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INCRÍVEL HUMANIDADE

Esta categoria contém 41 artigos

EMPRÉSTIMO

A casa da esquina não foi esquecida pela folhagem espessa pela janela entreaberta pelo portão enferrujado pelo pátio marcado. As vozes de domingo o feriado das palavras o sítio dos cabelos tudo permanece em sua forma intacta e inalcançável resistindo ao passar dos muitos carros na rótula. Vejo a menina de meias compridas trocando os [...]

MINERAL

Lembrei-me das górgonas e suas transmutações minerais. Isso de eternizar a passagem. Luísa é mineral é o contrário o avesso por convicção. Não desenvolve tramas com suturas não fotografa a areia no vento nunca guardou o oceano dentro dos potes na cozinha. Essência clara e sem propósito matéria orgânica da obra prima cílio único em [...]

IMPERIALISMO

Nenhuma companhia se faz de portas abertas. A diferença única entre o roubo e o empréstimo é a altura do portão da casa. Espalhem cadeados, correntes, novas fechaduras. Lacrem todas as portas, cubram de folhas as janelas. Sejamos imperialistas! Não me deixe ser evasivo frente à inauguração de um inverno comprido. Quero tecer cada centímetro [...]

DEZOITO

Dezoito invernos atravessados por cada fio de cabelo. Os ossos sustentando os vértices dos anos. Guardamos todos os cílios dentro do peito. O amor não compartilha a sorte das pedras preciosas. Tampouco compartilha os manuscritos de sua fome. Insepulto em pedra rasa e maciça o amor despeja teu nome em forma de cortejo divino. Russa [...]

PLAZA ESPANA DE SEVILLA

É um olho que vê e outro que lágrima. É um pé que caminha e outro que fica. Somos sempre duas nessa cidade. Meu choro; teu rio. Meu soluço; tua garganta em avenidas. Isso de pertencer ao que não somos por avesso. Isso de somente estar presente na vertigem do corpo. A falta aguda de [...]

ARROMBADA POR DENTRO

Em minha sala dentro do apartamento arremesso breves punhados de calcário que vão cobrindo toda superfície dos móveis. Uma criança que faz concha com as mãos para pegar água e atiçar o fogo. Ofereço migalhas à vida como se quisesse disciplinar cada pássaro de minha terra. Acostumá-los a pouca fome de um quarto sem cama. [...]

AS SERPENTES

Nossos olhares fixos No acordar da serpente. O movimento preciso E a continuidade do rastro. O gramado jamais será órfão De nossa doce atenção. A infância multiplicando-se Em cada fruto maduro. Na extensão dos ramos Até a lâmina das folhas. Difícil encontrar a terra de nossos sonhos. Onde germinaram todos os futuros E os acasos [...]

UM CACHORRO MORTO NA ESTRADA

um cachorro morto na estrada. dois cachorros mortos na estrada. três cachorros mortos na estrada.   e minhas mãos latindo de fome.

NEBLINA SECA

Serias os meus olhos.   Guiando-me pela a escuridão cotidiana lavrando a terra posta o silêncio difuso a planta seca.   Reinventarias a cor do semáforo o sorriso nas esquinas o formato das nuvens o olhar do cavalo os dentes do vendedor triste.   Escreverias em outdoors palavras que nunca poderiam ser ditas. pornografias, profanações, [...]

VASCULHO AS GAVETAS

Vasculho as gavetas descosturo teus jovens diários alinho tua linha do tempo ao tecido de minhas roupas.   Em silêncio. Como se aprisionasse a emoção da surpresa entre os dedos. Como se meus dedos se tornassem notícia.   Feito lobo na estepe.   Roer os detalhes é a minha forma de multiplicar os segredos.