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	<title>Argumento.net &#187; CONTEXTO</title>
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	<description>CADA ARGUMENTO NO SEU GALHO</description>
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		<title>vácuo</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 18:28:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Caminante, son tus huellas el camino, y nada mas; Caminante, no hay camino; se hace el camino al andar. Al andar se hace camino Y al volver la vista atras se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante, no hay camino, si no estelas en la mar.  (Antonio Machado y [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<address>Caminante, son tus huellas</address>
<address>el camino, y nada mas;</address>
<address>Caminante, no hay camino;</address>
<address>se hace el camino al andar.</address>
<address>Al andar se hace camino</address>
<address>Y al volver la vista atras</address>
<address>se ve la senda que nunca</address>
<address>se ha de volver a pisar.</address>
<address>Caminante, no hay camino,</address>
<address>si no estelas en la mar. </address>
<p>(Antonio Machado y Ruiz)</p>
<p> Navego por caminhos novos, velocidade extrema, sentindo por vezes o vento salgado que machuca, acompanhando com olhar atento todas as novidades piscantes que parecem surgir no meu campo de visão. Esse mesmo olhar que por tanto tempo parecia fechado em um só foco, quase perdido depois que virou opaco, acostumado a olhar sempre o mesmo e sempre da mesma maneira. É que preciso de novos ares, entende? E nem adianta perguntares se eu sei o destino. Não é isso o que importa agora. <em>Caminante, no hay caminho: se hace el caminho al andar.</em> Há momentos em que um voo cego é o mais lúcido a ser feito. Preciso, sim, forçar a captura de todo o oxigênio, inflando ao máximo os pulmões, renovando tudo o que havia de viciado aqui dentro. Abrir as janelas, não é mesmo? Arejar! Fazer o ar circular. Dentro em mim há um mundo de possibilidades e é preciso coragem para não as ver. O que podemos fazer quando não há móveis novos para decorar a sala se não trocá-los de lugar, inverter a lógica do já estabelecido, tornar diferente o que sempre nos parecia igual? Sigo, portanto, nessa alta velocidade, mas é claro que com a mão a postos para qualquer freio de emergência. Não há mais aquele lá. Aquele lá ficou lá, em algum lugar perdido em nossas lembranças. É que eu precisava partir, entende? E sinto agora esse ar gelado, o vento salgado que por vezes machuca, mas então eu fecho meus olhos, assim, bem forte, viro-me pra dentro de mim, atravesso-me, avesso-me, e já não te vejo no meu escuro.</p>
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		<title>mínimo múltiplo comum</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Jan 2012 15:21:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Ei, você, chega aqui mais perto, assim, olha bem nos meus olhos e me diz, me diz, o que vai acontecer com a gente? Não há mais lágrimas aqui, há pena, sentimento estranho, repetitivo. E essa música triste que não para de tocar. Não me deu um último abraço. Sim, tivemos nosso último abraço ainda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ei, você, chega aqui mais perto, assim, olha bem nos meus olhos e me diz, me diz, o que vai acontecer com a gente? Não há mais lágrimas aqui, há pena, sentimento estranho, repetitivo. E essa música triste que não para de tocar. Não me deu um último abraço. Sim, tivemos nosso último abraço ainda quando não sabíamos que era o último. A tua vida já não cabe no meu guarda-roupa e nas poucas gavetas que compartilhei contigo. E eu abro as mãos, e eu te solto para o voo. Não há mais lágrimas aqui, há uma leve dor, tal agulha, fincadinhas precisas, mas suportáveis . E é assim que encaro a tua fotografia, tu insistindo em não tirá-la naquele dia frio de inverno, quase saindo de quadro, olhando lá para baixo. (Para o que olhava? Para o abismo? O nosso abismo). Não te disse sobre o precipício, sobre os riscos de caminhar rente à linha que separa o tudo do nada? Quem caiu primeiro? Estendemos o braço? Fizemos algum esforço para tentar salvar aquele outro corpo que voava em queda livre?</p>
