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POETOPIA

Esta categoria contém 11 artigos

às vezes

Cuspo no verso que é meu o que nem sempre sinto às vezes até me digo o que já foi visto de andar por aí com olhos abertos além das reticências e de deixar que os sons atravessem as barreiras onde encontro em outros lados um pedaço de chão no momento exato em que em [...]

deglutição

Não tenho medo Do que quer dizer  Aquilo que digo Quando no raso  Alguma palavra  Em saliva ondula Pendula líquida Leva e traz ainda  Da beira do dente  Mais pela frente  Até o siso tocar Presa na garganta  Como um silêncio Ao outro, rasa  Ela não canta Diz-se muda  Quanto mais profunda. Não tenho receio [...]

dois gatos

No vão daquela hora Em que a noite desaba Sobre o dia enegrecido Resta um outro segundo Para o tempo do mundo Guardar vocês dois Noutra madrugada No meio do nada Pelas ruas vazias Encharcadas de sereno Sobre alguns gramados Em todos os telhados Um deles é branco Outro é preto Todos pardos.

do fundo

do fundo de mim a voz que se arrasta trôpega enche de letras o silêncio a tela fria de um computador nela me jogo sem medo da queda ainda que o coração como liquidificador bata tudo separado a voz o silêncio lá no fundo fica tudo liquidificado sobre o computador jogado sobre a tela sobre [...]

ser

Venho do chão Que há sob mim Quando olho onde estou O que vejo é de onde vim Pegadas por todos os lados Tantas junto com as minhas Rasuras resquícios Incompletos pedaços Sobre o solo em que eu E até tu caminhas Deixam na terra Esboços do que será O que é definitivo Mancham itinerários [...]

um domingo

Eu fiquei Retendo a chuva Com os olhos Naquela última tarde Gris Em que te vi Parecia noite No lado mais baixo Da tua cidade Foi num domingo Entre as águas Todas Como num dilúvio O resto da imagem Pingos Para nos olhos Jamais secarem Que agora respingam Sobre o corpo Inteiro Toda vez que [...]

para frente

O passo em falso Reduz o pé veloz E passo a passo Metade do desejo Do que há em nós Encontra um jeito De andar para trás O passo que me entra Passado assim de viés E todo cuidado é pouco Para andar para frente Com as pontas dos pés.

era

Sorvendo essas e outras palavras Cuspo você nessa tela comportada. Do outro lado da cidade Cabeça no travesseiro Você deve ser pouco selvagem. Aqui o silêncio é contrário Diz entre mãos que estão sós Brincando de mãos alheias. Meu corpo ganha voz Repete um suspiro já antes ouvido O som que você não ouve que [...]

poema para as pedras

É quando acho que nada mais irei achar Nesses tropeços dos pés calejados que se batem Que ainda acho algumas pedras paradas sobre o tempo Pedras que nem o próprio tempo consegue desgastar Passa o vento, brasa de vulcão, água de cachoeira sobre elas E as mesmas pedras ainda vingam a existência Milenares, tão mais [...]

ameaça de noite

De repente o céu acinzentou Como noite que chega antes da hora É chuva sobre a cidade, passageira Noite de mentira que não rende estrelas Estrelas quando acendem é para lembrar Que só com elas a noite é verdadeira.