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	<title>Argumento.net &#187; AS NOSSAS COLUNAS</title>
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	<description>CADA ARGUMENTO NO SEU GALHO</description>
	<lastBuildDate>Thu, 09 Feb 2012 18:28:07 +0000</lastBuildDate>
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		<title>vácuo</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 18:28:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Caminante, son tus huellas el camino, y nada mas; Caminante, no hay camino; se hace el camino al andar. Al andar se hace camino Y al volver la vista atras se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante, no hay camino, si no estelas en la mar.  (Antonio Machado y [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<address>Caminante, son tus huellas</address>
<address>el camino, y nada mas;</address>
<address>Caminante, no hay camino;</address>
<address>se hace el camino al andar.</address>
<address>Al andar se hace camino</address>
<address>Y al volver la vista atras</address>
<address>se ve la senda que nunca</address>
<address>se ha de volver a pisar.</address>
<address>Caminante, no hay camino,</address>
<address>si no estelas en la mar. </address>
<p>(Antonio Machado y Ruiz)</p>
<p> Navego por caminhos novos, velocidade extrema, sentindo por vezes o vento salgado que machuca, acompanhando com olhar atento todas as novidades piscantes que parecem surgir no meu campo de visão. Esse mesmo olhar que por tanto tempo parecia fechado em um só foco, quase perdido depois que virou opaco, acostumado a olhar sempre o mesmo e sempre da mesma maneira. É que preciso de novos ares, entende? E nem adianta perguntares se eu sei o destino. Não é isso o que importa agora. <em>Caminante, no hay caminho: se hace el caminho al andar.</em> Há momentos em que um voo cego é o mais lúcido a ser feito. Preciso, sim, forçar a captura de todo o oxigênio, inflando ao máximo os pulmões, renovando tudo o que havia de viciado aqui dentro. Abrir as janelas, não é mesmo? Arejar! Fazer o ar circular. Dentro em mim há um mundo de possibilidades e é preciso coragem para não as ver. O que podemos fazer quando não há móveis novos para decorar a sala se não trocá-los de lugar, inverter a lógica do já estabelecido, tornar diferente o que sempre nos parecia igual? Sigo, portanto, nessa alta velocidade, mas é claro que com a mão a postos para qualquer freio de emergência. Não há mais aquele lá. Aquele lá ficou lá, em algum lugar perdido em nossas lembranças. É que eu precisava partir, entende? E sinto agora esse ar gelado, o vento salgado que por vezes machuca, mas então eu fecho meus olhos, assim, bem forte, viro-me pra dentro de mim, atravesso-me, avesso-me, e já não te vejo no meu escuro.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>deglutição</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 13:51:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ulisses Borges</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[POETOPIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Não tenho medo Do que quer dizer  Aquilo que digo Quando no raso  Alguma palavra  Em saliva ondula Pendula líquida Leva e traz ainda  Da beira do dente  Mais pela frente  Até o siso tocar Presa na garganta  Como um silêncio Ao outro, rasa  Ela não canta Diz-se muda  Quanto mais profunda. Não tenho receio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não tenho medo<br />
Do que quer dizer <br />
Aquilo que digo<br />
Quando no raso <br />
Alguma palavra <br />
Em saliva ondula<br />
Pendula líquida<br />
Leva e traz ainda <br />
Da beira do dente <br />
Mais pela frente <br />
Até o siso tocar<br />
Presa na garganta <br />
Como um silêncio<br />
Ao outro, rasa <br />
Ela não canta<br />
Diz-se muda <br />
Quanto mais profunda.</p>
<p>Não tenho receio<br />
Do que há no meio<br />
Entre o caminho<br />
Da garganta<br />
Ao estômago<br />
O que me sustenta<br />
É o que toca a língua<br />
Sob o que há no céu da boca<br />