<p>Ei, entenda. Não quero ser melodramático, mas puxa. Que pena. Tão bonito, não foi? Tanta coisa, não foi? Tantas risadas? E o carinho? Ah, me diz. Me fala sobre o carinho, e a cumplicidade. Corpos em encaixe quase perfeito, num aconchego que me fazia sentir em casa. Na minha, na tua, na nossa casa. Multiplicamos o mínimo, reproduzindo-o a números cada vez maiores.</p>
<p>Ei, olha pra mim, vem cá, me diz, por que esta tristeza? A chuva cai lenta neste asfalto quente, e lentamente procuramos lágrimas que não vêm, já disse. Todo o meu corpo parece falar dessa tristeza, brincar com ela, provocá-la. Meus braços fortemente unidos contra a almofada, minha proteção?</p>
<p>Ei, vem cá, me diz. É a tristeza que me visita, assim, de mansinho, mesmo que contra ela eu apresente tantas armas? É contra a tristeza que me movo, contra ela que levanto toda essa memória. Flashes. Vejo daqui, tu sorri. Mesmo com a tristeza por perto, fazendo-se de companhia, há o sorriso, testemunha de um tudo. Dessa permissão concedida por mim mesmo para acreditar, por todo este tempo, tão longo, tão curto, mas tão tão tão legítimo.</p>
<p>Ei&#8230; sabe? Te vejo daqui. E te prepara para os meus clichês. Porque mesmo longe, te tenho. Me tens. É isso, tão simples. Quase posso te alcançar, enquanto minha mão tateia o vazio da ausência. Sim. Ao menos no texto, palavras que se reúnem e fazem sentido para dizer um pouco do que sinto (Ei, nunca terminamos aquele artigo&#8230;).</p>
<p>Ei, te vejo daqui, e te vejo sorrindo. Porque há o orgulho das ações não pensadas: mas vividas. E se viveu. Uma vida em comum, ainda que por vezes compartilhada por medos e dúvidas. Uma vida que aconteceu, e não ficou desenhada.</p>
<p>Ei, é sério. Está escuro. Talvez não seja tristeza, afinal. Apenas medo. Olha, escuta o silêncio, escuta o que ele te diz. Não, não estou mais ali, do outro lado do telefone. Ausento-me, desfaço-me, implodo-me, e é tão difícil, ainda que saiba o tanto que há de ti em mim, o tanto que há de mim em ti. E se nos perdemos, e se nos perdermos pra sempre, sim, sabemos que tudo valeu muito a pena desde o dia em que nos achamos. </p>
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		<title>A FRUSTRAÇÃO VIA INCOMPETÊNCIA</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Jan 2012 23:29:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Acompanho, via facebook, a motivação de professores de terceiro ano e cursinho a seus alunos, agora em tempos de vestibular da UFRGS. Muitos desses são meus amigos, e pessoas a quem admiro de verdade. Não me entendam mal, também eu, há um ano, levava o mesmo tipo de mensagem edificante, tentando mostrar minha certeza na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acompanho, via facebook, a motivação de professores de terceiro ano e cursinho a seus alunos, agora em tempos de vestibular da UFRGS. Muitos desses são meus amigos, e pessoas a quem admiro de verdade. Não me entendam mal, também eu, há um ano, levava o mesmo tipo de mensagem edificante, tentando mostrar minha certeza na capacidade de cada um dos meus alunos. Mas sempre, sempre, depois de postado o recado, me perguntava até que ponto não compactuava com a venda de um sonho impossível. E alimentava um ideal de frustração.</p>
<p>Sim, professores, especialmente de cursinhos, vendem a ideia de que é possível vencer o Adamastor – o vestibular. Porém, neste pacote, há uma série de incoerências que vão junto, a começar, a impossibilidade de vermos todos os nossos alunos aprovados. É injusto, é estressante, é irritante – mas é o que é. O Vestibular da UFRGS reserva a poucos o direito de cursar faculdades com qualidade acima da média a preço zero.  </p>
<p>Ok, então. Vale a motivação, mas prefiro aqueles que não colocam em suas palavras promessa de sucesso – porque isso é falso. Não há nenhuma promessa. O que de fato me irrita, na verdade, são as declarações pós-provas de professores de cursinho – refiro-me aos da minha área, e as Letras, se vocês ainda não repararam, respondem por QUATRO provas.<br />
