de que depois de uma boa xícara de chá tudo ficará mais claro para você.</p>
<p>Sabedora de que não adiantava discutir, Erna levantou-se para acompanhar o médico. Essa era a forma de ele lhe dizer que tinha absoluta confiança no seu trabalho. Além disso, ele sutilmente lhe advertia que <em>Herr</em> Pauli estaria a sua espera na manhã seguinte, mas o chá de <em>Frau</em> Emma não.</p>
<p>Continua&#8230;</p>
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		<title>UM FÍSICO NO DIVÃ &#8211; PARTE DOIS</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 23:30:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[- O que você sente quando é grosseiro com seus colegas? – perguntou a médica. - Em primeiro lugar, não vejo como possa ser grosseria dizer a verdade. Meus colegas são cientistas – físicos –, assim como eu, portanto, devem estar preparados para ouvir a verdade. Em segundo lugar, se os trabalhos que eles me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- O que você sente quando é grosseiro com seus colegas? – perguntou a médica.<br />
- Em primeiro lugar, não vejo como possa ser grosseria dizer a verdade. Meus colegas são cientistas – físicos –, assim como eu, portanto, devem estar preparados para ouvir a verdade. Em segundo lugar, se os trabalhos que eles me apresentam são um lixo, em nome da Ciência, não posso simplesmente calar para não ferir os seus sentimentos. Afinal, não somos mais crianças.<br />
- Quando você diz que não é grosseria falar a verdade, a qual verdade está se referindo? – quis saber a médica.<br />
- E existe mais de uma? Para um físico há apenas a verdade científica, o fato, o que pode ser provado. Até mesmo quando estamos desenvolvendo uma teoria – algo que ainda não foi testado – sabemos que em algum momento a verdade por de trás do fenômeno irá se revelar, mesmo que seja para ser refutada. É apenas uma questão de tempo e paciência.</p>
<p>Enquanto Pauli dissertava, Erna limitava-se a ouvir e a fazer rápidas anotações.<br />
Pauli era um homem extremamente inteligente e, portanto, dono de uma personalidade complexa. No entanto, a sua visão unilateral dificultava muito certas abordagens mais heterodoxas. Por esse motivo, Erna resolveu que já era hora de provocá-lo. Queria testar até onde iriam as suas convicções sobre o que ele chamava de verdade.</p>
<p>- E quanto à morte de sua mãe? – inquiriu a médica.<br />
Imediatamente a atmosfera do consultório se alterou. A postura professoral mantida até agora por Pauli foi abandonada e a sua tensão tornou-se evidente.<br />
- O que isso tem a ver com a nossa discussão? – perguntou na defensiva.<br />
- Não sei. Você é que deve me dizer – Erna respondeu com tranquilidade. – Você consideraria a atitude de sua mãe um “lixo”? Ou, para você, ela é um “lixo”?<br />
O olhar lançado por Pauli teria feito gelar o sangue de qualquer um. Contudo, Erna estava preparada. Dessa vez ela não deixaria que ele escapasse ou se escondesse.<br />
- Minha mãe era uma escritora, uma intelectual – disse Pauli, visivelmente perturbado. – Ela não era um “lixo”!<br />
- Muito bem, sua mãe não era um “lixo”. Então, sua decisão de se matar pode ser considerada um “lixo”? – insistiu a médica.<br />
Silêncio. Erna esperou. Ela sabia que estava pisando em terreno perigoso, mas para que a terapia pudesse ter alguma chance de sucesso era preciso que Pauli enfrentasse um dos seus piores pesadelos: a morte da mãe.<br />
Depois de alguns minutos ele finalmente começou a falar. Agora sem aquela posse arrogante, marca do seu comportamento nas últimas semanas.</p>
<p>- Minha mãe – disse devagar – não suportou conviver com as traições de meu pai. Por debaixo da máscara de mulher cosmopolita e intelectualizada, havia uma pessoa frágil, carente de afeto e atenção. Infelizmente, todos nós nos deixamos iludir por sua aparência alegre e despreocupada, bem ao estilo dos atores de teatro que frequentavam a nossa casa.<br />
- Você quer dizer – interrompeu Erna – que a sua mãe representava um papel?<br />
- Sim. E eu fui suficientemente tolo e cego para não perceber.<br />
- Você acredita que se tivesse percebido essa outra realidade poderia ter evitado que ela se envenenasse?<br />
- Não sei – respondeu Pauli. – Mas se eu soubesse, se ao menos suspeitasse, talvez pudesse tê-la impedido.<br />
- Perdoe-me, mas você não acha que está exagerando nessa atitude de “Dono da Verdade”? Talvez o seu problema seja considerar-se um deus, capaz de ver o que ninguém vê ou profetizar eventos futuros – provocou a médica.</p>
<p>O choque nos olhos de Pauli era evidente. Ele não estava esperando ser tratado daquele modo. Aproveitando-se do abalo produzido ela prosseguiu:<br />
- Você vive comentando que a maioria das ideias de seus colegas é um lixo. Como você definiria o que acaba de me contar? Lixo?! – Sem dar chance a Pauli de responder, Erna olhou de maneira ostensiva para o relógio. – Bem, como o nosso tempo está terminando vou lhe dar uma tarefa. Você deve analisar, com todo o cuidado, o encontro de hoje. Examine suas palavras como se fosse uma de suas teorias. Aplique o método de análise que preferir, e tente, apenas tente enxergar as outras verdades por detrás de tudo o que conversamos.</p>
<p>Bastante abalado, Pauli levantou-se da poltrona e em silêncio dirigiu-se para a porta. Quando já estava saindo, Erna o chamou:<br />
- Herr Pauli, mais uma coisa: não se esqueça de continuar anotando os seus sonhos. Em nosso próximo encontro falaremos sobre eles. </p>
<p>E com um aceno da cabeça a médica deu a consulta por encerrada.</p>
<p>(Continua&#8230;)</p>
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		<title>UM FÍSICO NO DIVÃ &#8211; PARTE UM</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Dec 2011 21:14:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[- Por que eu, Herr Doktor? – perguntou a jovem mulher. - Ora, minha querida, depois do que lhe contei, não lhe parece óbvio? - Na verdade, não. O senhor não acaba de dizer que se trata de um homem que apresenta enormes dificuldades de se relacionar com mulheres? - Justamente. Tratar-se com uma mulher, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Por que eu, Herr Doktor? – perguntou a jovem mulher.<br />
- Ora, minha querida, depois do que lhe contei, não lhe parece óbvio?<br />
- Na verdade, não. O senhor não acaba de dizer que se trata de um homem que apresenta enormes dificuldades de se relacionar com mulheres?<br />
- Justamente. Tratar-se com uma mulher, uma jovem mulher, poderá ajudá-lo a superar essas dificuldades. É claro que caberá a você estabelecer os limites desse relacionamento, mostrando que, ao contrário de todas as outras mulheres, você é merecedora da sua confiança. Nos últimos anos, ele tem agido como um verdadeiro idiota quando se trata de mulheres, e logicamente elas acabam perdendo a paciência com ele.<br />
- Tudo bem. No entanto, o senhor também teve a impressão de que esse homem está repleto de material arquetípico. Minha experiência como médica não abrange esse tipo de conhecimento. Como farei para que esse material aflore?<br />
- Minha querida Erna, você já devia saber que nós, os médicos, pouco fazemos. Na verdade, todo o esforço deve vir do paciente. Portanto, você deverá apenas orientá-lo e eu, com certeza, estarei sempre por perto para apoiá-la no que for preciso – disse o médico.</p>