Em palavra líquida que me inunda.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>O CALOR DE OLHARES GULOSOS</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 12:35:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Liz Christine</dc:creator>
				<category><![CDATA[ROSAS AZUIS]]></category>

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		<description><![CDATA[Ah a doçura que invade o aroma de café com bolo de laranja nas tardes de domingo. Desembaraçando os fios após lavar os cabelos em um banho repleto de sutilezas envolventes. É proibido fumar degustando um licor enquanto a criminalidade passeia impunemente pelas ruas – mas em refúgios isolados faz-se como quiser e não há [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ah a doçura que invade o aroma de café com bolo de laranja nas tardes de domingo. Desembaraçando os fios após lavar os cabelos em um banho repleto de sutilezas envolventes. É proibido fumar degustando um licor enquanto a criminalidade passeia impunemente pelas ruas – mas em refúgios isolados faz-se como quiser e não há preocupações de espécie alguma. Livre do barulho das ruas e isolada dos problemas sociais a doçura envolve os contatos parcialmente envoltos em silenciosas apurações sensoriais. Dentro de casa, sem a menor vontade de sair, espero uma oportunidade de te comunicar uma improvável troca de ideais – os já ultrapassados anos de impossibilidades abrem espaço para as silenciosas apurações sensoriais. E a gata branca se enrosca na trilha de catnip enquanto latidos distantes cortam o silêncio dos instantes compartilhados com o calor de olhares gulosos.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>cruzaríamos o Pacífico</title>
		<link>http://www.argumento.net/colunas/humanidade/cruzariamos-o-pacifico/</link>
		<comments>http://www.argumento.net/colunas/humanidade/cruzariamos-o-pacifico/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 12:47:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorenzo Ganzo Galarça</dc:creator>
				<category><![CDATA[INCRÍVEL HUMANIDADE]]></category>

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		<description><![CDATA[cruzaríamos o Pacífico não fossem as rotas alteradas e as dorsais pontiagudas das palavras. em arquipélagos deixaríamos nossa bagagem não fossem as ataduras da pele e suas esquinas imóveis ou a pontuação ártica de nossos chakras. reduziríamos à estepe-superfície todas as florestas equatoriais dos cílios não fossem os grãos de deserto guardados dentro dos bolsos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>cruzaríamos o Pacífico<br />
não fossem as rotas alteradas<br />
e as dorsais pontiagudas das palavras.<br />
em arquipélagos deixaríamos nossa bagagem<br />
não fossem as ataduras da pele<br />
e suas esquinas imóveis</p>
<p>ou a pontuação ártica<br />
de nossos chakras.</p>
<p>reduziríamos à estepe-superfície<br />
todas as florestas equatoriais dos cílios<br />
não fossem os grãos de deserto guardados<br />
dentro dos bolsos.</p>
<p>enquanto isso<br />
façamos o trabalho que não nos leva<br />
a ponto algum do globo.<br />
rolha flutuante<br />
do ano novo passado.</p>
<p>costurar os retalhos das nuvens<br />
em um grande lençol que cubra o tempo<br />
enquanto o seu lobo não vem.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>UM FÍSICO NO DIVÃ &#8211; PARTE TRÊS</title>
		<link>http://www.argumento.net/colunas/queda/um-fisico-no-diva-parte-tres/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 11:19:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[- Qual foi mesmo o nome que ele deu para esse sonho? - O Relógio do Mundo. - Interessante. E o desenho também é dele? - Sim. Aliás, há algum tempo ele está desenhando seus sonhos. - Interessante. Erna Rosembaum e Carl Jung estavam confortavelmente sentados em duas poltronas no aconchegante escritório deste último. Na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Qual foi mesmo o nome que ele deu para esse sonho?</p>
<p>- O Relógio do Mundo.</p>
<p>- Interessante. E o desenho também é dele?</p>
<p>- Sim. Aliás, há algum tempo ele está desenhando seus sonhos.</p>
<p>- Interessante.</p>