Professores vieram a público para criticarem a prova de Literatura, por exemplo. Argumento: algo do tipo “os alunos esperavam uma prova como sempre foi, em ordem cronológica, cobrindo boa parte do conteúdo. No lugar disso, tivemos muitas perguntas de interpretação textual (e o que seria da literatura não fosse a interpretação?) e outras tantas exigindo conhecimento nas obras de leituras obrigatórias (que, sejamos francos, apenas uma minoria preparada lê)”. </p>
<p>Ah, como incomoda certas cabeças treinadas a treinar uma fórmula quando seus prognósticos não são cumpridos. Como incomoda perceber que as provas podem – e devem – mudar o seu estilo, e não há nada de errado nisso.</p>
<p>No que diz respeito à Redação, a gurizada caiu de pau em cima do tema, e isso foi suficiente para vários professores trazerem uma argumentação ainda mais vaga sobre a prova: estava ‘confusa’, ‘difícil’, ‘vaga’. </p>
<p>Como professor de estudos lusófonos, não preciso dizer o quanto me empolgou este tema. Porque, de verdade, eu – agora no outro lado da linha, como professor universitário – espero que os alunos da UFRGS consigam refletir sobre a língua que falam. Poxa, será que só eu, quando professor de ensino médio, que discutia a história da língua portuguesa – de onde veio, que outros povos nos influenciaram, o que ela pode gerar, em suas manifestações, de preconceito linguístico &#8211; , levava exemplos de literatura de outros países falantes, debatia o problemão da gramática tradicional e da língua coloquial, apresentava propostas sobre a própria língua na Redação&#8230;?</p>
<p>Vitimizar o aluno que fez essa redação, sublinhando um tal equívoco na proposta e ratificando a dificuldade de se pensar na própria língua, é estabelecer um parâmetro muito baixo de expectativa: o que então de fato esperamos desses vestibulandos? Será que um aluno que vive no facebook, em contato com outros, que se manifesta de diferentes formas, linguisticamente, não tem condições de pensar sobre isso? Nem que seja para criticar essa língua portuguesa sempre tão criticada por eles?</p>
<p>Fico desconcertado com esse tipo de julgamento: ah, muito difícil. Mas o que não é? Em contrapartida, recebi algumas mensagens de alunos que acharam o tema acessível, legal, tranquilo. Talvez esses tenham lido mais a respeito, acompanharam a questão do acordo ortográfico, tinham o que dizer, mas, desculpem-me, desculpem-nos, mas se nossos alunos saem das escolas sem conseguirem refletir sobre a própria língua que falam – ou pior, sem nem entenderem o enunciado da proposta – talvez a culpa não seja da prova, mas de todos nós – alunos e professores.  </p>
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		<title>REC</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Dec 2011 20:43:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[De posse do gravador antigo, presente da tia, um gravador Gradiente preto com capa imitando couro, ela sentou-se no sofá. A fita cassete instalada no equipamento. O microfone anacrônico em suas mãos. Uma xícara de café muito forte mostrava-se presente pelo cheiro que se espalhava pela sala. Apertou o REC. “Todos vão para as casas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De posse do gravador antigo, presente da tia, um gravador Gradiente preto com capa imitando couro, ela sentou-se no sofá. A fita cassete instalada no equipamento. O microfone anacrônico em suas mãos. Uma xícara de café muito forte mostrava-se presente pelo cheiro que se espalhava pela sala.</p>
<p>Apertou o REC.</p>
<p>“Todos vão para as casas de parentes e amigos comemorar a noite do Natal. A noite do Natal que não consegue mais trazer junto aquele encantamento antigo. Vejo-me aqui devidamente arrumada para esta noite festiva. Ali na mesa vejo os presentes devidamente empacotados, escondendo a surpresa da descoberta. Vejo a árvore de Natal, devidamente piscante, mesmo que de forma relutante. E vejo a cadeira – devidamente – vazia”.</p>
<p>Bebeu um gole de café. Depois outro.</p>