<p><strong>Erna Rosembaum </strong>percebeu que não adiantava insistir. Quando seu velho mestre decidia sobre o tratamento de um paciente era muito difícil dissuadi-lo do contrário. Seu ex-professor era um médico excepcional e ela tinha muita sorte de ser sua assistente. Portanto, resignada, resolveu que o melhor seria conseguir o máximo de informações.<br />
- Supondo que eu resolva tratar esse homem, que outros dados o senhor pode me oferecer sobre ele?<br />
O médico sorriu internamente. Sabia que a batalha fora ganha. Erna era uma novata na área da psicanálise, mas confiava nela. Ela já havia provado inúmeras vezes a sua competência e habilidade. Além disso, era importante que ele se mantivesse afastado do tratamento, pois não desejava influenciar com a sua experiência o material psíquico que esse homem traria para análise. No entanto, precisava esclarecer alguns pontos para que a terapia começasse da melhor forma possível.<br />
- Trata-se, como já lhe expliquei, de um homem jovem com uma personalidade fora do comum – começou a dizer o médico. – Um professor universitário e um cientista. Contudo, recentemente, uma série de acontecimentos em sua vida desencadeou uma grave crise emocional. O resultado disso é que ele começou a beber, tornando-se extremamente irritadiço e até mesmo violento. Já esteve envolvido em várias brigas, chegando a ser posto para fora de um restaurante, depois de levar uma bela surra.<br />
Durante a explicação, Erna se limitou a fazer algumas anotações, abstendo-se de qualquer comentário. Conhecendo o médico, intuiu que ele não tinha revelado tudo. Fazia parte da sua forma de ensinar manter seus alunos no escuro para que eles, sozinhos, escolhessem suas próprias estratégias de tratamento. Largando o lápis, Erna olhou para o ex-professor e disse:<br />
- Bem, Herr Doktor, parece que terei muito trabalho pela frente, e se o conheço bem, o senhor já deve ter marcado a primeira consulta. Quando meu novo paciente virá me procurar?<br />
- Amanhã – disse o médico. – E seu estado de confusão e abatimento é tal que, mesmo tendo tantos problemas com as mulheres, ele não esboçou qualquer contrariedade em começar o tratamento com você.<br />
- Fico satisfeita em saber. Afinal, parece que eu e o senhor&#8230;? Meu Deus! Estamos há horas discutindo e em nenhum momento o nome desse homem foi mencionado. Como ele se chama?<br />
- <strong>Wolfgang Ernst Pauli </strong>– respondeu <strong>Carl Gustav Jung</strong>.</p>
<p>Continua..</p>
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		<title>O QUASE NADA</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Dec 2011 22:55:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Tanto o insignificante quanto o extraordinário são arquitetos do mundo natural. Carl Sagan Ele é uma coisinha insignificante. Um quase nada. Um quase algo. E esse é o problema: o quase. Se ele simplesmente não fosse, talvez não provocasse tantas confusões. É, com certeza, uma criaturinha difícil, além, é claro, de desprezível. Como lidar com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Tanto o insignificante quanto o extraordinário são arquitetos do mundo natural. </em>Carl Sagan</p>
<p>Ele é uma coisinha insignificante. Um quase nada. Um quase algo. E esse é o problema: o quase. Se ele simplesmente não fosse, talvez não provocasse tantas confusões. É, com certeza, uma criaturinha difícil, além, é claro, de desprezível.</p>
<p>Como lidar com algo que quase não se vê? Como discutir com o quase imponderável? Como conhecê-lo se ele se nega a interagir? Como?</p>
<p>E mesmo assim sua capacidade de perturbação parece infinita. Sua existência insignificante já pôs em polvorosa o universo em mais de uma vez. Leis importantes têm sido colocadas em dúvida pela simples razão de ele ser do jeito que é.</p>
<p>Na primeira vez, por sua causa, a discórdia quase levou a uma ruptura que não só dividiu homens, mas também, e principalmente, ideias. Sua não existência comprometeu o conceito basilar de que nada se perde ou se cria, mas tudo se transforma. Essa coisinha insignificante conseguiu colocar sob suspeita uma das leis mais importantes do universo! E por causa dele o cisma foi quase completo, comprometendo, inclusive, o curso normal da história.</p>
<p>No entanto, graças a esse caos, a sua verdadeira natureza enfim foi descoberta. Ele não tornou essa tarefa fácil. Ao contrário. Como não desejava ser observado, escondeu-se, dificultando ainda mais o trabalho daqueles que queriam conhecê-lo. Afinal, como se pode ver algo que praticamente não interage com outros elementos do mundo material? A resposta surgiu quando se agrupou em um mesmo lugar um número enorme deles reduzindo as chances de continuarem se escondendo. Nesse momento ele não pode mais se ocultar, sendo obrigado a assumir a sua real forma.</p>
<p>Viu-se, então, que a sua insignificância era maior do que se pensava. Apesar de existir em grande quantidade no cosmos, não tem carga, é extremamente leve e a sua capacidade de interação é quase nula. Um estranho no ninho, dentro de um universo em perfeito equilíbrio.</p>
<p>De qualquer maneira, quando a sua existência foi aceita, as dúvidas sobre a “grande lei” foram em definitivo sepultadas. Ele era o elemento que faltava para que todos reconhecessem que nada se perde ou se cria, apenas se transforma. No entanto, esse quase nada ainda não tinha esgotado a sua capacidade de perturbar. Muito pelo contrário.</p>
<p>Agora essa coisinha insignificante está no centro de uma nova discussão. Começam a dizer que ele pode viajar a velocidades superiores a da luz. Pior. Afirmam que isso foi de alguma forma observado e medido. Como é possível? Ou melhor, isso é possível? De novo o tumulto, o caos e a possibilidade da ruptura. Novamente esse quase algo colocando em dúvida outra grande ideia.</p>
<p>A diferença é que agora há mais cautela na aceitação plena dessa hipótese. A possibilidade esbarra no fato e a teoria na experiência. E enquanto isso não for resolvido, tudo ficará apenas no terreno do pode ser.</p>
<p>Contudo, é inegável o dom desse “indivíduo” de provocar confusão. Como algo tão pequeno, tão absurdamente desprezível pode ser o centro de tanta discórdia? Difícil de entender. No entanto, é assim que o mundo funciona, pelo menos na ciência. Pequenas coisas podem gerar grandes movimentos. Coisinhas insignificantes podem, inclusive, deslocar o universo da sua zona de conforto. E é exatamente isso o que está acontecendo nesse momento. Qual será o resultado de tanta discussão ninguém sabe; talvez apenas mais alvoroço.</p>
<p><strong>⃰⃰⃰ ⃰ ⃰ ⃰ ⃰ ⃰⃰⃰ ⃰ ⃰ ⃰ ⃰</strong></p>
<p>O <strong>neutrino</strong> é uma <a title="Partícula subatômica" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Part%C3%ADcula_subat%C3%B4mica">partícula subatômica</a> sem <a title="Carga elétrica" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Carga_el%C3%A9trica">carga elétrica</a> e que interage com outras partículas apenas por meio da <a title="Força gravitacional" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/For%C3%A7a_gravitacional">interação gravitacional</a> e da força <a title="Força fraca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/For%C3%A7a_fraca">fraca</a> (força que liga as partículas que contituem o átomo). A sua existência foi prevista pelo físico Wolfgang Pauli, em 1931. No entanto, ele só foi detectado 25 anos depois, em 1956, em um experimento com reatores nucleares feitos pelos físicos americanos Clyde Cowan e Frederick Reines, que deu a Reines o Prêmio Nobel de Física em 1995.</p>