<p>Erna Rosembaum e Carl Jung estavam confortavelmente sentados em duas poltronas no aconchegante escritório deste último. Na lareira, um fogo aquecia o ambiente, enquanto na rua a neve não parava de cair. Espalhados sobre uma mesa, estavam alguns desenhos e anotações, todos feitos pela mesma pessoa, o físico Wolfgang Pauli.</p>
<p>- Olhe que interessante – apontou Jung para a folha em sua mão. – Há um círculo vertical e outro horizontal com um centro comum e ambos estão sendo carregados por um pássaro negro. Contudo, tanto o círculo vertical como o horizontal estão divididos. O primeiro em 32 partes e o horizontal em quatro cores. E veja – voltou a apontar – o “relógio” tem três pulsações diferentes. Interessante. Muito interessante.</p>
<p>Erna sabia que seu ex-professor estava tentando interpretar as imagens produzidas pela mente de Pauli. Ele andava fascinado com os sonhos do físico. Além disso, Jung tinha certeza de estar perto de comprovar e explicar uma de suas teorias mais importantes: a influência dos símbolos durante o processo de síntese do inconsciente. Pauli já trouxera para análise mais de 300 sonhos e todos, sem exceção, foram parar nas mãos do médico.</p>
<p>- <em>Herr Doktor</em>, esse sonho abalou profundamente meu paciente. No entanto, ao contrário do que aconteceu das outras vezes, foi um abalo positivo. Ele disse ter sentido uma “suprema harmonia”, como se algo, que ele ainda não é capaz de descrever ou explicar, tenha sido solucionado.</p>
<p>- Compreendo – disse Jung. – Nesse desenho é possível perceber o terrível conflito do seu paciente. Na forma de símbolos, uma espécie de mandala tridimensional, ele expõe o fato de estar completamente dividido entre os apetites da matéria e o seu amor a Deus. Em relação a isso, ele já lhe disse por que abandonou a Igreja Católica?</p>
<p>- De maneira explícita, ainda não. No entanto, acredito que tudo está, de alguma forma, relacionado com a morte da mãe. Ao mesmo tempo em que se sente traído, não consegue superar o sentimento de culpa por não ter notado o que ela pretendia fazer. Porém, a causa de seus problemas com as outras mulheres reside mais no sentimento de traição do que no de culpa. Afinal, se a própria mãe foi capaz de abandoná-lo, matando-se, o que ele pode esperar das outras mulheres?</p>
<p>Jung nada disse. Na verdade, ele parecia não a estar ouvindo. Seu olhar vagava dos desenhos para as anotações.</p>
<p>- Você tem certeza de que ele nada sabe sobre psicologia? – perguntou o médico.</p>
<p>- Sim. Quando ele chegou até mim – por seu intermédio, o senhor deve se lembrar –, além de não saber nada sobre psicologia, e muitos menos sobre psicologia analítica, sua mente estava fechada para qualquer referência a realidades que não pudessem ser comprovadas cientificamente. Contudo, desde que ele começou a anotar seus sonhos e a se envolver com a terapia isso vem mudando gradativamente.</p>
<p>- Sim, sim. Isso já pode ser percebido nesses desenhos, em especial, naquele que ele chamou de O Relógio do Mundo – disse o médico, enquanto voltava a analisar a figura.</p>
<p>Erna conhecia Jung há bastante tempo, no entanto, nunca havia se acostumado com o hábito de seu ex-professor de falar como se estivesse sozinho. Era preciso chamá-lo à realidade para que ele compartilhasse suas ideias.</p>
<p>- <em>Herr Doktor</em>, por favor, o senhor sabe que o meu conhecimento sobre arquétipos é insuficiente para realizar qualquer tipo de análise. Preciso, portanto, que o senhor me oriente na melhor forma de conduzir o tratamento – pediu Erna.</p>
<p>- Sim, sim. Compreendo a sua preocupação. Mas, querida, perceba, esse homem já está procurando recursos dentro do seu inconsciente para lidar com essas memórias recalcadas que tanto o atormentam. A morte da mãe, ou melhor, a forma como a mãe morreu, fez com que ele passasse a questionar sua condição de homem. Ele agora precisa encontrar a conexão entre a sua psique e a realidade que o cerca. Nisso reside o significado mais profundo do Relógio do Mundo: ele é a representação simbólica da união de sua alma com Deus.</p>
<p>- Mas, <em>Herr Doktor</em>, como ajudá-lo a compreender esse emaranhado de sentimentos que tanto sofrimento tem lhe causado? – perguntou Erna.</p>