<p>“E é sobre esta cadeira vazia&#8230; Ela que me fez buscar este antigo gravador, e conversar comigo, já que a cadeira está vazia. Fico procurando encontrar o exato momento em que nos perdemos. Qual o dia em que nos olhamos e não estávamos mais lá? Veja bem, já não sinto mais aquela dor da ausência, aquela sensação de semiabandono. Existe a frustração, e o vazio da cadeira vazia. Pois é nessa cadeira que estão sentados os nossos sonhos. Ou os meus sonhos. Todos aqueles que construí durante este ano. Toda a fantasia criada em torno de um ‘nós’ que sim, foi muito mais frágil do que parecia. Tão frágil como aquela taça que se quebrou na cozinha”.</p>
<p>Ela interrompeu a gravação. Parecia desistir. Outro gole de café. REC.</p>
<p>“Aquele dia em que casualmente nos encontramos na rua, lembra? Depois que tudo estava devidamente suspenso. Eu apenas me lembro do silêncio que antecedeu nossos ois. O meu sorriso e o teu sorriso estampados tão explicitamente em nossos rostos. Ali, eu acredito, criamos uma espécie de redoma. Naquele instante, naquela esquina, naquele final de tarde, estávamos tão próximos que nem o toque era necessário. Mas ainda assim, tão distantes. Não sei se é sempre assim. Aquele silêncio e aquela vontade urgente de te abraçar. </p>
<p>Não nos abraçamos”.</p>
<p>Terminou de beber o café.</p>
<p>“Não sei por que deixo isso registrado, um pouco do que penso, do que vivo. Talvez para deixar gravada a certeza de todos os segundos vividos, de forma intensa. E dizer que tenho orgulho de ti, de mim, do nível de intimidade que construímos nesse mundo avesso a relações profundas. Não falo com mágoa. Certeza do que foi, incerteza do que vem. E é assim que te deixo essas minhas palavras. Tu sabe quem eu sou, quem eu fui. Eu sei quem tu é, quem tu foi. E deste mesmo sofá de tantos e inesquecíveis momentos, agora sentada sozinha, vejo a porta fechada. Já esperei que tu entrasse por ela. Já não espero mais.”</p>
<p>Levantou-se do sofá. Pegou o gravador. Rebobinou. Apertou no ERASE. Juntou os presentes, pegou a bolsa, sorriu. Fechou a porta. As luzes da árvore de Natal ainda piscavam.    </p>
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		<title>TODAS AS COISAS: NADA</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Dec 2011 16:29:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Todas as noites inquietas todo o sono quebrado todos os medos surgidos todos os suspiros expostos todas as lágrimas engolidas todo o corpo retesado toda a angústia estendida todo o pesadelo vivido toda a certeza suspensa toda a ausência presente todas as cenas dos filmes todos os abraços partidos todas as músicas ouvidas todas as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todas as noites inquietas todo o sono quebrado todos os medos surgidos todos os suspiros expostos todas as lágrimas engolidas todo o corpo retesado toda a angústia estendida todo o pesadelo vivido toda a certeza suspensa toda a ausência presente todas as cenas dos filmes todos os abraços partidos todas as músicas ouvidas todas as dores sentidas todas as dúvidas compradas toda a decepção desenhada toda a verdade escondida todo o pensamento doído todos os nós da garganta todos os passos inseguros todo o caminho sem volta todos os textos escritos todos os discursos ensaiados todos os olhares perdidos toda a solidão acompanhada todos os tombos sofridos todas as cascas que caem todo o choro que rompe toda a palavra inútil todo o gesto perplexo toda a proteção rompida todos os ombros pesados todos os atos suspeitos todos os desejos incompletos todas as promessas vazias todas as certezas adiadas todo o sorriso fingido todo o passado mexido toda a garantia violada toda a verdade em xeque todos os brindes no ar todas as rosas sem cheiro toda a janela embaçada toda a morada invadida</p>
<p>Todos os escapes todos os impulsos todos os espasmos todos os mergulhos todas as mordidas todos os toques todas as rotas todos os equívocos todas as fugas todos os motes todas as couraças todos os gritos todas as faltas todos os modos todas as abstrações todos os acenos todas as sensações todos os acertos todas as vezes</p>
<p>Todos os dias que se fazem difíceis devem explicar qualquer coisa<br />
Qualquer coisa mesmo sem sentido agora<br />
Um dia<br />
Tudo.</p>