<p>Uma investigação científica, divulgada em setembro de 2011, pelo Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN) questionou a Teoria da Relatividade de Einstein, ao sugerir que os <strong>neutrinos</strong> viajariam a uma velocidade superior à da luz. No experimento inicial essas partículas teriam alcançado uma velocidade 60 nanosegundos mais rápida do que a luz.</p>
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		</item>
		<item>
		<title>A HISTÓRIA DE MF – PARTE FINAL</title>
		<link>http://www.argumento.net/colunas/queda/a-historia-de-mf-%e2%80%93-parte-final/</link>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 02:55:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eletricidade. Esse assunto o fascinou desde o início. Quando foi convidado a escrever sobre os trabalhos do físico dinamarquês Oersted, sentiu que estava entrando em um universo novo e, portanto, ainda pouco explorado. Há algum tempo, Oersted estava tentando estabelecer uma relação entre os fenômenos elétricos e magnéticos. Porém, foi somente em 1820 que esse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eletricidade. Esse assunto o fascinou desde o início. Quando foi convidado a escrever sobre os trabalhos do físico dinamarquês Oersted, sentiu que estava entrando em um universo novo e, portanto, ainda pouco explorado. Há algum tempo, Oersted estava tentando estabelecer uma relação entre os fenômenos elétricos e magnéticos. Porém, foi somente em 1820 que esse cientista, para espanto de muitos colegas, conseguiu provar sua teoria, mostrando que um fio metálico conduzindo corrente elétrica provocava um desvio na direção de uma agulha magnética.</p>
<p>Ele ainda lembrava o alvoroço que essa experiência havia causado na comunidade científica. Afinal, até aquele momento, eletricidade e magnetismo eram dois fenômenos distintos. De imediato passou a estudar com afinco redobrado as diversas possibilidades surgidas com essa descoberta. Foi um período de muitas novidades e conquistas em sua vida.</p>
<p>A publicação do resultado de suas pesquisas sobre a influência de uma corrente elétrica sobre um ímã permitiu que ele, por fim, conquistasse o reconhecimento da comunidade acadêmica. Esse trabalho lhe rendeu um convite para se tornar membro efetivo da <em>Royal Institution</em>, honraria concedida apenas aos cientistas de renome mundial. Ele havia saído da posição de um simples assistente para diretor dos laboratórios.</p>
<p>Lamentava apenas que a mãe já não estivesse viva para vê-lo alcançar tão alto posto. “Pobre mamãe”, voltou a pensar. Ela tinha passado a vida inteira trabalhando com o único propósito de dar a ele e a seus irmãos um pouco de segurança. Será que alguma vez ela havia imaginado que o emprego com o Sr. Riebau seria o trampolim para o filho começar uma carreira científica?</p>
<p>Lembrar novamente da mãe trouxe lágrimas aos seus olhos e, com elas, a pena de si mesmo. Ele não conseguia compreender as razões de estar sendo tão severamente punido. Durante o período de sua doença, havia se preparado para a morte, porque tinha certeza de que, ao passar para o outro lado, uma nova vida o estaria esperando. Contudo, aqui estava ele, completamente só e entregue às suas memórias, longe da família e do trabalho que tanto amava.</p>
<p>Seria o seu destino permanecer preso ao pedaço de carne que um dia fora o seu corpo? Não queria acreditar nisso. Fechando os olhos, refugiou-se novamente em suas lembranças. Agora, estava de volta a 1831, o ano de sua descoberta mais importante.</p>
<p>O trabalho custara horas de estudo e de repetidas experiências. Precisava ter certeza de que estava no caminho certo. Enrolando várias voltas de um fio metálico em torno de um anel de ferro, ligou-o a um galvanômetro a fim de medir a corrente elétrica. Em seguida, ao redor desse mesmo anel, montou outra bobina, tomando o cuidado para que elas não se tocassem, ligando-a depois a uma bateria. No momento exato que fazia essa ligação, ele percebeu que a agulha do galvanômetro dava um salto. Do mesmo modo, ao desligar a bateria, a agulha voltava a pular.</p>
<p>No início pensou que o movimento da agulha se devia ao ato de ligar e desligar a bateria. No entanto, após repetir o experimento várias vezes percebeu que a corrente surgia a partir do movimento da bobina, ou seja, do anel de ferro. Ele não parou por aí. Com mais experiências, constatou que, desejando obter uma corrente contínua em um fio condutor, bastava deslocar o ímã ininterruptamente e, se o objetivo era elevar a intensidade da corrente elétrica, precisava-se apenas aumentar a velocidade do ímã.</p>
<p>Quando todo esse trabalho experimental estava finalmente concluído, ele apresentou suas observações ao <em>Royal Institution</em>, num livro intitulado <strong>Pesquisas</strong><strong> Experimentais em Eletricidade. </strong>Ele só não foi capaz de dar um tratamento matemático aos resultados de suas pesquisas. Como todos sabiam, ele nunca havia tido uma educação formal.</p>
<p>Suas experiências lhe deram tanta fama que, apesar de nunca ter tido uma instrução escolar completa, recebeu o Diploma Honorário de Oxford e a medalha <em>Copley</em> da <em>Royal Institution</em>. Olhando para a roupa, percebeu que havia sido enterrado não só com essa condecoração, mas com todas as outras que recebeu depois. Aquilo o desagradou um pouco. Afinal nunca quis aquelas homenagens, se fosse assim teria aceitado o título de cavaleiro que a Rainha havia lhe oferecido. Pensando bem, o que diplomas, títulos e medalhas poderiam fazer por um morto?</p>
<p>O estranho é que ele não estava triste ou revoltado com a morte. Ela não só o tinha libertado das dores terríveis de cabeça que o atormentaram até os últimos minutos de vida, como ainda devolvera suas lembranças mais importantes. Ele apenas não conseguia entender o porquê dessa espera angustiante. Deus, talvez, estivesse querendo lhe dar alguma lição.</p>
<p>A verdade era que, além de confuso, estava cansado. Muito cansado. Há dias evitava dormir. Tinha medo do que poderia acontecer caso dormisse. No entanto, pela primeira vez desde que havia despertado naquele cemitério, desejava o esquecimento e a inconsciência do sono. Não importava se nunca mais acordasse, ele apenas não queria continuar sendo uma sombra, um fantasma de si mesmo. Assim, quando fechou os olhos, dormiu tão rapidamente que nem mesmo percebeu a estranha luz que começava a envolvê-lo.</p>
<p>Quando amanheceu, o vigia, em sua última ronda, voltou a passar pela mais nova sepultura do cemitério de Highgate. Na lápide, a inscrição simples pouco dizia do homem que ali fora enterrado:</p>
<p><em>Michael Faraday</em></p>
<p><em>Nasceu 22 de setembro de 1791</em></p>
<p><em>Morreu 25 de agosto de 1867</em></p>
<p><strong>*****</strong></p>
<p>Os trabalhos de Faraday foram mais tarde utilizados por James Clerk Maxwell para desenvolver as suas famosas equações do campo eletromagnético – que permitiram estabelecer a natureza eletromagnética da luz – e por Albert Einstein para elaborar a Teoria da Relatividade.</p>