<p>Jung sorriu e, com tranquilidade, respondeu:</p>
<p>- Minha cara Erna, você esqueceu qual a profissão do seu paciente?</p>
<p>- Físico, eu sei. Contudo, é justamente isso que está atrapalhando. Sua mente nega o intuitivo, acreditando apenas no que a razão pode provar.</p>
<p>- No entanto, você disse que ele já começa a crer na existência de outras realidades e, consequentemente, de outras verdades. Utilize, então, a Ciência que ele tanto respeita e ama a favor do tratamento. Vejo por suas últimas anotações que ele está muito envolvido em tentar provar a presença de uma partícula que ninguém até agora conseguiu descobrir. Faça-o estabelecer uma relação entre o que ele busca como cientista e a sua vida pessoal.</p>
<p>Erna sabia que, como sempre, Jung estava certo. Contudo, ela ainda tinha muitas dúvidas na forma de encaminhar a terapia. Talvez, se Pauli não fosse um homem com uma inteligência extraordinária, o seu trabalho como terapeuta fosse mais facilitado. Ela estava justamente pensando em outras questões para discutir com seu ex-professor quando ele a interrompeu:</p>
<p>- Cara Erna, chega de falarmos de trabalho. É hora do nosso chá. E você sabe como <em>Frau</em> Emma é rigorosa quando se trata das refeições em família. Vamos levante-se, tenho certeza de que depois de uma boa xícara de chá tudo ficará mais claro para você.</p>
<p>Sabedora de que não adiantava discutir, Erna levantou-se para acompanhar o médico. Essa era a forma de ele lhe dizer que tinha absoluta confiança no seu trabalho. Além disso, ele sutilmente lhe advertia que <em>Herr</em> Pauli estaria a sua espera na manhã seguinte, mas o chá de <em>Frau</em> Emma não.</p>
<p>Continua&#8230;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>dois gatos</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 11:12:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ulisses Borges</dc:creator>
				<category><![CDATA[POETOPIA]]></category>

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		<description><![CDATA[No vão daquela hora Em que a noite desaba Sobre o dia enegrecido Resta um outro segundo Para o tempo do mundo Guardar vocês dois Noutra madrugada No meio do nada Pelas ruas vazias Encharcadas de sereno Sobre alguns gramados Em todos os telhados Um deles é branco Outro é preto Todos pardos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No vão daquela hora<br />
Em que a noite desaba<br />
Sobre o dia enegrecido<br />
Resta um outro segundo<br />
Para o tempo do mundo<br />
Guardar vocês dois<br />
Noutra madrugada<br />
No meio do nada<br />
Pelas ruas vazias<br />
Encharcadas de sereno<br />
Sobre alguns gramados<br />
Em todos os telhados<br />
Um deles é branco<br />
Outro é preto<br />
Todos pardos.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A BRISA DAS MADRUGADAS</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 17:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Liz Christine</dc:creator>
				<category><![CDATA[ROSAS AZUIS]]></category>

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		<description><![CDATA[A insanidade se refrescando dentro da geladeira abre suas asas ao redor da embalagem de sorvete de chocolate branco e o transtorno alimentar engatinha até a porta do banheiro trancado. O sabor de ilusão de cada descoberta gentil sobre as sensações guardadas dentro da memória descompromissada. Não há nenhum compromisso excedente com a realidade das [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A insanidade se refrescando dentro da geladeira abre suas asas ao redor da embalagem de sorvete de chocolate branco e o transtorno alimentar engatinha até a porta do banheiro trancado. O sabor de ilusão de cada descoberta gentil sobre as sensações guardadas dentro da memória descompromissada. Não há nenhum compromisso excedente com a realidade das palavras indomáveis, porém doces como um pavê de nozes. Não há além de tudo e inclusive – não mais – nenhum compromisso também com o ritmo das inconstantes flutuações de dupla personalidade. Deixar-se estar – livre dos tormentos e constrangimentos