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		<title>DA URGÊNCIA DAS COISAS E O SEU SEM SENTIDO</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Dec 2011 13:51:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Você está com pressa, com muita pressa. Tanta pressa que está pensando dez vezes se deve continuar a ler este texto. Meu Deus, tanta coisa acontecendo, eu conectado com o mundo, tantas possibilidades, tanta coisa pra fazer, final de semestre na faculdade, correria de sempre, comprar presente pro amigo secreto, pra família, sem dinheiro, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Você está com pressa, com muita pressa. Tanta pressa que está pensando dez vezes se deve continuar a ler este texto. <em>Meu Deus, tanta coisa acontecendo, eu conectado com o mundo, tantas possibilidades, tanta coisa pra fazer, final de semestre na faculdade, correria de sempre, comprar presente pro amigo secreto, pra família, sem dinheiro, e afinal de contas do que fala esse texto, eu vou ser obrigado a pular umas linhas&#8230;</em></p>
<p><em>&#8230;eu tenho que ler um monte de coisa e eu não quero me atrasar, perder meu sono, ganhar as madrugadas&#8230; Eu preciso correr, eu tenho muito o que fazer           &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</em></p>
<p><em>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</em></p>
<p>            Tenho observado uma luta inglória. A minha contra o meu tempo. O final do ano mostra sempre um lado especialmente estressante; a gente sempre acaba se perguntando por que não somos riquíssimos, não vamos fazer um cruzeiro pelo mundo e esquecer esse monte de coisa chata que a gente TEM pra fazer.</p>
<p>            E é tanta coisa que, às vezes, tudo para. São apenas alguns segundos, quando o acúmulo de tarefas parece provocar uma espécie de engarrafamento no trânsito dos neurônios. Aliás, você já pensou nos seus neurônios? Em como eles devem esquentar nestas épocas de fim de ano, calor e atrolho em voltagem máxima? Um vai-e-vem-e-vem-e-volta alucinado, infernal&#8230; Fico imaginando-os numa espécie de corrida de revezamento, estressadíssimos, soltando gritinhos nervosos, trêmulos, exaustos&#8230; E você (não) se vendo indo guardar o Nescafé na geladeira, indo procurar um copo no banheiro, tentando pegar uma maçã no micro, indo por um caminho que, assim, de repente, você nem sabe mais pra onde leva&#8230;</p>
<p>Você está pensando em trinta coisas ao mesmo tempo. Tenta ser sistemático, anota tudo o que tem para fazer, trabalhos pra faculdade, projetos, trabalhos no trabalho, amigos negligenciados, e é tanta a piração que você se vê obrigado a anotar coisas ridículas do tipo: telefonar para fulaninha, ciclaninho e beltranão. Ir ao banco, pagar o condomínio. Você se pergunta se qualquer dia deixará espaço na sua tão apertada agenda para aquelas tarefas fisiológicas, aquelas que só você pode fazer, sabe? Se bem que tem gente que fica realizando uma espécie de dança, um ritual, pulinhos nervosos no mesmo lugar, e sem nenhuma vergonha, elas dizem que estão apertadíssimas, mas não têm tempo de ir ao banheiro. Tentam otimizar esses pequenos passeios ao toalete: <em>assim eu não acostumo a bexiga a achar que manda em mim.</em> Sim, já ouvi isso.</p>
<p>            Pensamos: <em>Por que o dia não tem 30 horas? Seis horas a mais, duas pra fazer essas coisas que vamos empilhando e quatro pra se divertir, porque ninguém é de ferro</em>&#8230;E foi cogitando essa nova divisão temporal que me dei conta de como estamos, realmente, perdidos.</p>
<p>            Não. Os dias não serão espichados. E se fossem, igualmente seriam curtos. Não, talvez seja preciso matar no peito decisões de abandonar certas tarefas que nunca sairão do lugar, e que só estão ali, à espera, para potencializar nossa tendência à culpa. Para servirem de espelho de nosso fracasso diário em dar conta de tanta coisa em tão pouco tempo.  Deixando para depois, empilhamos essas pequenas frustrações em cima da escrivaninha. Deixando para depois, saímos do foco daquilo que, de fato, tem urgência.</p>
<p>            Existe urgência?</p>