<p>Seu gosto pela simplicidade fez com que recusasse por duas vezes a presidência da <em>Royal Society</em> e declinasse da oferta real de Sua Majestade, a Rainha Vitória, do Grau de Cavaleiro – Sir. <em>“</em><em>Tenho de permanecer simplesmente Michael Faraday até ao fim</em>”, explicara<em> </em>agradecendo. Do mesmo modo, deixou claro que era seu desejo <em>“</em><em>um</em><em> funeral simples e modesto, onde apenas compareça a minha família, seguido de uma lápide do gênero mais comum, no mais singelo palmo de terra</em><em>”.</em> Sua última vontade foi respeitada, impossibilitando que ele fosse sepultado na Abadia de Westminster ao lado de Isaac Newton.</p>
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		<title>A HISTÓRIA DE MF &#8211; PARTE II</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Nov 2011 11:59:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos tempos da Sociedade Filosófica de Ciência – lugar do qual fora um assíduo frequentador – não havia tema que não o encantasse ou assunto que não despertasse nele enorme curiosidade. Depois de cada palestra, ele encadernava todas as anotações, transformando-as em livros que eram mais tarde utilizados em seus estudos e pesquisas. De repente, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos tempos da Sociedade Filosófica de Ciência – lugar do qual fora um assíduo frequentador – não havia tema que não o encantasse ou assunto que não despertasse nele enorme curiosidade. Depois de cada palestra, ele encadernava todas as anotações, transformando-as em livros que eram mais tarde utilizados em seus estudos e pesquisas.</p>
<p>De repente, percebeu que conseguia lembrar com minúcias de todos os fatos de sua vida. Nos últimos nove anos, padecera de uma doença que lhe tinha causado longos períodos de perda de memória. Havia dias que não lembrava nem mesmo do seu nome. No entanto, agora, podia reconstituir sua vida passo a passo, detalhe a detalhe.</p>
<p>Portanto, foi fácil lembrar o ano que sempre considerou como sendo o divisor de águas da sua vida: 1812. Mais especificamente, 15 de março de 1812. Nesse dia acompanhou um amigo até a renomada <em>Royal Institution </em>para assistir a uma série de palestras. O principal conferencista era o professor de química e brilhante pesquisador, Sir Humphry Davy. Sorriu com a lembrança. Apesar de já terem se passado 55 anos, era como se estivesse lá nesse momento, ouvindo novamente Sir Humphry explanar sobre seus trabalhos em eletroquímica. Foi naquele dia que decidiu abandonar o seu trabalho com a Sr. Riebau. Ele queria ser um homem de ciência. </p>
<p>Seu assédio a Sir Humphry começou com uma carta na qual se candidatava a um emprego na Royal Institution. Para tornar o pedido mais atraente enviou junto com a mensagem os apontamentos que havia feito durante as palestras, acrescidas de seus próprios comentários e, é claro, tudo finamente encadernado. Com certeza, um de seus melhores trabalhos como encadernador.</p>
<p>No entanto, ainda teve de esperar mais um ano para conseguir a colocação com a qual tanto sonhava. Somente em 1813, a sorte lhe sorriu. Nesse ano, conquistou o cargo de assistente de laboratório da <em>Royal Institution</em>, passando a morar em dois quartos nos altos da instituição, com direito a combustível para o aquecedor e velas para a iluminação, luxos aos quais não estava acostumado. Contudo, nenhum desses confortos se comparava ao fato de também ter recebido autorização para usar a aparelhagem do laboratório em estudos e pesquisas pessoais. </p>
<p>Cansado, deitou-se sobre a terra que cobria a sepultura. Começava a sentir uma moleza estranha tomar conta do corpo. Olhando à sua volta viu que a noite tinha caído completamente sobre o<br />
cemitério. Ao longe, podia ouvir o vigia falando sozinho.</p>
<p>Pensou novamente em Sarah. Doce e alegre Sarah. Como será que ela estava enfrentando a situação? Não queria que ela sofresse. Sarah sempre fora, além de uma esposa devotada, uma grande amiga. Nem mesmo a ausência de filhos a tornara amarga ou raivosa. Ao contrário. Ela canalizou todo o seu amor maternal para ele e para os seus sobrinhos. Desejava tanto vê-la.<br />
Contudo, sabia – já tinha tentado –, estava preso àquele maldito lugar. </p>
<p>Ele nunca imaginara que a morte seria assim: essa espera torturante. Morrer e continuar sentindo. Pior. Continuar desejando. Sempre acreditou que todos os desejos e emoções ficariam esquecidos. Que a beatitude seria simplesmente existir sem esperar ou desejar coisa alguma. Tolo engano. Morrer não era nada disso. </p>
<p>De repente, sem nenhum motivo, a imagem de Sir Humphry voltou a dominar a sua mente. Outra das lições que a morte lhe estava ensinando. Quando se está morto os pensamentos parecem ter vontade própria.</p>
<p>Sir Humphry Davy. Um grande homem. Um grande químico. Sim, ele não podia negar: fora graças à sua influência que conseguira atingir o seu maior objetivo de vida, tornar-se um cientista. A obtenção, em laboratório, do elemento cloro em estado líquido ou a liquefação do dióxido de enxofre, do gás sulfídrico e do dióxido de carbono foram apenas alguns dos trabalhos que realizou durante o período que permaneceu como assistente de laboratório na <em>Royal Institution</em>. No entanto, como não tinha uma educação formal, muitas de suas pesquisas e descobertas acabaram sendo creditadas a Sir Humphry.</p>
<p>Talvez esse tenha sido o motivo de, em determinado momento, querer afastar-se dos assuntos relacionados à química. Ele desejava ser reconhecido como o autor de suas próprias ideias e descobertas e não como um simples assistente ou – como aconteceu durante a viagem de dois anos pela Europa com Sir Humphry – um criado de quarto. Precisava, portanto, encontrar um campo de trabalho só seu, longe da influência e do prestígio de seu mentor.</p>
<p>Sentia-se um pouco ingrato com esses pensamentos. Afinal, Sir Humphry fizera muito por ele. Contudo, foi só em 1821, ano do seu casamento com Sarah, que finalmente encontrou o campo de trabalho que o ajudaria a se tornar um cientista de fato e de direito.</p>
<p>Continua&#8230;</p>
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		<title>A HISTÓRIA DE MF – PARTE I</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Oct 2011 22:43:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[Morto. Ele estava morto. Estranho, durante toda a sua vida sempre acreditara que, após a morte, o céu, o paraíso, seria o seu destino imediato. Afinal, não fora sempre um homem temente a Deus? Não abrira mão dos divertimentos terrenos para abraçar uma vida de moderação e sobriedade? Por que, então, não se encontrava ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Morto. Ele estava morto.</p>
<p>Estranho, durante toda a sua vida sempre acreditara que, após a morte, o céu, o paraíso, seria o seu destino imediato. Afinal, não fora sempre um homem temente a Deus? Não abrira mão dos divertimentos terrenos para abraçar uma vida de moderação e sobriedade? Por que, então, não se encontrava ao lado direito do Pai, em meio a seus anjos e santos?</p>
<p>Olhando a sua volta, viu-se rodeado de túmulos, alguns antigos, outros mais recentes. Contudo, aquele que chamava a sua atenção estava bem aos seus pés. Na laje já haviam sido inscritos o nome e as datas de nascimento e morte. Assustado, não quis olhar.</p>
<p>Para não enlouquecer, pensou em Sarah. Sua doce e gentil Sarah. Queria tanto abraçá-la e confortá-la. No entanto, isso agora, era impossível. Um abismo os separava. Ela estava viva, enquanto ele&#8230;</p>
