então as palavras romperam a casa como aves libertas e revelaram os corpos nus nem era noite cuspiram sobre as lágrimas contidas rasgaram verdades natimortas amor alça voo sem pena explode em silêncios gordos descola camadas de vidas inteiras desenha nas paredes aranha, corujas e gatos é tempo (e eu sou tua)
naquela caixa eu guardei o tempo um guardanapo amarrotado algumas dores a imagem de santa meu sertão todos os outros passos sem espaço para o avesso lotei de luto as certezas silêncio para respirar tonta de engano escrevo o teu nome (palavrabraço) poesia é só memória
fui parida para os dias frios gestos dramáticos em notas de bolero um vinho bom vermelha é também a ideia como o teu sangue fervendo palavras na minha boca
sou só descaso gosto de longos silêncios música me enternece beijo porque é bom coleciono abismos de mim é que tenho medo quero os copos quebrados algumas madrugadas o braço sobre o corpo cansado mansidão sem laço que prenda a palavra sem caixa que cale a canção.
não tenho medo dos teus olhos pueris nem do teu corpo lasso não tenho medo da falta fujo é das janelas que abres sol que se estilhaça minha nudez
Destranquei o bolero e as palavras furiosas libertei o corpo e a sede dancei porque ainda havia ar Anoiteci Serenidade é saber que todo dia é fim
Enquanto você não vem eu arrumo os caminhos desenho flores nas paredes da casa vazia e beijo-as guardo as palavras insensatas nas caixas verdes Não derramo lágrima (que já chove sobre a árvore da frente) Não sofro a falta espera é uma madrugada quente em agosto
Chega uma hora em que olha no espelho e não encontra mais o avesso a cara é só retrato 3×4 da sua identidade emaranhada o que há por trás é a casa escura soando berros de alguma canção inominável Memória tem cheiro de flor em velório doce cozinhando em panela de vó Se ainda acreditasse, [...]
E vem de novo a vida pombagirando desembestada velozvorazvermelhaventando as vozes confusas vadias de carnaval e medo lambem os pés ariscos varrida a via suja o que sobrevivive é risco
as palavras nuas sobre o lençol espelhavam os corpos amantes antes de o mundo pedir silêncio