<p>            Há beleza no ócio, cada vez mais combatido. E cada vez mais difícil de ser atingido, porque só mesmo alguém muito concentrado para conseguir desconcentrar-se de tudo e virar para dentro de si mesmo, num parque, por exemplo, num dia bonito, por exemplo, a olhar o nada. A pensar nada. E achar tudo muito especial.</p>
<p>            A ouvir o silêncio. Respirar sem pressa. E acreditar.</p>
<p>“&#8230;Pensar em nada/ É ter a alma própria e inteira./ Pensar em nada/ É viver intimamente/ O fluxo e o refluxo da vida&#8230;” (Álvaro de Campos &#8211; FP)</p>
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		<title>DESCOMPASSO</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Nov 2011 11:58:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu sinto a brisa de um mar distante, vejo contornos, percebo ausências. Reconstruo-me em todos esses pedaços que me restam, e isso talvez me baste. Sei que já não busco respostas, nem mais perguntas. O sol lá fora brilha e alguém grita: é o mesmo céu azul que se apresenta. O olhar se perde nesta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sinto a brisa de um mar distante, vejo contornos, percebo ausências. Reconstruo-me em todos esses pedaços que me restam, e isso talvez me baste. Sei que já não busco respostas, nem mais perguntas. O sol lá fora brilha e alguém grita: é o mesmo céu azul que se apresenta. O olhar se perde nesta imensidão. Blues. O cheiro do forno. Risadas de um tempo perdido. A melancolia estende suas patas. Espreguiça-se, espaçosa. No sofá cor de creme eu penso. Tantas histórias lidas nas páginas amareladas destas estantes. Tantas vidas, tantas juras, tantas certezas. E todo livro se fecha, deixando em suspenso suas surpresas. A buzina avisa lá fora que há urgência. Como pode existir pressa quando nada faz sentido? Os ponteiros seguem sua rotina e marcam horas que já foram. O dicionário ensina obviedades – oco é vazio por dentro. Afofando a almofada, adormeço.</p>
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		<title>O MASSACRE DAS SINALEIRAS</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Nov 2011 01:50:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foi mais ou menos assim que aconteceu. De repente saiu a notícia: 126 carros tinham sido depredados em sinaleiras num mesmo dia. Meninos de dez, doze anos pediam suas esmolinhas costumeiras. Os motoristas repetiam o padrão de comportamento de sempre: uns nem olhavam para as criaturas, outros diziam “tenho nada não” constrangidos, outros apenas sorriam. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi mais ou menos assim que aconteceu. De repente saiu a notícia: 126 carros tinham sido depredados em sinaleiras num mesmo dia. Meninos de dez, doze anos pediam suas esmolinhas costumeiras. Os motoristas repetiam o padrão de comportamento de sempre: uns nem olhavam para as criaturas, outros diziam “tenho nada não” constrangidos, outros apenas sorriam. </p>
<p>Mas parece que foi na avenida Ipiranga o primeiro caso. O menino jogou uma pedra no vidro, acertando em cheio também o motorista. Depois saiu correndo, rindo, escondendo-se embaixo da ponte. </p>
<p>A ideia se espalhou com incrível rapidez. Os esmoleiros perceberam a estúpida situação daqueles motoristas presos em seus cintos de segurança e em seus medos, com o pé pronto para acelerar, e resolveram tornar suas vidas mais divertidas. Espécie de vingança social, “se a gente não tem carro, por que esses filhos da puta têm?”, disse R.O., nove anos. </p>
<p>A professora aposentada Marluce Dias jurou nunca mais sair com seu carro, depois de se ver cercada por cinco pedintes que berravam: “Uma moedinha, tia, ou tu vai parar na oficina.” Desesperada, deu-se por conta de que havia esquecido a niqueleira, levava apenas os documentos. Pensou em passar um cheque, cartão de débito&#8230; Mas, não. Nada pode fazer a não ser assistir ao ataque de piranhas ensandecidas ao seu Mercedes Classe A de terceira mão. Pedras, tijolos, ferros contorcidos, até tacos de baseball surgidos do nada viraram armas. Marluce parou no pronto-socorro. Antes de desmaiar, notou que tinha 2 reais no bolso. </p>