<p>Esse pensamento trouxe a lembrança de seus pais: James e Margaret. Do pai, infelizmente, guardava poucas recordações, apenas que havia sido ferreiro e que sempre estava doente. A mãe, ao contrário, fora uma mulher forte, a responsável por manter a família unida mesmo nos piores momentos. “Pobre mamãe”, pensou. Ela nunca teve um minuto de descanso. Sempre correndo de um lado para o outro, tentando dar um pouco de tranquilidade ao marido e estabilidade aos filhos.</p>
<p><em>- Mãe, por favor, não há outro jeito? – perguntou o menino aflito.</em></p>
<p><em>- Filho, eu não pediria isso se não fosse absolutamente necessário. Seu pai está muito doente e você sabe o quanto tem sido difícil colocar comida na mesa. Minhas costuras e o pouco que o seu pai consegue ganhar quando não está de cama são insuficientes para nos alimentar e ainda mantê-los na escola. – explicou Margaret.</em></p>
<p><em>- Mas, mãe, talvez eu possa trabalhar e estudar. Vou conseguir um emprego à noite, em alguma fábrica.</em></p>
<p><em>- Não! Isso seria o seu fim. Não quero vê-lo metido em fábricas, onde os patrões sugam a alma dos empregados, e depois quando estão doentes ou velhos demais para o trabalho, os despedem sem se importar com eles ou com suas famílias. Eu já lhe arranjei um emprego decente, com um bom homem que vai tratá-lo com respeito. Você o conhece e até gosta dele, é o livreiro Riebau.</em></p>
<p><em>- Mas, mãe&#8230; – tentou o menino mais uma vez.</em></p>
<p><em>- Chega! Não adianta insistir. Você melhor do que ninguém sabe o quanto isso está me custando. No entanto, é preciso. E na vida temos de fazer o que precisamos e não o que queremos.</em></p>
<p>Ele tinha treze anos quando foi trabalhar com o Sr. Riebau. O velho livreiro fora muito mais que um patrão; ele havia sido um pai. No início, receoso de sua pouca experiência, Riebau o utilizou apenas como menino de recados. Porém, em pouco tempo ele já o estava apresentando a antiga arte de encadernar. Arte na qual se mostrou extremamente habilidoso.</p>
<p>Assim, a tristeza de ter de abandonar os estudos foi logo esquecida diante dos livros que Riebau colocou a sua disposição. Graças a ele, teve acesso a obras como as <em>Conversações</em><em> em Química, </em>de Marcet, e a <em>Enciclopédia</em><em> Britânica.</em> As leituras desses e de outros livros foram decisivas na escolha do caminho que no futuro iria seguir.</p>
<p>Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos vindos em sua direção. Feliz, aguardou ansioso, acreditando que, finalmente, os céus haviam enviado alguém para buscá-lo.</p>
<p>A decepção foi avassaladora. Não se tratava de um anjo ou de seus pais, ou ainda de qualquer pessoa que ele conhecesse, morta ou viva. Era apenas o vigia do cemitério que começava a sua ronda. Por um instante ele parou diante da sepultura nova e leu a inscrição na lápide.</p>
<p>- Bem, caro senhor – ele começou a dizer –, parece que, no final, não importa a nossa importância ou riqueza, todos vamos parar no mesmo lugar: debaixo de sete palmos de terra. Seja bem-vindo, então, à sua nova casa. – disse o vigia enquanto se afastava para conferir o estado de seus outros “inquilinos”.</p>
<p>Ele não conseguia acreditar. Nem mesmo seus pais haviam se dignado a vir buscá-lo. Onde estavam eles? Porque o tinham abandonado? A decepção deixou um gosto amargo em sua boca.</p>
<p>Resignado, pensou nas palavras do vigia. Ele estava longe da verdade. Riqueza ele nunca teve. Pelo menos riqueza material. Agora se o desejo de aprender era uma forma de riqueza, então, o vigia estava certo: ele havia sido um homem muito rico.</p>
<p><strong>Continua&#8230;</strong></p>
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		<title>UM DIÁLOGO IMPROVÁVEL &#8211; PARTE FINAL</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Sep 2011 03:19:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[A ciência consiste em substituir o saber que parecia seguro por uma teoria, ou seja, por algo problemático. José Ortega y Gasset Newton foi pego de surpresa. Depois de toda aquela conversa sobre Deus ele acreditava que, finalmente, iria se livrar daquele maluco. No entanto, aqui estava esse tal de Einstein perguntando sobre um assunto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A ciência consiste em substituir o saber que parecia seguro por uma teoria, ou seja, por algo problemático</em>.</p>
<p>José Ortega y Gasset</p>
<p>Newton foi pego de surpresa. Depois de toda aquela conversa sobre Deus ele acreditava que, finalmente, iria se livrar daquele maluco. No entanto, aqui estava esse tal de Einstein perguntando sobre um assunto que sabidamente era a <strong>sua</strong> especialidade. Desconfiado, Newton quis saber:</p>
<p>- O que tem a gravidade? Ou melhor, o que o senhor sabe sobre isso?</p>
<p>- Como já lhe disse sou um homem de Ciência e a gravidade é um de meus temas favoritos. Contudo, se me permite, tenho algumas dúvidas em relação a vários pontos da sua teoria.</p>
<p>A expressão de Newton imediatamente se tornou tensa. Ele não gostava nem um pouco que um completo estranho, e ainda por cima alguém com sérias dificuldades de entendimento, viesse colocar em dúvida as <strong>suas</strong> teorias. Entretanto, resolveu ser magnânimo. Quem sabe assim esse homem o deixasse em paz?</p>
<p>- Pois bem, senhor Einstein, quais são as suas dúvidas? – perguntou Newton, procurando imprimir à voz um tom condescendente.</p>
<p>Einstein não se deixou intimidar e prosseguiu:</p>
<p>- Nos <em>Principia</em>, no livro I se não me engano, aliás, antes que eu prossiga, quero parabenizá-lo. Que obra fabulosa! Inigualável! Brilhante! – disse Einstein com sinceridade. – Bem, neste livro o senhor afirma, não sei se me lembro com exatidão das palavras, mas creio que seria mais ou menos assim: “O espaço é absoluto, por sua própria natureza, sem relação com qualquer coisa que seja exterior, permanece sempre semelhante e imóvel”. Estou certo?</p>
<p>Surpreso, não só com o elogio, mas com o conhecimento que o tal Einstein apresentava, Newton levou alguns minutos para responder. No entanto, quando o fez, foi com a segurança de quem havia sido o autor daquelas palavras:</p>
<p>- Sim, a citação é minha. O espaço como o conhecemos independe da matéria, não é perceptível e nem verificável. Ele existe por si só e&#8230;</p>
<p>- Desculpe-me. – Interrompeu Einstein. – Acredito que haja uma contradição nesse pensamento.</p>
<p>- Que contradição? – perguntou Newton, secamente.</p>
<p>- O conceito de um espaço absoluto contradiz os princípios metodológicos defendidos na sua obra. Segundo o senhor, somente pela via da experiência poderemos chegar às leis da Natureza. Como, então, aceitar a ideia de um espaço que não é verificável e nem perceptível?</p>
<p>Newton começava a desconfiar que aquele encontro não fora apenas fruto do mero acaso. Aquele homenzinho insignificante estava falando exatamente como alguns de seus opositores. Talvez ele fosse amigo de Leibnitz ou, quem sabe, daquele pobre coitado, seu colega da <em>Real Society</em>, Robert Hooke. Se isso fosse verdade, uma boa lição para esses senhores seria desacreditar o seu mensageiro.</p>
<p>- Sr. Einstein, parece-me que o senhor realmente tem razão quando reconhece a sua ignorância nos assuntos da Ciência. Sim, é a experiência que valida as leis da Natureza; no entanto, o espaço está além dessa experiência, pois ele já existia antes de essas leis serem criadas. E se é verdade que o senhor realmente leu os meus livros, deve saber que o conceito de espaço absoluto é necessário – eu diria até indispensável – para se entender o modelo científico do mundo. Qualquer outra proposição ao contrário coloca em dúvida as leis sobre as quais repousam os alicerces de todo o universo.</p>