da verbalização das insanidades diárias que se refrescam dentro da geladeira. Não compartilhar o doce de leite nem as reais inclinações de sonhos recheados com macarrons e champagne envolvidos pelo aroma de J’adore. Ah sabores – sabor de incompreensões passadas da validade ou sabor de beijos impregnados de volubilidades refrescantes e suaves. A superação de todos os tormentos e transtornos vem acompanhada de fatias generosas de amor platônico. Todos os amores platônicos contidos no silêncio da penumbra do quarto onde a noite se esconde da curiosidade das amantes da lua. Todas as estrelas que reinam soberanas dentro da memória descompromissada – tão sem compromissos quanto os sentidos de cada estrofe de um poema musicado. Leia como queira – mas não quebre mais uma vez o silêncio das prateleiras onde descansam as babuskas da coleção de lembranças sem conexão com a realidade das insanidades morando dentro da geladeira. O transtorno alimentar foi-se embora de vez e ficaram sabores intensificados pela suave liberdade das vontades gulosas, porém contidas dentro do silêncio quase sem expressão do rosto acarinhado pela brisa das madrugadas.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>do fundo</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 15:12:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ulisses Borges</dc:creator>
				<category><![CDATA[POETOPIA]]></category>

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		<description><![CDATA[do fundo de mim a voz que se arrasta trôpega enche de letras o silêncio a tela fria de um computador nela me jogo sem medo da queda ainda que o coração como liquidificador bata tudo separado a voz o silêncio lá no fundo fica tudo liquidificado sobre o computador jogado sobre a tela sobre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>do fundo<br />
de mim<br />
a voz<br />
que se arrasta<br />
trôpega<br />
enche de letras<br />
o silêncio<br />
a tela fria<br />
de um computador<br />
nela me jogo<br />
sem medo<br />
da queda<br />
ainda que<br />
o coração<br />
como liquidificador<br />
bata<br />
tudo separado<br />
a voz<br />
o silêncio<br />
lá no fundo<br />
fica tudo<br />
liquidificado<br />
sobre o computador<br />
jogado<br />
sobre a tela<br />
sobre mim<br />
sobre ela<br />
fica tudo<br />
esparramado. </p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>UM FÍSICO NO DIVÃ &#8211; PARTE DOIS</title>
		<link>http://www.argumento.net/colunas/queda/um-fisico-no-diva-parte-dois/</link>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 23:30:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[- O que você sente quando é grosseiro com seus colegas? – perguntou a médica. - Em primeiro lugar, não vejo como possa ser grosseria dizer a verdade. Meus colegas são cientistas – físicos –, assim como eu, portanto, devem estar preparados para ouvir a verdade. Em segundo lugar, se os trabalhos que eles me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- O que você sente quando é grosseiro com seus colegas? – perguntou a médica.<br />
- Em primeiro lugar, não vejo como possa ser grosseria dizer a verdade. Meus colegas são cientistas – físicos –, assim como eu, portanto, devem estar preparados para ouvir a verdade. Em segundo lugar, se os trabalhos que eles me apresentam são um lixo, em nome da Ciência, não posso simplesmente calar para não ferir os seus sentimentos. Afinal, não somos mais crianças.<br />
- Quando você diz que não é grosseria falar a verdade, a qual verdade está se referindo? – quis saber a médica.<br />
- E existe mais de uma? Para um físico há apenas a verdade científica, o fato, o que pode ser provado. Até mesmo quando estamos desenvolvendo uma teoria – algo que ainda não foi testado – sabemos que em algum momento a verdade por de trás do fenômeno irá se revelar, mesmo que seja para ser refutada. É apenas uma questão de tempo e paciência.</p>
<p>Enquanto Pauli dissertava, Erna limitava-se a ouvir e a fazer rápidas anotações.<br />