<p>Um dia, cinco casos. No seguinte, 32, até chegar nos inacreditáveis 126 da semana passada. Onze motoristas foram mortos. A Brigada Militar foi questionada pela imprensa, mas disse ser impossível colocar uma viatura em cada sinaleira da cidade. A alternativa de desativação das sinaleiras foi motivo de chacota na câmara dos vereadores. Segundo os policiais, há mais de 800 menores envolvidos neste tipo de crime.</p>
<p>As autoridades conclamam a população a não sair com seus carros nas ruas até que alguma providência seja tomada. Há boatos de que na Avenida Princesa Isabel há gangues com metralhadoras e granadas roubadas do Exército.</p>
<p>O sociólogo Rubens de Tarso chama a atenção para o fato de que nenhum dos carros foi roubado. “Parece que o roubo e o furto estão sendo gradativamente substituídos pelo crime aparentemente sem sentido, mas que traz consigo a marca da desigualdade social e da indiferença”.</p>
<p>“É só por maldade”, gritava o senhor Miro Oliveira, ao ver seu gol 1995 semi-destruído. Depois de apedrejado, os menores viraram o automóvel até ele cair e afundar no Arroio Dilúvio. </p>
<p>As seguradoras de automóveis reúnem-se na semana que vem para discutirem uma forma de excluírem da cobertura do seguro os veículos que sofrerem esses atos de vandalismo. A empresa que fabrica carros blindados diz que suas vendas cresceram mais de 200% no último mês.</p>
<p>A associação das autoescolas de Porto Alegre sofreu uma queda de oitenta por cento nas matrículas. Já a prefeitura de Porto Alegre diz que não há veículos suficientes para a nova demanda do transporte público coletivo. “Ainda bem que vem o metrô por aí’,consola-se Raquel Faria. “Nem de bicicleta dá&#8230; Tá todo mundo dizendo que é perigoso por causa dos fios de alta tensão”.</p>
<p>(Este texto – ainda – é uma ficção)</p>
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		<title>A ARTE DA TRANSFERÊNCIA</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Oct 2011 16:35:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Entrou nas discussões preferidas dos professores um projeto polêmico, criado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que atrela, entre outras coisas, garantia de aumento no salário em casos de diminuição de repetência e evasão escolar. O ridículo projeto só pode causar indignação a quem um dia entrou em uma sala de aula. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entrou nas discussões preferidas dos professores um projeto polêmico, criado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que atrela, entre outras coisas, garantia de aumento no salário em casos de diminuição de repetência e evasão escolar.</p>
<p>O ridículo projeto só pode causar indignação a quem um dia entrou em uma sala de aula. Primeiro, porque generaliza um processo que é, absolutamente, individual. Cada professor deve – ou deveria – ser suficientemente capaz de discernir o que pode ou não pode fazer em aula para garantir a melhor educação possível a seus pupilos. Porém, para engravatados e demais participantes de uma sociedade hipócrita, que têm prazer em simplificar as situações, culpar os professores pelo caos da educação é sempre cômodo.</p>
<p>Isso que falo de um lugar privilegiado. Nunca dei aula em escola pública, mas sou filho dela. Estudei minha vida inteira em uma, e também sou filho de professora estadual. Como professor, tive sorte em trabalhar em boas escolas privadas, e em instituições de ensino superior, onde tudo também é diferente.</p>
<p>Ocorre que essa tendência a transferir a culpa é uma sina que acompanha os professores. Sabemos todos que há anos a sala de aula vira, de modo geral, um local onde os pais transferem suas responsabilidades de educadores (pois são, ou ao menos deveriam ser). É comum, tanto na pública quanto na privada, papais que estranham o comportamento agressivo do filhinho: mas em casa ele é tão quietinho; ou impõem ao professor tarefas que não dizem respeito a ele – por exemplo: Professor, ele anda um pouco deprimido, será que o senhor consegue descobrir o que ele tem?</p>
<p>O mais triste é que não existe escola para ser pai e ser mãe, o que evidentemente pouparia anos de terapia ou fios de cabelo branco em muitos professores, que precisam conviver com 30, 40, por vezes 50 crianças-adolescentes, cada qual com suas manias, mimos, cada qual carregando as falhas de pais e mães que trabalham de mais, ou de menos&#8230;</p>