<p>“Como é difícil conversar com esse homem”, pensou Einstein. Contudo, precisava ser tolerante, afinal houve uma época na qual ele mesmo também tivera dificuldades em aceitar determinadas ideias. Havia sido extremamente penoso reconhecer a existência de um universo no qual as incertezas e as probabilidades eram as únicas explicações para muitos dos fenômenos estudados pela Ciência. E se havia sido difícil para ele, muito provavelmente, seria difícil para Newton perceber o quanto suas ideias – consideradas um dia revolucionárias – se encontravam ultrapassadas.</p>
<p>- Certo. No entanto, o senhor concorda que em relação à gravidade ainda muito ficou por ser explicado?</p>
<p>- Eu não diria muito, mas alguma coisa – respondeu um Newton cauteloso.</p>
<p>- E quais seriam essas coisas?</p>
<p>Agora Newton estava quase certo de que aquela conversa havia sido encomendada. Alguém estava querendo testá-lo.</p>
<p>- A ação da gravidade é à distância, como o senhor deve saber. Por essa razão algumas mentes menos esclarecidas passaram a dizer que esse fenômeno não era do domínio da Ciência, mas da magia. Um absurdo! Assim, procurei provar matematicamente a sua existência. Quando o fiz, todos esses detratores, com conhecimentos rudimentares em matemática, se calaram – completou Newton, acreditando ter dado a conversa por encerrada.</p>
<p>Einstein, no entanto, ainda não estava satisfeito. Longe disso.</p>
<p>- E apesar desse problema, o senhor, mesmo assim, continuou a insistir na ideia de um espaço absoluto e independente da matéria?</p>
<p>- Claro! O que uma coisa tem a ver com a outra? – Newton perguntou indignado.</p>
<p>- Tudo – disse Einstein simplesmente.</p>
<p>“Com certeza, trata-se de uma manobra de meus inimigos para atormentar-me”, concluiu Newton. Contudo, ele não se deixaria vencer. Afinal, aquele homem já havia se mostrado repetidas vezes obtuso e um completo ignorante.</p>
<p>- Pois bem, senhor Einstein, sou todo ouvidos. Qual a sua “teoria” sobre a gravidade?</p>
<p>“Meu Deus! Se não fosse por sua provada e comprovada genialidade eu já teria perdido a paciência com ele. Sua empáfia é irritante”, pensou Einstein com os seus botões.</p>
<p>- Talvez o caminho para compreender os efeitos da gravidade seja pensar num espaço diferente. Um espaço que na presença da matéria se curvasse. Assim, corpos de grande massa curvariam mais o espaço do que aqueles com uma massa pequena. Isso explicaria as forças de atração observadas entre os planetas, por exemplo.</p>
<p>Newton estava pasmo. Espaço curvo? Que besteira era aquela? Estava pronto para se opor a semelhante disparate, quando percebeu que o outro continuava falando.</p>
<p>- Além disso, precisaríamos entender que o tempo, assim como o espaço, também seria diferente. O tempo decorrido entre dois eventos variaria de um observador para o outro, assim como as dimensões dos corpos. De maneira que o espaço e o tempo passariam a formar um <em>continuum</em> quadridimensional.</p>
<p>- CHEGA! – gritou Newton. – Desde o primeiro momento, quando o vi sentado debaixo da <strong>minha</strong> macieira, desconfiei da sua sanidade. No entanto, se tinha dúvidas, agora não as tenho mais. Como o senhor se atreve a vir aqui, ocupar o <strong>meu</strong> espaço de repouso e depois me bombardear com todos esses absurdos? Quero lhe disser que sou um homem ocupado e nunca, nunca mesmo, fui tão insultado como agora!</p>
<p>- Posso lhe garantir que não tive essa intenção. Muito pelo contrário. Contudo, compreendo que as minhas ideias possam tê-lo chocado, mas elas são verdadeiras. Já foram, inclusive, provadas. – Einstein disse com calma.</p>
<p>- Verdadeiras? Provadas? – repetiu Newton. – Quando? Onde? Por quem? Isso nada mais é que um amontoado de besteiras sem nenhum sentido.</p>
<p>- Por que seriam besteiras? – quis saber Einstein. – O senhor mesmo afirmou que muitas coisas o levavam a suspeitar que todos os fenômenos dependeriam de determinadas forças desconhecidas. E se eu lhe dissesse que na verdade o que impele um corpo contra o outro não são forças, mas campos?</p>
<p>Newton estava atordoado. Nunca imaginou que aquele encontro resultaria numa discussão na qual estaria em jogo a validade de suas ideias sobre o funcionamento do universo. Aquele homem o tinha enganado completamente. Sua aparente ignorância era um disfarce encobrindo alguém que conhecia não só as suas teorias, mas que, aparentemente, desenvolvera ideias próprias sobre o mesmo tema. Sentia-se preso em uma armadilha.</p>
<p>Einstein percebeu que havia exagerado. Newton ainda não estava pronto para ouvir tudo o que ele tinha a dizer. Por mais que desejasse prolongar aquela discussão, intuiu que aquele não era o melhor momento. Quem sabe, com o tempo, os dois pudessem sentar debaixo daquela mesma macieira para discutir as diferentes teorias que explicavam o funcionamento do universo. Quem sabe.</p>
<p>- Sei que as minhas ideias lhe parecem estranhas; no entanto, nada me agradaria mais do que poder discuti-las com o senhor. Talvez possamos marcar um novo encontro para juntos desvendarmos os mistérios que a Natureza ainda esconde – disse Einstein.</p>
<p>A postura de Newton mudou sutilmente. Um sentimento parecido com respeito por aquele indivíduo de cabelo revolto havia despertado dentro dele. No entanto, discutir ideias tão estranhas o estava deixando nervoso. Lembrou-se, então, de um tempo no qual era um jovem professor preocupado apenas em compreender os mecanismos de funcionamento do universo. “Será que ainda terei energia e paciência para me envolver em semelhantes discussões?”, se perguntou.</p>
<p>- Talvez, o senhor finalmente tenha razão em alguma coisa. Não lhe prometo nada, mas, quem sabe, possamos continuar essa conversa em um outro dia.</p>
<p>- Fico satisfeito com suas palavras. Não poderia esperar nada diferente de um cientista tão importante quanto o senhor – respondeu Einstein, contente com a possibilidade de novos encontros com aquele que sempre fora um de seus grandes heróis.</p>
<p>- No entanto&#8230;</p>
<p>- Sim?</p>
<p>- O senhor poderia encontrar outro lugar para as suas meditações? Esse recanto, como já lhe expliquei diversas vezes, me pertence.</p>
<p><strong>FIM!</strong></p>
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		<title>UM DIÁLOGO IMPROVÁVEL &#8211; PARTE II</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Sep 2011 01:57:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo&#8221;.  Voltaire A confirmação de suas suspeitas só deixou Einstein ainda mais perturbado. No entanto, procurou disfarçar o máximo que pode. Ali, diante dele, em carne, osso e mau humor, estava aquele que sempre fora um de seus grandes heróis: Isaac Newton. Inacreditável! Se não conhecesse a sua atual [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo&#8221;.  </em>Voltaire</p>
<p>A confirmação de suas suspeitas só deixou Einstein ainda mais perturbado. No entanto, procurou disfarçar o máximo que pode. Ali, diante dele, em carne, osso e mau humor, estava aquele que sempre fora um de seus grandes heróis: Isaac Newton. Inacreditável! Se não conhecesse a sua atual situação, pensaria que estava louco.</p>
<p>- Então, o senhor também é um homem de Ciência? Há quanto tempo reside neste lugar? – perguntou Einstein cautelosamente.</p>
