Álvaro de Campos e sua poltrona de melancolia.
Seus tapetes.
As cartas.
Ridículos
Enrodilhei-me no nonsense da palavra amorosa.
Corpo nu.
E eu já nem tinha medo.
A madrugada faz ausência.
Ainda é (im)perfeito: chove.
(mas eu não ouso dizer)
-Vai
eu te diria se pudesse
sem lágrima
sem gesto de adeus
sem despedaçar-me
Há tanto que mastigo as dores
Há tanto que enxugo a saliva
que a palavra só
é partida
das coisas que já não digo:
tanta água
algum medo
amor
horas gordas
um copo de sal
o corpo só
dobrada em silêncio
a matéria dos segredos alimenta-se dos segundos
até ser navalha
medo é veneno
um céu sem estrela engole a memória
amor é temporal
agora chove
(você me guardaria na caixa das coisas esquecidas?)
palavra escrita pequenina
ao lado do teu peito
eu suspeito que te amo
você suspira enluarado
se eu fosse bicho
te unhava, arrancava um pedaço
ou então te devorava
te enredava na minha teia
me enrolava no teu corpo e sufocava
se eu fosse bicho, nem falava
só olhava armando bote
atacava
tempo de respirar?
não dava.
tavas morto se não visse
que tinha bem do teu lado
um poderoso bicho
armadura
duríssima casca
madrepérola
máscara
imaculada
se não fosse câncer
seria certamente virgem
sua concha
tudo sempre morre
o que resta é saudade
depois suave impressão
pinceladas foscas no vazio
colorindo nada
tudo sempre nasce
até onde há sal
e deserto
é sempre a mesma gota
a igual adaga que fere
o tal veneno
que matam de forma idêntica
mil vezes singular
Tanto vaguei pelo deserto
seca e sem asas
cega de areia e sal.
Teu fim atravessou meu começo
e te perpetuo em verbo
infinito
oásis verde
sereno espelho
sutil inundação