<p>E agora, como se não bastasse, vem o Governo gaúcho querer condicionar a diminuição da repetência a um bônus no salário do professor; implicitamente afirmando que o fato de os alunos reprovarem é culpa de um ensino tosco oferecido pelo mestre, e não por conta das tantas variáveis possíveis nesse caso. Mais grave: condicionar a desistência dos alunos à aula do professor. O fulaninho precisa trabalhar, desiste da escola, e a culpa é do professor?</p>
<p>O que farão os professores para segurar os alunos o ano inteiro em sala de aula? Rifas mensais? Shows da comunidade?  Sapateado, rebolation? Bombons ao final de cada trimestre?</p>
<p>Tão ridículo e arbitrário como esse projeto sugerido – eu teria vergonha de participar deste grupo de pedagogos – seria também promover bônus aos professores caso todas as salas de aula estaduais tivessem condições de receber os alunos. Imagine: se o professor consertar as goteiras do telhado, receberá 10% de aumento. Se arrumar aquela porta que nunca fecha, mais 5%. E se resolver o cheiro de esgoto, bah, isso vale mais 8%.</p>
<p>Tão fácil a transferência de responsabilidade&#8230; Todo Estado hipócrita, que finge que se preocupa com a educação, só pode mesmo ter essas ideias geniais. Depois os professores reclamam, a sociedade reclama porque os professores reclamam, e a mensagem é sempre a mesma: “ah, essa gente nunca quer trabalhar mesmo. Estão sempre reclamando. Deveriam procurar outro emprego”.</p>
<p>Resta saber se em outras áreas essas ideias fossem sequer concebidas, isso não ocasionaria uma discussão de muito maior repercussão. Imaginem condicionar salários de médicos públicos a filas menores no SUS, ou ainda à cura ou sobrevivência do paciente. Funcionários da Justiça que desovassem o tanto de processos acumulados não teriam seu salário reduzido. Motoristas do transporte público que não atrasassem a sua linha ganhariam bônus (grande coisa que a culpa é do trânsito). Ah, e quem sabe: burocratas e políticos que não dessem a público projetos ridículos igualmente ganhariam não um bônus, pois já recebem bem demais, mas uma estrelinha de condecoração.</p>
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		<title>HODIERNAMENTE</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Aug 2011 14:27:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Abro os olhos. É escuro. Madrugada. Desperto de um sonho de ação, pesadelo-me em sombrios espasmos. Sinto teu aconchego e tudo se dissipa, corpo que volta para o lugar. Abro os olhos. Amanhece-nos. Pulas na cama como criança que descobre uma nova brincadeira. Cantas, danças. Impossível não sorrir nessas manhãs tão manhãs que se encenam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Abro os olhos. É escuro. Madrugada. Desperto de um sonho de ação, pesadelo-me em sombrios espasmos. Sinto teu aconchego e tudo se dissipa, corpo que volta para o lugar. </p>
<p>Abro os olhos. Amanhece-nos. Pulas na cama como criança que descobre uma nova brincadeira. Cantas, danças. Impossível não sorrir nessas manhãs tão manhãs que se encenam em nosso dia a dia.</p>
<p>Tudo é sempre tão simples, e tão espontâneo, que todas as couraças estão guardadas no sótão. Reinvento-me ao teu lado, a cada sorriso, cócegas desenfreadas. A cada abraço. </p>
<p>Abro a porta. É noite. Procuro no escuro da casa marcas da tua presença. Sinto o cheiro do banho fresco, mas não te vejo. Brincas de esconde-esconde e, outra vez, gargalhamos. Perco o rumo, o prumo, saio de mim no teu beijo. </p>
<p>Conversas e confidências na cozinha, no sofá, na cama. Zapping na TV a Cabo: casas imundas, manias bizarras, mundo sobrenatural, Simpsons. Busca-se um ho-di-er-na-men-te no dicionário. Construção diária de uma cumplicidade nunca antes vivida. Não acreditas, eu sei. Mas te falo: confesso-me.</p>
<p>E se uso uma linguagem formal nesta carta que ora te escrevo, é apenas para rebuscar a linguagem de uma convivência que se faz diariamente tão simples, já disse. Tão doce, tão nossa.</p>
<p>Fecho os olhos. </p>
<p>Adormecemos em nós.  </p>
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