<p>Newton deu um longo e audível suspiro, deixando claro que aquela conversa não tinha a sua concordância e que ele estava sendo apenas civilizado.</p>
<p>- Como deixei claro, se há um homem que entenda de Ciência, esse homem sou eu. Coube-me desvendar os mistérios do universo e entre as minhas maiores realizações, encontra-se a explicação de como os planetas e os sóis se movem. Minhas ideias são respeitadas não só na Inglaterra, mas também em toda a Europa. Muito me admira o senhor – “um homem de Ciência” – não ter me reconhecido. Já da sua pessoa eu nunca ouvi falar. – Concluiu de um fôlego, esperando ter deixado clara a sua posição.</p>
<p>Einstein reparou que ele não respondera a segunda pergunta. Talvez, mesmo após tanto tempo, ainda estivesse confuso sobre as novas circunstâncias de sua vida. Assim, resolveu provocá-lo:</p>
<p>- Realmente, um homem como o senhor, responsável pelas leis mais importantes da Ciência, não poderia me conhecer. Não me ofendo por isso. No entanto, como sou um recém-chegado preciso lhe perguntar: o senhor já o viu?</p>
<p>- Viu quem?</p>
<p>- Ora, o Velho.</p>
<p>- Que velho? Meu caro senhor, se já andou um pouco pela cidade deve ter percebido que por aqui não faltam velhos. A qual deles, mais exatamente, o senhor se refere? – perguntou, aborrecido, ao pensar no tempo precioso que estava perdendo com aquele idiota.</p>
<p>- Desculpe, é a força do hábito. Durante anos sempre me referi a ele dessa maneira, quem sabe porque o considerasse uma fantasia infantil. Estou falando de Deus.</p>
<p>Newton enrijeceu-se quando ouviu a última palavra ser pronunciada. “Aquele homem, definitivamente, era, além de um imbecil, um louco”. Precisava ter cuidado, talvez ele também fosse violento.</p>
<p>- O senhor deve estar brincando. No entanto, quero avisá-lo, esse é um assunto por demais sério para ser tratado de forma leviana – advertiu Newton.</p>
<p>- Claro! – apressou-se Einstein a concordar. – Esse é um assunto sério, contudo, sendo um cientista, o senhor deve compreender que a palavra Deus é apenas uma expressão, um produto da fraqueza humana. Afinal, com a Ciência do nosso lado, não precisamos de uma figura alegórica para nos dizer como agir ou o que pensar.</p>
<p>Newton olhou para aquele estranho e, pela primeira vez, sentiu algo que não fosse aborrecimento. Sentiu pena. Como alguém que se intitulava “um homem de Ciência” podia nutrir ideias tão absurdas?</p>
<p>- Einstein? O seu sobrenome me faz acreditar que o senhor seja judeu? Estou certo?</p>
<p>- Sim, mas o que isso tem a ver com a nossa conversa? – respondeu Einstein na defensiva. – Saiba que fui criado lendo o Talmude e a Bíblia cristã. E, ao contrário de muitos que andam por aí, respeito a todos aqueles que acreditam em Deus. Apenas pensei&#8230;</p>
<p>- Sim, sim, sim. O senhor pensou. – Newton o interrompeu. – Parece que a <strong>sua</strong> confusão mental é maior do que eu imaginava. Minha crença na existência de Deus tem como base essa Ciência que o senhor insiste em dizer que conhece. Perguntei se era judeu, pois me surpreende a sua posição. Afinal, foi por intermédio de seu povo que ficamos sabendo dessa “alegoria”. Todas as religiões ditas cristãs têm suas raízes no judaísmo.</p>
<p>- Na verdade sou judeu apenas porque nasci numa família judaica. Nunca fui ligado a essa ou a qualquer outra religião. Depois que a Ciência se tornou uma parte importante da minha vida não pude mais aceitar a ideia de um Deus pessoal interferindo ou influenciando a vida humana. Para mim, todas as práticas religiosas são infantis e tolas na sua essência.</p>
<p>- Bravo! – Disse Newton – Enfim encontramos um denominador comum. Eu também considero as religiões indignas e seus sacerdotes um bando de blasfemos e fornicadores. No entanto, isso nada tem a ver com a minha crença na existência de Deus, que eu, ao contrário do senhor, chamo de o Governante Universal. Para mim, senhor Einstein, Deus está vivo. Ele é eterno, infinito, poderoso e seu domínio se estende a todas as coisas. E diria mais, ele é todo olhos, todo ouvidos, todo cérebro, todo braços, todo capacidade de sentir, de compreender e de agir – enunciou, exaltado.</p>
<p>Einstein ficou em silêncio durante alguns minutos. Sabia que os biógrafos de Newton o haviam descrito como alguém dominado por ideias místicas, chegando a receber, de seus admiradores, a alcunha de “O último Alquimista”. No entanto, nunca imaginara que ele pudesse alimentar pensamentos tão fortes em relação a esses assuntos. Assim, foi com cautela que respondeu:</p>
<p>- Muito bem. Pelo que entendi, o senhor despreza a religião, mas acredita em Deus. Isso significa que, mesmo sendo um homem de Ciência e, portanto, conhecedor das leis que regem o universo, o senhor está disposto a acreditar em uma entidade capaz de intervir no destino dos homens?</p>
<p>- Na verdade, sua ação sobre a humanidade se assemelha à intervenção de um relojoeiro quando percebe que a máquina criada por ele está falhando. Como foi Deus que estabeleceu as regras pelas quais o universo opera, Ele simplesmente não as pôs em prática e depois as abandonou a própria sorte. Não. Como é onipresente nos corpos, preenchendo o espaço vazio existente entre eles, cabe a Ele trazer a ordem onde há o caos e as leis onde há confusão. E a nós, homens de Ciência, nos toca fazer a obra Dele procurando revelar seus infinitos mistérios.</p>
<p>A última vez que Einstein se envolvera nesse tipo de discussão fora em uma carta escrita um pouco antes de morrer e depois enviada a um amigo filósofo. Explicar para os outros seus sentimentos sobre o assunto sempre gerara muita controvérsia e mal entendidos. As pessoas, então, acabavam ouvindo e compreendendo o que me bem entendiam.</p>
<p>No entanto, a verdade – e agora ele não podia escapar dela – é que seu determinismo o fizera rejeitar não só a ideia de Deus, mas o conceito de livre arbítrio. Para ele, as ações de uma pessoa eram predeterminadas, desde o momento da concepção até a morte, assim como os movimentos de uma bola de bilhar, de um planeta ou de uma estrela. Nenhum Deus – cristão, judaico ou muçulmano – poderia mudar esse fato. Pelo menos era no que ele havia acreditado até aquele momento.</p>
<p>O som de um pigarro arrancou-o do devaneio. Newton tinha voltado a ficar emburrado. Ele o olhava fixamente esperando alguma coisa. Como Einstein nada fizesse, Newton decidiu falar:</p>
<p>- Muito bem, Sr. Einstein, agora que chegamos a um acordo sobre quem é o meu Deus e vimos o quanto as suas ideias sobre Ele são absurdas e destituídas de qualquer critério científico, o senhor não estaria disposto a levar as suas indagações para outro local? Como já lhe disse repetidas vezes, esse espaço me pertence.</p>
<p>Einstein não pode deixar de sorrir. A obsessão de Newton por aquele espaço em particular era hilária. Contudo, ainda não estava disposto a concluir a sua conversa com ele. Assim, resolveu provocá-lo mais uma vez:</p>
<p>- Senhor Newton, vejo que esse recanto lhe é muito caro. Prometo-lhe, então, deixá-lo em paz para que possa desfrutar dele sozinho. Entretanto&#8230;</p>
<p>- Entretanto, o quê? Já não conversamos sobre tudo o que era possível conversar? O que mais quer saber? – perguntou um Newton irritado.</p>
<p>- Apenas uma coisa: o que o senhor pensa sobre a gravidade?</p>
<p>Continua&#8230;</p>
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		<title>UM DIÁLOGO IMPROVÁVEL &#8211; PARTE 1</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 02:31:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>