Pauli era um homem extremamente inteligente e, portanto, dono de uma personalidade complexa. No entanto, a sua visão unilateral dificultava muito certas abordagens mais heterodoxas. Por esse motivo, Erna resolveu que já era hora de provocá-lo. Queria testar até onde iriam as suas convicções sobre o que ele chamava de verdade.</p>
<p>- E quanto à morte de sua mãe? – inquiriu a médica.<br />
Imediatamente a atmosfera do consultório se alterou. A postura professoral mantida até agora por Pauli foi abandonada e a sua tensão tornou-se evidente.<br />
- O que isso tem a ver com a nossa discussão? – perguntou na defensiva.<br />
- Não sei. Você é que deve me dizer – Erna respondeu com tranquilidade. – Você consideraria a atitude de sua mãe um “lixo”? Ou, para você, ela é um “lixo”?<br />
O olhar lançado por Pauli teria feito gelar o sangue de qualquer um. Contudo, Erna estava preparada. Dessa vez ela não deixaria que ele escapasse ou se escondesse.<br />
- Minha mãe era uma escritora, uma intelectual – disse Pauli, visivelmente perturbado. – Ela não era um “lixo”!<br />
- Muito bem, sua mãe não era um “lixo”. Então, sua decisão de se matar pode ser considerada um “lixo”? – insistiu a médica.<br />
Silêncio. Erna esperou. Ela sabia que estava pisando em terreno perigoso, mas para que a terapia pudesse ter alguma chance de sucesso era preciso que Pauli enfrentasse um dos seus piores pesadelos: a morte da mãe.<br />
Depois de alguns minutos ele finalmente começou a falar. Agora sem aquela posse arrogante, marca do seu comportamento nas últimas semanas.</p>
<p>- Minha mãe – disse devagar – não suportou conviver com as traições de meu pai. Por debaixo da máscara de mulher cosmopolita e intelectualizada, havia uma pessoa frágil, carente de afeto e atenção. Infelizmente, todos nós nos deixamos iludir por sua aparência alegre e despreocupada, bem ao estilo dos atores de teatro que frequentavam a nossa casa.<br />
- Você quer dizer – interrompeu Erna – que a sua mãe representava um papel?<br />
- Sim. E eu fui suficientemente tolo e cego para não perceber.<br />
- Você acredita que se tivesse percebido essa outra realidade poderia ter evitado que ela se envenenasse?<br />
- Não sei – respondeu Pauli. – Mas se eu soubesse, se ao menos suspeitasse, talvez pudesse tê-la impedido.<br />
- Perdoe-me, mas você não acha que está exagerando nessa atitude de “Dono da Verdade”? Talvez o seu problema seja considerar-se um deus, capaz de ver o que ninguém vê ou profetizar eventos futuros – provocou a médica.</p>
<p>O choque nos olhos de Pauli era evidente. Ele não estava esperando ser tratado daquele modo. Aproveitando-se do abalo produzido ela prosseguiu:<br />
- Você vive comentando que a maioria das ideias de seus colegas é um lixo. Como você definiria o que acaba de me contar? Lixo?! – Sem dar chance a Pauli de responder, Erna olhou de maneira ostensiva para o relógio. – Bem, como o nosso tempo está terminando vou lhe dar uma tarefa. Você deve analisar, com todo o cuidado, o encontro de hoje. Examine suas palavras como se fosse uma de suas teorias. Aplique o método de análise que preferir, e tente, apenas tente enxergar as outras verdades por detrás de tudo o que conversamos.</p>
<p>Bastante abalado, Pauli levantou-se da poltrona e em silêncio dirigiu-se para a porta. Quando já estava saindo, Erna o chamou:<br />
- Herr Pauli, mais uma coisa: não se esqueça de continuar anotando os seus sonhos. Em nosso próximo encontro falaremos sobre eles. </p>
<p>E com um aceno da cabeça a médica deu a consulta por encerrada.</p>
<p>(Continua&#8230;)</p>
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		<title>TEMPORADA DE VERANEIO</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 23:25:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilka Coimbra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A leitura de “era uma vez um verão”, na Zero, de domingo passado, levou-me para o chalé de madeira com um avarandado ao redor, onde seis crianças brincavam até tarde da noite, enquanto os pais jogavam “buraco” e a vó guardava as roupas lavadas e secas no arame dos fundos da casa. Entre eles, lá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A leitura de “era uma vez um verão”, na Zero, de domingo passado, levou-me para o chalé de madeira com um avarandado ao redor, onde seis crianças brincavam até tarde da noite, enquanto os pais jogavam “buraco” e a vó guardava as roupas lavadas e secas no arame dos fundos da casa. Entre eles, lá estava eu ainda menina.</p>
