A casa da esquina não foi esquecida pela folhagem espessa pela janela entreaberta pelo portão enferrujado pelo pátio marcado. As vozes de domingo o feriado das palavras o sítio dos cabelos tudo permanece em sua forma intacta e inalcançável resistindo ao passar dos muitos carros na rótula. Vejo a menina de meias compridas trocando os [...]
Lembrei-me das górgonas e suas transmutações minerais. Isso de eternizar a passagem. Luísa é mineral é o contrário o avesso por convicção. Não desenvolve tramas com suturas não fotografa a areia no vento nunca guardou o oceano dentro dos potes na cozinha. Essência clara e sem propósito matéria orgânica da obra prima cílio único em [...]
Nenhuma companhia se faz de portas abertas. A diferença única entre o roubo e o empréstimo é a altura do portão da casa. Espalhem cadeados, correntes, novas fechaduras. Lacrem todas as portas, cubram de folhas as janelas. Sejamos imperialistas! Não me deixe ser evasivo frente à inauguração de um inverno comprido. Quero tecer cada centímetro [...]
Dezoito invernos atravessados por cada fio de cabelo. Os ossos sustentando os vértices dos anos. Guardamos todos os cílios dentro do peito. O amor não compartilha a sorte das pedras preciosas. Tampouco compartilha os manuscritos de sua fome. Insepulto em pedra rasa e maciça o amor despeja teu nome em forma de cortejo divino. Russa [...]
É um olho que vê e outro que lágrima. É um pé que caminha e outro que fica. Somos sempre duas nessa cidade. Meu choro; teu rio. Meu soluço; tua garganta em avenidas. Isso de pertencer ao que não somos por avesso. Isso de somente estar presente na vertigem do corpo. A falta aguda de [...]
Em minha sala dentro do apartamento arremesso breves punhados de calcário que vão cobrindo toda superfície dos móveis. Uma criança que faz concha com as mãos para pegar água e atiçar o fogo. Ofereço migalhas à vida como se quisesse disciplinar cada pássaro de minha terra. Acostumá-los a pouca fome de um quarto sem cama. [...]
Nossos olhares fixos No acordar da serpente. O movimento preciso E a continuidade do rastro. O gramado jamais será órfão De nossa doce atenção. A infância multiplicando-se Em cada fruto maduro. Na extensão dos ramos Até a lâmina das folhas. Difícil encontrar a terra de nossos sonhos. Onde germinaram todos os futuros E os acasos [...]
um cachorro morto na estrada. dois cachorros mortos na estrada. três cachorros mortos na estrada. e minhas mãos latindo de fome.
Serias os meus olhos. Guiando-me pela a escuridão cotidiana lavrando a terra posta o silêncio difuso a planta seca. Reinventarias a cor do semáforo o sorriso nas esquinas o formato das nuvens o olhar do cavalo os dentes do vendedor triste. Escreverias em outdoors palavras que nunca poderiam ser ditas. pornografias, profanações, [...]
Vasculho as gavetas descosturo teus jovens diários alinho tua linha do tempo ao tecido de minhas roupas. Em silêncio. Como se aprisionasse a emoção da surpresa entre os dedos. Como se meus dedos se tornassem notícia. Feito lobo na estepe. Roer os detalhes é a minha forma de multiplicar os segredos.