		<category><![CDATA[Albert Einstein]]></category>
		<category><![CDATA[Isaac Newton]]></category>

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		<description><![CDATA[Naquele lugar, o clima era sempre irritantemente perfeito e imutável. Céu azul, sem nenhuma nuvem, uma brisa agradável e um perfume de flores no ar. Ele já estava cansado de tudo isso. Sentia falta da chuva, do nevoeiro, do frio e até da umidade. Desgostoso, caminhou até o seu recanto favorito. Ele ficava em um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Naquele lugar, o clima era sempre irritantemente perfeito e imutável. Céu azul, sem nenhuma nuvem, uma brisa agradável e um perfume de flores no ar. Ele já estava cansado de tudo isso. Sentia falta da chuva, do nevoeiro, do frio e até da umidade.</p>
<p>Desgostoso, caminhou até o seu recanto favorito. Ele ficava em um dos vários jardins ao redor da cidade onde agora residia. Encontrara-o por puro acaso enquanto realizava uma de suas intermináveis e solitárias caminhadas. Era um espaço só seu, longe de todos aqueles rostos felizes e satisfeitos, debaixo de uma linda e, é claro, perfeita macieira. Só ali se sentia um pouco mais à vontade, mais ele mesmo.</p>
<p>Assim, pode-se entender o seu aborrecimento, e até mesmo raiva, quando encontrou o <strong>seu</strong> querido e exclusivo esconderijo ocupado por outra pessoa. Um homem estava tranquilamente sentado – e terrível heresia! Fumando um cachimbo! – debaixo da <strong>sua</strong> macieira. Teve de usar de toda a força de vontade para se dirigir a ele com alguma educação:</p>
<p>- Bom dia – cumprimentou seco. – Não quero aborrecê-lo, mas esse lugar me pertence. O senhor não poderia encontrar outro local para o seu descanso? – pediu, num tom que pretendia ser gentil e cortês.</p>
<p>Surpreso, o desconhecido olhou para o autor da pergunta. Afinal, segundo lhe explicaram, ali não havia propriedades e muito menos espaços exclusivos. Retirando o cachimbo da boca, respondeu com calma:</p>
<p>- Bom dia para o senhor também. Desculpe-me, mas sentei-me aqui por considerar o lugar ideal para as minhas meditações diárias. Estava caminhando, sem destino, tentando me acostumar à minha nova situação quando me deparei com esse lindo recanto. Essa macieira é simplesmente&#8230;</p>
<p>- Sei. Sei. Divina – interrompeu o outro. – Mas como já lhe disse, esse lugar me pertence. Eu o vi primeiro e aqui venho me instalando há mais tempo que o senhor. Poderia, então, procurar outro local para as suas “meditações”? – voltou a perguntar, incomodado pela evidente falta de entendimento daquele estranho.</p>
<p>O desconhecido logo percebeu que o homem diante dele ainda não havia compreendido a filosofia daquele novo ambiente que agora os dois compartilhavam. No entanto, notando a falta de humor do seu interlocutor, decidiu contemporizar:</p>
<p>- Com certeza, o senhor deve ver que aqui há espaço de sobra para nós dois. Eu, com as minhas meditações, e o senhor&#8230; Desculpe, creio que deveríamos nos apresentar. Quem sabe, assim chegaríamos a algum acordo? Meu nome é Albert Einstein – disse, estendendo a mão<strong> </strong>amigavelmente.</p>
<p>O outro homem não se moveu. Ficou olhando indignado para aquele estranho que de repente se materializara debaixo da <strong>sua</strong> macieira. “Meu Deus!”, lamentou internamente. “Esse indivíduo é tão estúpido que não consegue compreender um pedido simples como ‘vá embora!’”.</p>
<p>- Sr. Einstein ou quem quer que seja, eu encontrei esse lugar primeiro, portanto, torno a repetir: ele me pertence. O senhor consegue me entender? – perguntou mais uma vez, agora sem se importar em parecer educado.</p>
<p>Einstein estava pasmo. Aquele homem pomposo, grosseiro e egocêntrico agia como se nunca tivesse ouvido falar dele. “Como era possível?”, pensou. Sempre se esforçara em não deixar a vaidade dominá-lo, mas era sabido por todos – exceto, parece, por aquele indivíduo à sua frente – que ele era uma das mentes mais geniais que a humanidade já havia produzido, um ganhador do Prêmio Nobel. E, para piorar ainda mais aquela ridícula situação, o homem o estava tratando como se ele fosse um débil mental.</p>
<p>Respirando fundo, procurou não se deixar afetar pela grosseria que emanava daquele senhor:</p>
<p>- Vejo que o meu nome não lhe diz nada. Tudo bem, nem todos são obrigados a conhecer os assuntos ou as pessoas que têm alguma relação com a Ciência. Mas&#8230;</p>
<p>- O que o senhor disse?! – Interrompeu o outro furioso. – Como se atreve a se dirigir a mim dessa maneira?! Eu não entender de Ciência?! Eu?! O senhor sabe com quem está falando?!</p>
<p>Einstein agora estava verdadeiramente assustado. No entanto, pela primeira vez desde que aquela estranha conversa começara, olhou mais detidamente para o homem que estava na sua frente. Primeiro foram as roupas. Antigas. Muito antigas. Definitivamente, não eram do seu século. Depois olhou, ou melhor, encarou, sem nenhuma vergonha, o rosto vermelho de fúria. Nesse instante foi como se uma cortina fosse levantada e a luz se fizesse diante de seus olhos.</p>
<p>- Meu Deus!!! Não é possível! O senhor é quem eu penso que é? Mas&#8230; Se for&#8230; Eu&#8230; – começou a gaguejar.</p>
<p>- Homem, pelo amor de Deus, controle-se! – pediu o outro. – Sua ignorância – ou, quem sabe, loucura – é realmente monumental. <strong>Eu</strong> não entender de Ciência? Onde já se viu semelhante absurdo! – repetia, indignado, enquanto lançava chispas pelos olhos àquele que, além de ofendê-lo, insistia em permanecer idiotamente olhando para ele como se estivesse diante de um fantasma.</p>
<p>Tentando recuperar-se do susto, Einstein ensaiou um pedido formal de desculpas:</p>
<p>- Perdão senhor, se o tivesse reconhecido de imediato jamais teria agido da maneira como agi. A minha cegueira não tem desculpas. No entanto, peço a sua indulgência, pois minha mente ainda está se adaptando. Tudo é muito novo para mim e vê-lo vivo e bem disposto, é uma surpresa tão grande que estou custando a me recuperar.</p>
<p>- Vivo?! O senhor realmente perdeu o juízo! Claro que estou vivo! E apesar do seu ultraje estou disposto a desculpá-lo por conta da perturbação que claramente o domina. Apesar do que alguns detratores espalham sobre a minha pessoa, não sou homem de guardar ressentimentos.</p>
<p>Dito isso os dois ficaram se olhando, frente a frente, cada qual esperando que o outro tomasse uma atitude. Einstein ainda tentava entender a situação surreal na qual estava metido, enquanto o outro só pensava em ver-se livre daquele louco que o impedia de estar a sós com os <strong>seus</strong> pensamentos e a <strong>sua</strong> macieira.</p>
<p>Quando o silêncio já se tornava desagradável, Einstein resolveu tomar a iniciativa para reiniciar o diálogo.</p>
<p>- Agora que conseguimos esclarecer a situação, por que não começamos pelo início, pelas apresentações? Chamo-me Albert Einstein, um humilde, e pelo visto ignorante, homem de Ciência e, há muito tempo, seu mais devotado admirador.</p>
<p>Diante de tal elogio, o outro homem sentiu suas reservas balançarem e relutantemente estendeu a mão para o cumprimento formal.</p>
<p>- Muito bem, Sr. Einstein, desculpas aceitas. Meu nome é Isaac Newton. <strong>Sir</strong> Isaac Newton.</p>
<p>Continua&#8230;</p>
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