<p>Vínhamos de trem de Alegrete para passar as férias, no litoral gaúcho, com os primos da capital, que só encontrávamos no verão. A casa alugada pela família tinha o controle e a supervisão da Vó Maria, que reunia filhos, noras, genros e netos para a temporada de veraneio.</p>
<p>Os dias eram radiantes e as noites, mesmo com pouca iluminação nas ruas, eram pura tranquilidade e segurança. Dormíamos com as portas abertas para “encanar” o vento que soprava do mar e passeava nos quartos por cima de nós com cheiro de maresia. Lá pela madrugada, algum adulto levantava para fechar a porta que segurava o vento lá fora até o amanhecer.</p>
<p>Cedinho, a ida para a praia transformava-se numa investida coletiva. As meninas eram encarregadas de contar as toalhas e os roupões felpudos, que nos aquecia na saída da água e impedia resfriados; os meninos ajudavam os homens com os guarda-sois e as cestas repletas de merendas preparadas pela vó Maria e a babá de uma prima menor que nem sempre nos acompanhava. Nossas mães pouca coisa carregavam no meio de tantos ajudantes. Vinham conversando, despreocupadas com aquele ar de mulher feita – donas do mundo –, todas juntas, amarrando nossa excursão. Os pais, vez ou outra conferiam se ninguém havia ficado pelo caminho e, se tudo em ordem, lá ia nossa caravana barulhenta, diariamente, rumo às areias soltinhas e ao mar.</p>
<p>As manhãs transcorriam sem tempo em meio às brincadeiras. Corrida até a beira para ver quem ganhava, dando luz aos menores; castelos enfeitados com a areia molhada pela água que surgia do buraco escavado pelo meu pai. Ele era mais alto que os tios e, portanto, tinha o braço maior, aquele que faria o poço mais fundo em busca da água. Quando o braço voltava trazia escorrendo entre os dedos a areia fininha pingando que contornava, feito renda, as torres do meu castelo. Os guris, ou jogavam bola entre eles, ou se enterravam até o pescoço para depois em desabalada carreira jogarem-se às ondas. Logo atrás deles nossos gritos – cuidado, cuidado hoje tem mãe d’água – ao que um ou outro estancava medroso de queimaduras, enquanto nos ríamos do desconfiado da vez. </p>
<p>Tio Luís encontrou um retratista de Porto Alegre. Andava fazendo dinheiro na orla – dizia ele –, e o contratou para fotografar a família toda. Entre tantas, uma foto especial, só das crianças. Como um trenzinho, um atrás do outro de maior a menor lá estávamos nós. Ainda tenho a foto e me surpreendo quando lembro a data – final dos anos cinquenta&#8230; Parece que foi ontem.</p>
<p>Quando tio Gringo pescava tínhamos fritado de peixe-rei e vovó descansava da cozinha. Sentada conosco na sombra da varanda contava da família que veio do norte da Itália. De todas as histórias a que mais nos agradava ouvir era a do irmão mais velho que fugiu de trem com uma mocinha de Taquara para Santa Maria, mesmo estando noivo de outra. Entre o escândalo da época e o amor do irmão e da cunhada, vovó mal escondia um sorriso brejeiro no canto da boca.<br />
– Meio dia em casa, pedia sempre. Antes do almoço tínhamos um ritual que nunca foi desrespeitado: banho frio no chuveiro do pátio, para não sujar a casa e, depois, em fila, pela cozinha aguardava-nos um pequeno cálice de vinho do Porto com uma gema crua dentro. – Não pensa, não pensa, engole rápido – repetia vovó. Mas sempre tinha um de nós que, vez ou outra resolvia pensar&#8230; era horrível, mas todos cresceram sem traumas, fortes e sadios como ela prometeu. Não sei se pela gema crua com o vinho do Porto, ou se pela infância feliz dos verões em família.</p>
<p>Ao fechar o jornal daquele domingo me perdi da menina do era uma vez e virei a avó à espera dos netos em minha própria casa de veraneio – que pena que hoje o tempo tem pressa e os ventos que rondam nossas temporadas são outros.</p>
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